Por Vitória Balieiro

Dados levantados entre fevereiro e maio deste ano mostram que 89% dos jornalistas sofrem algum tipo de opressão que interfere no fazer jornalístico e nas notícias que serão veiculadas — ou não.

O jornalismo é um dos pilares da democracia e da cidadania. Ele fornece à população dados apurados, informações de interesse público e combate a desinformação. A partir desse processo, os cidadãos têm o contexto necessário para tomar decisões conscientes, bem como reivindicar direitos e denunciar a ausência de políticas públicas.

Contudo, o Brasil tem um histórico de silenciamento da imprensa, que se manifesta de diversas formas, como assédio judicial, autocensura (quando o próprio jornalista suaviza ou deixa de noticiar fatos por medo de represálias físicas, demissões, processos judiciais ou boicotes comerciais) e pressão econômica e política. Diante desse cenário, a jornalista Gabi Coelho e o jornalista Igor Soares, com apoio da Repórteres Sem Fronteiras (RSF), conduziram uma pesquisa sobre como os poderes paralelos — políticos, empresários, facções e forças de segurança — silenciam o jornalismo no Brasil.

Dados que revelam o impacto dessas violências na produção de notícias

A pesquisa ouviu 38 profissionais de veículos das cinco regiões do Brasil. Desses, 89% relataram ter sofrido ao menos um tipo de hostilidade no exercício da profissão, sendo as mais frequentes os ataques nas redes sociais e a intimidação presencial, citados por 47,7% dos jornalistas. Essa violência interfere diretamente nas notícias que serão veiculadas. Por meio da autocensura, os profissionais evitam pautas sensíveis e de interesse da população, como violência policial, corrupção política, uso do dinheiro público e disputas territoriais.

A falta de confiança nas autoridades, aliada à ausência de apoio psicológico e jurídico, contribui para a sensação de vulnerabilidade, desencorajando as denúncias. Como resultado, apenas 23,7% dos jornalistas registram algum tipo de queixa.

Entre os principais autores dessas pressões estão políticos corruptos, seguidos de empresários, forças de segurança do Estado e facções criminosas. Em um mapeamento realizado em 2020, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) identificou 100 jornalistas bloqueados por autoridades públicas no antigo Twitter. Outro exemplo de censura no meio digital é o de Adriano Wilkson, jornalista investigativo que faz denúncias de corrupção no estado do Pará e é alvo de pressões judiciais e do bloqueio de suas contas nas redes sociais, uma de suas principais formas de veicular notícias.

Algumas das estratégias utilizadas pelos jornalistas entrevistados para continuar levando as informações adiante e contornar a ausência de estrutura e apoio incluem o uso de comunicação criptografada, a publicação sem assinatura e a omissão de detalhes territoriais.

A censura em conflito com a democracia

O jornalismo e a democracia são mutuamente dependentes. Enquanto o jornalismo fornece a informação factual e a fiscalização necessárias para que os cidadãos façam escolhas conscientes, a democracia garante a liberdade de expressão e de imprensa. Os dados revelam que o fazer jornalístico está sendo cada vez mais desencorajado e descredibilizado. Continuar informando e apurando é, também, um ato de resistência. Diante de um ano eleitoral, torna-se ainda mais evidente a necessidade de uma imprensa livre, sem censura ou interferência do Estado.