Secretário não cai pelo fascismo, mas porque vendeu um modelo ultrapassado do produto autoritário, expondo a linha do tempo do projeto de expropriação elitista, que liga Hitler a Guedes

Arte: Renato Brito Mamede / @remamede

Imagino a satisfação do secretário Roberto Alvim ao concluir sua obra-prima de pesquisa estética. Depois de bem dispor a camisa branca, laçar a gravata austera e sobrepor o modelito com um paletó cinza de corte clássico, deve ter revisado sua versão da cruz de Lorena, acariciado com devoção a bandeira nacional, retificado milimetricamente o quadro do líder. Uma passada de mão sobre a sólida mesa de madeira para retirar “Minha luta”, aberto no capítulo 1, “A casa paterna”. Naquelas linhas, Adolf Hitler conta de quando assistiu aos 12 anos, ainda em Viena, à ópera wagneriana Lohengrin, que inspirou no futuro soldado das trincheiras alemãs na Primeira Guerra, o gosto pela estética nacionalista.

De Wagner, Hitler extraiu não só a ideia de que “o povo” (ariano, é claro) é um construto de consanguinidade que abriga uma potência transcendental recessiva de dominação, mas o próprio título que se autoatribuiria ao se eleger pai da grande família alemã: führer, cargo atribuído ao protagonista no último ato da ópera. Hitler sabia que deveria aludir a um componente cultural profundo da identidade nórdica e traduzi-lo ao idioma da política.

Na cabeça do agora ex-secretário, devemos estar à beira de uma Noite dos Cristais, um expurgo violento, da Porta dos Fundos ao liberalismo identitário da TV Globo

Alvim não teve essa sagacidade simbólica, foi literal. O discurso que proferiu na última quinta-feira (16) não chega a ser um plágio do ministro hitlerista da Propaganda, Joseph Goebbels; é um cosplay de nazista. Para ter criado essa aberração, ele deve estar bastante excitado pela rapidez com que se solidifica o fascismo no nosso país. Poucas semanas atrás, galinhas verdes faziam sig heil na Av. São João, em São Paulo, impunemente. A militância já escalona por conta própria a reação à diversidade nas ruas. A polícia e o Judicário já se identificam como forças fascistas, a ponto de contrariar a lei da terra e coibir manifestações públicas de antifascismo. Imagino que, na cabeça do agora ex-secretário, devemos estar à beira de uma Noite dos Cristais, um expurgo violento da ampla “escória comunista pequeno-burguesa”, que espana da Porta dos Fundos ao liberalismo identitário da TV Globo.

A fachada asséptica do nazismo brasileiro

Era de se esperar que, nesse contexto, alguém do governo rompesse a cortina formal da ideologia misantrópica que vem sendo incutida na sociedade brasileira de forma subcutânea. Bolsonaro foi eleito usando o mesmo slogan de Hitler (Deutschland über alles, “Alemanha acima de todos”), mas a grande mídia resolveu não atentar para isso. Cometeu crime de ódio atrás de crime de ódio, mas em nome de “tirar o PT”, tava valendo.

Olavo de Carvalho, que é obviamente um teórico da conspiração, passou a ser chamado de “filósofo” e “professor” nos últimos anos. Os flagrantes abusos de Sergio Moro ganharam a alcunha de “métodos heterodoxos”. Falas nazistas de Bolsonaro e família foram repaginadas como “discursos conservadores”. A reorientação das funções estatais para a manutenção exclusiva de privilégios das classes dominantes virou “desburocratização do Estado”, que havia sido “aparelhado” pelo PT.

Com sua instrumentalização do antipetismo, o establishment liberal garantiu o bode expiatório aos nazistas. Agora, aguenta ou enfrenta. Provavelmente vai aguentar a ética e enfrentar a estética

Assim, perpetuou-se a paranoia de que o PT, mesmo fora do governo, continua dando as cartas. Graças à popularização desse discurso, a extrema-direita consegue seguir mobilizada como movimento político antiestatal, mesmo ocupando o governo. E pode justificar a utopia fascista de “higienização”: a ideia de que é necessário “limpar” o Estado (e, posteriormente, a sociedade) de uma praga antes de botá-lo para funcionar. Com sua instrumentalização do antipetismo, o establishment liberal garantiu o bode expiatório aos nazistas. Agora, aguenta ou enfrenta. Provavelmente vai aguentar a ética e enfrentar a estética.

Porque esse projeto de dissolução da institucionalidade iluminista tem simpatia dos círculos liberais porque não é produto do bolsonarismo de Olavo de Carvalho ou mesmo de Steve Bannon. É um movimento de placas tectônicas do capitalismo global, que já compreendeu que a produção de lucro é cada vez menos dependente do trabalho e a manutenção de uma classe dominante radicalmente parasitária num mundo em boom populacional depende da redução do Estado às funções de facilitador da exploração e administrador da violência repressiva.

Estética é o menor dos nossos problemas

Mas Roberto Alvim é ingênuo, está aquém dessa discussão. Nem depois de destruídos todo direito social, toda proteção aos mais fracos, toda função distributiva do Estado, toda garantia jurídica que atenue a desigualdade; enfim, todo o aparato civilizatório do Estado, vai dar para fazer o que ele fez. O que se está criando é outro fascismo, novo, mais arrojado. E nele, fascistas e liberais caminham lado a lado. Basta ver como a Globo e a Folha batem em Bolsonaro mas poupam Paulo Guedes, que é o braço econômico – e mais eficaz – desse projeto de desintegração social.

A marca duradoura do fascismo pós-crise de 2008 não é a suástica nem o imperialismo clássico, mas a chamada “austeridade fiscal”

Ao se travestir de nazista vintage, Alvim promove a versão 1929 de um projeto que a direita global se esforça há anos para atualizar para a segunda década do século XXI. Agora, o secretário despenca e a mídia corporativa denuncia fervorosamente a ponta estética do iceberg fascista, enquanto promove sua base econômica submersa. O medo da direita liberal diante do nazismo escancarado não é o desmoronamento da democracia ou mesmo da civilização, mas que o rompimento da já tão fina capa ideológica comprometa o projeto econômico autoritário que só o totalitarismo é capaz de executar.

A marca duradoura do fascismo pós-crise de 2008 não é a suástica nem o imperialismo clássico, mas a chamada “austeridade fiscal”. É ela quem vai acirrar a exploração a ponto de obrigar o estabelecimento de um Estado policial permanente, que só a suástica poderá prover. Quem sustenta Alvim, Weintraub, Damares, Araújo e o resto do circo bolsonarista é a política econômica de Paulo Guedes. Por fazer as vezes de embaixadora de um governo aberrativo para o mundo “normal”, a pasta da Economia é o elemento que legitima a radicalização do extremismo de direita. Ou seja, impedir o crescimento do nazismo significa se opor radicalmente à agenda econômica do governo. E isso, o centro midiático e político não quer.

Capitalistas liberais sempre tiveram essa mania de achar que é possível injetar doses controladas de fascismo na sociedade para garantir o aprofundamento da exploração econômica. Isso nunca funciona: o último domador de fascista da arena política nacional foi o PSDB. Engolido pelo monstro, evaporou. Agora, a grande mídia tenta descolar o extremismo político do extremismo financeiro para dizer que a aberração é estética e não ética. Mas enquanto Paulo Guedes, que mata limpinho, for poupado pelo establishment, os extremistas que se regozijam na orgia de violência estarão livres para agir.

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