Água, energia, direito à moradia e ao voto, direito de pescar e produzir para o próprio sustento, liberdade de circulação, a própria vida. Tudo isso já foi. O que restou para Israel retirar dos palestinos? A complacência. E é isso que exige agora Benjamin Netanyahu, que enfrenta com maestria maquiavélica o tsunami político que varre sua administração. Em entrevista ao jornal conservador Israel Hayom, o premiê israelense se colocou à direta do ultradireitista “Acordo do século” proposto pelo governo Trump.

Em sua interpretação, o texto presenteado a Tel Aviv pelo genro do mandatário estadunidense Jared Kushner (ah, os nepotismos da direita…), traz uma “oportunidade histórica para mudar o curso da história (sic), que estava apontando para uma única direção o tempo todo”. Para Bibi, “todos os planos diplomáticos do passado nos pediam para conceder vastas franjas da Terra de Israel, retornar às fronteiras de 1967 e dividir Jerusalém”. Note-se que essas demandas nada mais são do que o previsto pela lei internacional, já deturpada pela Guerra dos Seis Dias, quando Israel anexou as Colinas de Golan, na Síria; a Faixa de Gaza palestina; a Cisjordânia e a Península, até então egípcia, do Sinai.

Mas Israel, Estados Unidos e lei internacional são palavras que não cabem na mesma frase, a não ser quando se coloca os dois primeiros em oposição à terceira. Com isso fora de vista, Netanyahu ainda se queixou de ter que receber refugiados em seu território e disse que Israel não tem que ser forçado a fazer concessões. “Os palestinos que têm que fazê-la”. A cereja do bolo: a população palestina nos territórios anexados não terá direito a cidadania israelense, ainda que seu território seja controlado por Tel Aviv. Considerando que o estabelecimento de um Estado palestino não está nos planos, isso criaria, hoje, mais de 4 milhões de apátridas, seres humanos à margem da comunidade de direitos. Esse número obviamente crescerá conforme novos territórios sejam ocupados.

Resumo: o plano da teocracia é um genocídio numericamente equiparável ao nazista, por uma ironia sem graça do destino. E o que é mais louco é que Netanyahu alimenta o mesmo tipo de paranoia que estimulava o pensamento hitlerista, de que há uma conspiração global que ameaça uma raça. Aqui são necessários parênteses: tanto na Rússia czarista, onde brotou a bíblia apócrifa do antissemitismo, o chamado Protocolo de Sião, quanto na Alemanha do início do século XX, o povo judeu não era considerado uma comunidade religiosa, como é hoje, mas uma raça (“inferior”, dentro da ideologia de hierarquização racial que, à época, se travestia de ciência). Isso faz da Revolução Russa, que os nazistas não  toa, chamavam de “bolchevismo judaico”, uma reviravolta antirrascista.

Em seu julgamento por corrupção, iniciado em maio passado, o premiê israelense apelou para uma teoria conspiratória que lideranças ameaçadas da extrema-direita como Donald Trump e Jair Bolsonaro devem estar estudando cuidadosamente. Com impressionante perspicácia midiática – ao invés de se deixar filmar chegando ao tribunal no dia 24, ele entrou pelos fundos e saiu pela frente, aproveitando a oportunidade para inverter a lógica e fazer um discurso do tipo j’accuse contra o judiciário –, Bibi deu a entender que os juízes de Israel faziam parte de um grande complô para acabar com as anexações territoriais e libertar a Palestina. Por trás da conspiração, estão a mídia e os partidos “de esquerda”. Detalhe: eles não existem em Israel. Não é mera coincidência qualquer semelhança com os comunistas imaginários que habitam as fantasias do bolsonarismo linha-dura, essa ampla e curiosa articulação que vai desde os black blocks até a TV Globo.

Em linha similar, Flávio Bolsonaro diz que a prisão de Fabrício Queiroz é um complô para ferir a presidência de seu pai. Nada a ver o fato de que, há mais de um ano, seu advogado dava guarida ao miliciano responsável por operar o esquema de apropriação privada de dinheiro público em seu gabinete. Também mundanas, embora indescritivelmente menos graves, são as três acusações que pesam sobre Netanyahu. O caso 4000 investiga tráfico de influência: o premiê teria oferecido benefícios regulatórios à principal telecom israelense, a Bezeq Telecom, em troca de cobertura midiática favorável. Já o caso 1000 investiga o recebimento indevido de quase US$ 200 mil em presentes do cineasta israelense Arnon Milchan e do bilionário australiano James Packer. E o caso 2000, muito similar ao primeiro, investiga o acordo que o premiê teria feito com o principal jornal local, o Yedioth Ahronoth. Em troca também de uma cobertura complacente, Netanyahu teria aprovado peças legislativas para frear o crescimento da concorrência.

Quem tem coragem busca justiça; condescendência é o que exigem os covardes. Hitler tinha tanto medo que tão logo começou sua aventura expansionista, se isolou num castelo, mantendo armas ao alcance da mão em cada cômodo. Trump suspendeu vistos de autoridades do Tribunal Penal Internacional porque quer complacência com os crimes de guerra do Império. Mohammed Bin Salman provavelmente ordenou a tétrica execução do jornalista Jamal Khashoggi porque quer complacência com a brutalidade da monarquia wahabista que comanda. Bolsonaro ataca o Judiciário e a imprensa porque não quer ter descortinadas sua corrupção e sua incapacidade administrativa. Quer complacência. Mesmo quando chegam ao poder, fascistas não têm poder; eles têm traumas, que se convertem em medo. Quando se socializa, seu medo privado se ancora em teorias conspiratórias para estabelecer a paranoia coletiva.

Isso não quer dizer de jeito nenhum que não se deva levar a sério a instrumentalização política do medo. É dela que brotam as atrocidades. No solo palestino, a semente do mal já é uma árvore. De seus ramos, a extrema-direita global colhe estratégias de opressão em nome da complacência. Falta a nós, que somos resistência, aperfeiçoar a colheita de solidariedade em outras raízes.

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