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Por Gabriel RG e Mariana Villermosa*

No outono de 1987, Margareth Thatcher soltou uma de suas frases mais célebres, em entrevista à revista feminina Woman’s Own: “Não existe essa coisa chamada sociedade”. Neoliberal radical, a então premiê conservadora britânica queria dizer que a vida organizada sob o capitalismo – e, como ela própria dizia, não há outra organização de vida possível – é uma confluência de seres atomizados, cujos interesses individuais, em embate com outros interesses individuais, determinam rumos coletivos, para o bem ou para o mal.

Mas é no mínimo controversa a ideia de que a competição está inscrita na “natureza humana”. Afinal, há característica mais exclusivamente humana do que a capacidade de abstração que leva à linguagem complexa? O fato de que ela só pode existir a partir de símbolos socialmente compartilhados prova não só que existe uma coisa chamada sociedade, mas que nosso traço mais marcante como espécie é a colaboração, não a competição.

Acontece que o capitalismo é mau perdedor. Diante da evidente insustentabilidade desta teoria de atomização social radical – materializada na persistência da luta de classes após o que os neoliberais consideram o “fim da história” (o colapso da URSS) –, ao invés de adaptar a teoria para encaixá-la na sociedade, adaptamos a sociedade para se encaixar na teoria. E hoje, conforme a classe trabalhadora é destroçada pela precarização e a concentração de renda; conforme o colapso ambiental se aproxima de forma aparentemente inexorável e nos tornamos mais capazes de pensar o fim da humanidade do que o fim do capitalismo, nos aproximamos da sociedade thatcheriana.

As opções eleitorais por projetos anti-humanos ao redor do mundo – de Duterte nas Filipinas a Orban na Hungria, passando pelo indiano Modi, o estadunidense Trump e o brasileiro Bolsonaro – evidenciam essa descrença na existência de uma sociedade; mostram uma humanidade que caminha a passos largos para um mundo do “cada um, cada um”, em que a empatia se esvai, conforme o Estado é relegado à função única de gestor da violência contra as parcelas mais vulneráveis da população.

A revolução não brota da atomização

É em três camadas dessa distopia neoliberal que se passa “Coringa”, do diretor Todd Phillips. O filme não tem lugar nem momento histórico definidos, mas faz clara alusão à Nova York do final dos anos 70, início dos 80, período aproximado da chegada do neoliberalismo ao poder nos grandes centros nervosos do sistema, os Estados Unidos e o Reino Unido. Por isso, é neoliberal ao triplo: retrata a era de Ronald Reagan e Margareth Thatcher, com a configuração socioeconômica que podemos imaginar para a próxima década, caso o trem siga descarrilado, e passa nas telas do mundo protofascista de 2019.

No universo da trama, a classe trabalhadora se dissolveu por completo e sobrevive apenas como mímese para o entretenimento dos ricos, como magistralmente retratado na cena em que a alta burguesia de Gotham City ri do comunista Charlie Chaplin em uma exibição VIP de Tempos Modernos. Sob o peso das políticas de “austeridade” – palavra moralista para descrever a expropriação dos direitos sociais pelo topo da pirâmide –, os trabalhadores de outrora foram literalmente reduzidos a tristes palhaços precarizados, atomizados, enquadrados socialmente apenas como lúmpen criminal ou case psiquiátrico efêmero.

Com seu triplo retrato do neoliberalismo, Coringa traz a ácida crítica de que o sacrifício dos pobres no altar do grande capital não leva a lugar nenhum

Interpretado com rara excelência por Joaquin Phoenix, o protagonista Arthur Fleck vai lentamente se tornando um ícone social ao reunir, de forma extremada, essas duas características do precariado. Ele é a caricatura perfeita da vulnerabilidade e, ao aceitar essa vulnerabilidade, ele valida sua sublimação em uma catarse de violência. Teve gente que viu o final do filme, quando o palhaço ensanguentado, homicida performático, ergue-se sobre o pódio de uma viatura policial e sorri diante da depredação descontrolada, como uma centelha revolucionária em um mundo opressor, um legítimo movimento de classe.

