Foto: Jéssica Moreira

Recebi hoje com muita surpresa a coluna publicada pelo jornal O Globo, com fofocas sobre um suposto desentendimento meu com o deputado estadual Marcelo Freixo por declarações dele à revista Veja, como parte de uma reportagem sobre o assassinato de Marielle Franco. Eu não sei se quem caiu mais baixo foi a política ou o jornalismo, mas não se faz fofoca com o assassinato de uma pessoa. Marielle era minha amiga, minha companheira, e a ausência dela é uma dor que não acaba nunca, um sorriso que falta, uma saudade difícil de explicar com palavras.

Eu sei que estamos em campanha, que há interesses políticos em jogo, linha editorial e tudo o mais, mas deveria existir um limite ético para certas coisas.

Eu não sou apenas um deputado, um político; sou antes de mais nada uma pessoa que tem sentimentos, afetos, dores. Não caiam tão baixo, não com ela!

Para que fique bem claro: eu nada disse, em lugar nenhum, sobre as declarações de Freixo à Veja. Não dialogo com meus companheiros de partido pelos jornais, mas pessoalmente. E, de fato, o que tem me incomodado muito, nos últimos meses, é a maneira com que as informações sobre o crime, que vitimou minha amiga, estão circulando.

Sou coordenador da Comissão Externa da Câmara dos Deputados (CEXVERIO) que acompanha as investigações dos assassinatos de Marielle e Anderson, criada por minha iniciativa e integrada por parlamentares de diferentes partidos da situação e da oposição. E, como coordenador da comissão, tenho questionado, inclusive publicamente, os vazamentos estranhos de informações desencontradas e inconsistentes, que chegam aos jornais antes que à família, à Comissão Externa e às demais autoridades.

Enquanto a Polícia Civil nada nos informa, “fontes” vazam dados sensíveis à imprensa, inclusive alguns que podem atrapalhar a própria investigação.

Se, por um lado, as autoridades policiais respondem oficialmente à comissão que não podem fornecer nenhuma informação, sob o risco de prejudicar a elucidação do caso, por outro lado, dados cruciais sobre supostas testemunhas e (poderosos) suspeitos-chave (vereadores, deputados, policiais, etc.) são publicadas por diversos veículos de comunicação, extraoficialmente.

Assim, a pergunta que fica é: esses vazamentos são parte da estratégia dos investigadores, balões de ensaio ou algo do gênero? Se sim, as autoridades da CEXVERIO deveriam ser avisadas, para que possamos agir com a cautela necessária. Se, pelo contrário, não fazem parte de uma estratégia dos investigadores, deveria se instaurar imediatamente uma sindicância ou procedimento investigatório similar para descobrir o que está acontecendo dentro da própria Polícia Civil.

Eu lamento muito que, num tema tão sensível, com uma família no meio que está sofrendo a dor inimaginável da perda de uma filha, as autoridades policiais e até ministros do governo – que dão entrevistas e contam o que souberam extraoficialmente – ajam com tanta irresponsabilidade, podendo inclusive prejudicar as possibilidades de saber a verdade sobre esse crime horrendo e punir os responsáveis, tanto os que mataram quanto os que mandaram matar.

Eu lamento também que o jornalismo vire fofoca e esteja mais preocupado em divulgar supostas brigas e desentendimentos partidários que em investigar e procurar informações relevantes que permitam que haja justiça. Lamento que a política caia tão baixo, que tudo seja tão sujo.

As relações promíscuas entre o MDB, seus governos, o crime organizado, as milícias e a corrupção policial já é um problema sério demais para que, acima de tudo, transformemos este caso tão grave em uma competência de fofocas. Se alguém quiser lucrar politicamente com esta tragédia, que reflita melhor. Não vale tudo na política, mesmo. A luta pelo poder faz parte do jogo democrático, mas deve ser feita de forma ética e responsável, e, sobretudo, com afeto, sensibilidade, amor.

Tenham, todos, mais respeito pela memória de Marielle!

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