A pesquisa científica provou a impossibilidade física da subjugação ao deus mercado. Cabe a seus cruzadistas assassiná-la antes que ela destrua a religião; mesmo que isso leve à extinção da humanidade.

 

Comparando a teologia do capital à teologia cristã, a acumulação equivale ao paraíso. Ambos têm a mesma característica de infinitude, a mesma característica de transcendência de qualquer amarra da vida real e inspiram o mesmo desejo utópico. Só que o capital é uma religião laica, uma religião cujo paraíso é material. E isso impõe um problema grave: quando o pensamento mágico religioso é transposto para a realidade cotidiana, a realidade se sobrepõe. E a realidade é que o infinito pode caber no céu, mas não cabe na terra.

Impôs-se o limite para a exploração dos chamados recursos naturais, a exasperação da capacidade regenerativa da terra. A constatação científica de que a ação humana conduz ao caos climático corresponde à expulsão do paraíso na religião do capital. Mas, ao contrário de Adão e Eva, que na mitologia aceitaram o fardo imposto por deus, o neoliberalismo resolveu enfrentar a natureza. Só que a natureza é mais impositiva do que o deus transcendental da Bíblia, por um motivo simples: ao contrário de deus, cuja existência responde ao anseio humano pela imortalidade, a natureza independe dos nossos desígnios. O caos climático e suas consequências são inexoráveis. E, como não fomos criados a sua imagem e semelhança, a natureza não enviará um filho único para servir de bode expiatório da humanidade. Nesta guerra do lucro contra a natureza, a humanidade não tem o trunfo de ser a espécie escolhida.

É um cenário de colapso teológico. Para salvar o paraíso, restou uma única alternativa, consciente ou não, aos crentes do capital: matar o mensageiro. Por ser um pensamento mágico, o capitalismo (e principalmente sua vertente fundamentalista neoliberal) é obrigado a declarar guerra à ciência. Foi a ciência que provou a impossibilidade física da subjugação ao deus mercado. Cabe a seus cruzadistas assassiná-la antes que ela destrua a religião; mesmo que isso leve à extinção da humanidade.

Salvar a economia de mercado implica criminalizar a razão. É por isso que, desde o colapso do sistema financeiro em 2008, têm proliferado ou se agravado desde seitas apocalípticas como o autoproclamado Estado Islâmico e seu anverso ocidental neopentecostal até o terraplanismo e as explosões das mal-denominadas fake news. Tudo isso tem uma característica radical comum: o anticientificismo militante.

Mas há formas mais sutis de expressão desse dilema teológico-filosófico. É ele, por exemplo, que obriga João Doria a reabrir o comércio no estado de São Paulo, sem dispor de dados objetivos que sustentem a viabilidade da decisão. O governador é um soldado na guerra pelo salvamento de uma religião ameaçada pelas conclusões da ciência.

Por incrível que pareça, a luta pela razão, pelo rigor intelectual, é mais importante hoje do que na Grécia Antiga, de onde emanou o mito platônico da superioridade das ideias (e consequentemente da espécie humana) sobre o mundo físico, sobre a natureza. Dois mil e quinhentos anos depois da fundação desta resiliente metáfora destrutiva, temos que enfrentá-la para defender o próprio pensamento. Só que, ao contrário do que acontecia naquela época, aqui não existe ágora e, pouco a pouco, a própria filosofia some na neblina. É triste. Mas não é à toa.

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