Mas o que acontece ali é o que acontece quando “não há alternativa”: uma explosão que acaba vitimando muito mais as bases da sociedade do que a estrutura de poder, tanto pela ação direta dos revoltosos quanto pela repressão ou cooptação subsequentes. Se não há horizonte para a construção de uma alternativa de sociedade; se o povo se desintegrou a ponto de não se reconhecer coletivamente; e, pior, se não há uma identidade de classe capaz de direcionar a revolta popular contra o verdadeiro algoz, o verdadeiro promotor da desintegração social (a ordem de exploração e opressão capitalista), a revolta se esvai no niilismo. O máximo que ela permite é uma inócua reação moral, como o assassinato, sem planejamento simbólico, de qualquer figura que personifique “o sistema”, como a família Wayne, no caso do filme.

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Com seu triplo retrato do neoliberalismo, Coringa traz a ácida crítica de que a desintegração social causada pelo arrocho em tempos de crise, o sacrifício dos pobres no altar do grande capital, não leva a lugar nenhum. A revolução não brota da atomização. Quando o indivíduo é despido de seu último traço de sociabilidade, ele busca qualquer ideia de pertencimento: da máscara de palhaço à aceitação coletiva da sociopatia. O que se materializa com a revolta do Coringa é o individualismo coletivo, a morte dos postulados liberais clássicos (como “meu direito termina onde começa o do outro”), o império da lei-do-mais-forte, e a radicalização da liberdade individual sobre qualquer aspiração coletiva. É a aceitação, por quem não tem nada mais a perder, de que “não existe uma coisa chamada sociedade”. Logo, cada um faz o que bem entender.

Enquanto a elite perfuma o lixo e caça bodes expiatórios para transformar a crise estrutural em um problema moral – lembra do candidato Wayne apoiando sua campanha política sobre combate à corrupção e o discurso da lei e da ordem? –, o pobre revoltado rasga o saco e joga o lixo na rua. Esse é o resultado da atomização social: a morte da empatia e da identidade de classe.

Talvez estejamos tão viciados na na ideia simplória de que a sétima arte serve para matar tempo e gerar bilheteria, que somos incapazes de encontrar o drama humano por trás da trama

E é aí que entra a terceira camada, a metacamada, do neoliberalismo de Coringa: a falta de empatia extrapola a tela e expõe o protofascismo do próprio público. São sintomáticas as reações da plateia à angustiante distopia que a trama desvela. Talvez estejamos tão viciados na lógica do entretenimento, na ideia simplória de que a sétima arte serve para matar tempo e gerar bilheteria, que somos incapazes de encontrar o drama humano por trás da trama. E talvez essa situação se agrave quando assistimos a um “filme de super-herói” que, tacitamente, esperamos que ative nossas emoções e não nosso intelecto.

Tem riso mais inadequado do que rir do riso inadequado?

O público ri de Coringa. Quando Arthur Fleck faz graça para uma criança no ônibus, é reprimido pela mãe e apresenta o cartão em que se diz portador de uma doença que faz dispararem gargalhadas fora de contexto, o público ri. Quando playboys de Wall Street abordam violentamente uma mulher num vagão do trem e o protagonista, nervoso, com os olhos marejados em desespero, engasga na própria gargalhada, o público ri. Quando o anão presencia o brutal assassinato de seu colega pelo Coringa e não consegue fugir da cena do crime porque não alcança a trava da porta, o público ri. Só nestes exemplos, constatamos que o cidadão de bem é capaz de rir de doença mental, cultura do estupro, deficiência física. O filme rompe a cortina com o público e expõe sua desumanidade.

Fleck explica sua própria doença a todo momento, expõe sua depressão profunda e seu transtorno de personalidade, mas não encontra empatia, nem dos outros personagens, nem do público. Ele diz, com todas as letras: “A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se ela não existisse”. Mas, dentro da trama, recebe no máximo uma compaixão de fachada, talvez resquício de uma correção política anterior à hegemonia do neoliberalismo que o filme retrata.

Essa compaixão formal está na complacência gélida da psiquiatra ou no voto de confiança interesseiro que o protagonista recebe do apresentador de TV vivido por Robert De Niro, por exemplo. Esses personagens usam a aparência de civilidade para se diferenciar da massa violenta, mentalmente debilitada. Em outras palavras, parasitam na doença alheia, usando da fragilidade do outro para afirmar sua própria superioridade em termos morais, sociais e intelectuais. Também aí a trama rompe a barreira da ficção. Afinal, o mundo real em que vivemos ainda não entende depressão como doença, mesmo que cerca de 300 milhões de pessoas no mundo sofram dela, de acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde).

