As teses da “gripezinha”, do milagre da cloroquina e, por fim, do argumento cínico “destino de todo mundo” para justificar a morte de 30 mil pessoas pelo Covid-19, desmascaram um presidente que apostou todas as suas fichas podres na tragédia anunciada da pandemia, se utilizando de uma estratégia suicida de Governo, que se apresenta nefasta para a saúde pública do país. Bolsonaro se mostra cada dia mais impotente ante os seus próprios desmandos e incapaz de conduzir, não só o combate contra a expansão do contágio e evolução vertiginosa dos óbitos pelo Covid-19, como também, os destinos de um país de tamanha importância e complexidade, como o Brasil.

Parece óbvio, que os resultados do crescimento descontrolado do vírus e os episódios que colocam os EUA em chamas, nos últimos sete dias, refletem-se por correlação no governo de Bolsonaro, expondo-o às críticas da opinião pública e às reações cada vez mais agudas de grupos sociais dispostos a confrontar o presidente e seus seguidores nas ruas, de forma a retomar os territórios até então ocupados com o discurso de ódio e ataques constantes à democracia, por bolsonaristas.

Estas são evidências do processo de desgaste de um governo com inumeráveis problemas em todos os setores, não só na conduta ética, inexistente, mas também no campo da administração das políticas públicas e, especialmente na economia, que desanda desde antes da crise provocada pelo Covid-19. Desde sempre esteve clara a incapacidade gerencial de Bolsonaro, afinal um deputado que frequentou o Congresso Nacional por 27 anos, durante sete mandatos, e só conseguiu aprovar dois projetos de lei de sua autoria, já dizia a que veio no Executivo.

Esgotadas as teses para desqualificar a letalidade do vírus e a importância do isolamento social para conter a pandemia, o Governo – por meio do Presidente e seu do vice -, lançam-se em ameaças aos movimentos que surgiram com panelaços diários nas janelas do país inteiro, e que, agora, se encaminham para as ruas. Bolsonaro se abrigou na tese do jurista Ives Gandra, sobre o artigo 142 da Constituição Federal, aventando que as Forças Armadas teriam poder moderador e de interferência nos processos políticos do país, em casos de conflitos entre Poderes.

Em resposta, o próprio Ives Gandra criticou as leituras políticas e ideológicas dos apoiadores de Bolsonaro sobre os seus pontos de vista, afirmando estar completamente equivocado quem vê no dispositivo, margem para golpe de Estado. Por outro lado a Organização dos Advogados do Brasil (OAB) se manifestou sobre a questão por meio de um parecer, que afirma: “A Constituição Federal não confere às Forças Armadas a atribuição de intervir nos conflitos entre os Poderes em suposta defesa dos valores constitucionais, mas demanda sua mais absoluta deferência perante toda a Constituição Federal, o que inequivocamente perpassa o princípio da separação dos poderes”.

Por sua vez, o vice-presidente Mourão publicou um artigo no Jornal O Estado de São Paulo, nesta quarta-feira, 03, com ameaças aos manifestantes que saíram às ruas, no último final de semana, para protestar contra o seu Governo.  Segundo o general, aquelas “manifestações foram abusivas, por ferirem literalmente, pessoas e o patrimônio público e privado, todos protegidos pela democracia”. Afirmou ainda ser um “abuso apresentá-los como contraparte dos apoiadores do governo na tentativa de transformá-los em manifestantes legítimos”.

Referindo-se aos manifestantes como delinquentes, acentuou que não se dirigia a eles: “Sempre perdidos de arma na mão, os que em verdade devem ser conduzidos debaixo de varas às barras da lei”, mas “aos que os usam querendo fazê-los de armas políticas; aos que, por suas posições na sociedade, detêm responsabilidades institucionais”, concluiu.

Ao vice-presidente cabe uma lembrança: quem parece estar perdida de “arminha na mão” seja à sua campanha política, de 2018, por uso e abuso de fake news, alvo de um inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) e de uma Comissão Parlamentar de Inquérito Mista (CPIM), no Congresso Nacional. Poderes que o Governo parece querer submeter aos seus domínios, sugerindo interferência militar segunda às suas leituras do artigo 142 da Constituição, como visto acima.

O que preocupa o vice-presidente seria o temor da voz surda das ruas? O temor à memória das massas quanto ao episódio do músico Evaldo dos Santos, assassinado por militares do exército com 80 tiros, dentro do carro em que passeava com a família num dia de domingo? Temor da revolta do povo pelo genocídio de jovens negros nas comunidades e favelas, como aconteceu há poucos dias com o garoto João Pedro no Morro do Salgueiro em São Gonçalo, e com os nove jovens de Paraisópolis em São Paulo, mortos em ações injustificadas da Polícia Militar?

Se os manifestantes que o vice-presidente define como delinquentes deveriam ser “conduzidos debaixo de varas às barras da lei”, como deveriam ser conduzidos aqueles que praticaram tal assassínio? Como deveriam ser conduzidos os responsáveis por 30 mil mortes das vítimas por Covid-19, aqueles que cruzaram os braços e os que vão às ruas debochar da letalidade do vírus e combater o isolamento social? Por fim, como deveriam ser conduzidos os apoiadores do Governo, aquartelados na Esplanada dos Ministérios, em permanente afronta à democracia e ataque ao STF e Congresso Nacional? Diz o povo: “a vara que bate em Chico, também bate em Francisco” – talvez seja esse o temor.

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