Haiti vive crise interna e tenta esquecer isso com a classificação para Copa do Mundo
País enfrenta tensões desde sua independência até os dias atuais
Por William Pessoa – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
O Haiti vive um momento histórico em copas, depois de 52 anos a equipe caribenha volta a se classificar para uma copa do mundo, a última vez em que o país disputou a competição foi em 1974. Porém, mesmo com a alegria da classificação histórica sua população vive momentos tensos, atualmente o país está sob forte controle de gangues, segundo dados da ONU hoje 80% do país é comandada por gangues. Toda essa violência fez com que, durante as eliminatórias a equipe não tenha jogado um único jogo no país e seu técnico, Sebastian Migné, nunca pisou em território haitiano.
Caos político e Insegurança pública
O país é marcado por instabilidades políticas desde o século XIX, e não tem sido diferente nos últimos anos. O último presidente, Jovenel Moïse, foi assassinado em 2021, em sua residência, próxima à capital haitiana. Após sua morte, seu então primeiro-ministro, Ariel Henry, assumiu o poder de forma interina. Porém, após forte pressão de gangues criminosas, Henry renunciou ao cargo em 2024. O país ficou cerca de dois anos sendo comandado por um conselho de transição e, somente neste ano, com apoio dos Estados Unidos, o poder foi entregue ao primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé.

A violência no país já deslocou quase 600 mil cidadãos de suas casas durante 2025, segundo dados da ACNUR (Agência da Organização das Nações Unidas para Refugiados). Desde a criação dos brutais Tontons Macoutes, em 1958, pelo ditador François Duvalier, conhecido como Papa Doc, o número de facções criminosas no país só aumentou.
Em 1995, quando o então presidente Jean-Bertrand Aristide extinguiu o Exército, em meio a denúncias de envolvimento da instituição com esquemas de corrupção e violações de direitos humanos, o país enfraqueceu sua capacidade de combate ao crime organizado. Mesmo com a criação da Polícia Nacional do Haiti, as facções criminosas ainda possuíam maior poder de fogo.
Dupla crise
O Haiti foi o primeiro país latino-americano a declarar independência e a mais antiga república negra do mundo. Mas a luta pela libertação custou um preço alto. Durante o processo de independência, grande parte das plantações e da infraestrutura do país foi destruída, o que resultou em dificuldades econômicas duradouras para a nação caribenha.
Por conta desse cenário, o país precisou recorrer a empréstimos ao longo dos anos, criando uma forte dependência financeira em relação à França e aos Estados Unidos. Em razão desses fatores, o Haiti depende de auxílio internacional. Entre 2011 e 2021, estima-se que o país tenha recebido pelo menos US$ 13 bilhões em ajuda externa.

Fonte: Getty Images
Além da pobreza, outro obstáculo enfrentado pelo Haiti são os frequentes eventos climáticos extremos. Localizado em uma região sujeita a terremotos, furacões, tempestades tropicais e períodos de seca, o país sofre constantemente com desastres naturais. A precariedade da infraestrutura e a dificuldade de resposta do poder público fazem com que esses fenômenos provoquem impactos ainda mais severos sobre a população.
Somando instabilidade política, violência, dificuldades econômicas e vulnerabilidade climática, o Haiti enfrenta uma das mais complexas crises humanitárias das Américas. Ainda assim, em meio a tantos desafios, o país alcançou uma conquista que simboliza a resiliência de seu povo: a classificação para a Copa do Mundo de 2026. A presença da seleção haitiana no maior torneio de futebol do planeta representa mais do que um feito esportivo, é também um motivo de orgulho nacional e uma rara oportunidade de unir a população em torno de uma esperança coletiva em meio às adversidades que marcam o país.