Se a vida em sociedade e a existência de um repertório linguístico e cultural compartilhado são o que nos define como seres humanos, que parâmetro de humanidade sobra para quem nasce inapto ao “normal”?

Somos um país que teve um hospital colônia, em Barbacena, comparado a um campo de concentração nazista, somos conduzidos por um governo que busca restaurar os manicômios. Nesse sentido, a imagem do doente mental assassino que o filme mostra pode ser nociva, estigmatizante – mesmo que o trumpismo ou o bolsonarismo gostem de associar doença mental e violência, são raríssimos os casos de doentes mentais violentos. Coringa pode ser o herói literário do filme e há um esforço genuíno de apresentar as causas de seu transtorno. Mas sua estranheza, tanto física quanto psicológica, reforça a tendência de que o vejamos como o “outro”, o desintegrado, o alien.

Se a vida em sociedade e a existência de um repertório linguístico e cultural compartilhado são o que s define como seres humanos, que parâmetro de humanidade sobra para quem nasce inapto ao compartilhamento intelectual e afetivo tido como “normal”? Como sociedade, ainda não somos capazes de responder essa pergunta. Tanto que fazemos com portadores de doenças mentais o que os personagens do filme fazem com Fleck: exigir comportamento normal. Isso é o mesmo que fingir que a doença mental não existe; o que leva a tortura e criminalização de quem sofre dela.

Ou seja, Coringa expõe um público que já tem completamente consolidada a figura do outro descartável, do sub-humano, do bode expiatório. Nós, coletivamente, somos o resultado fascistoide da radicalização da atomização neoliberal. Somos o lúmpen que agride o Coringa na primeira cena, quando sua vulnerabilidade está escancarada, e se organiza em torno dele, quanto ele toma a atitude falocêntrica, pseudo-empoderadora, de assassinar uma pessoa ao vivo na televisão. Em outras palavras, nos reunimos em torno do individualismo niilista, machão, como fizemos com Trump, Bolsonaro, Duterte etc, sob argumentos como “esse não tem medo de falar a verdade”, “esse faz o que ninguém tem coragem de fazer” e por aí vai.

Apoiar a saída fascistoide, reacionária, é uma catarse. Vemos a violência subjetiva do outro como redentora da violência objetiva que nós mesmos sofremos, mas cujas causas somos incapazes de identificar. E isso acontece porque a violência objetiva, aquela que causa milhões de mortes assépticas por minuto, é muito menos perceptível do que a subjetiva, que tem cheiro, cor e imagem. Se vivemos uma experiência subjetiva de violência, como presenciar um assassinato, por exemplo, precisamos de anos de terapia para nos recuperar; mas seguimos a vida tranquilamente sabendo que mais de 3 milhões de pessoas morrem de fome por ano, num planeta que desperdiça um terço dos alimentos que produz. E é por isso que o fascismo funciona: ele exacerba e legitima a violência subjetiva, oferecendo uma saída vingativa individualista para evitar encarar a objetiva.

Essa é a operação que o protagonista do Coringa realiza, de forma involuntária, declaradamente apolítica, conquistando seguidores entre o precariado de Gothan City. Nessa hora, quando o palhaço vira horda, um perceptível calafrio percorre o público pela primeira vez. É que, bombardeado de ideologia classista, ele se vê cúmplice da burguesia e toma suas dores. Ou seja, na terceira esfera de crítica ao neoliberalismo e à atomização, o filme se metaconcretiza e mostra que a não-sociedade de 2019 é incapaz de se solidarizar com o oprimido (mulher, deficiente mental, minoria), mas tem empatia imediata pelo seu próprio opressor. Coringa é uma obra-prima, um belo retrato de um mundo horroroso.

*Médica venezuelana do Mais Médicos, coordenadora do UNIELAS, grupo de apoio psicológico a adolescentes vulneráveis na UBS de Munhoz Jr., periferia de Osasco-SP.

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