Que lições tirar da Cúpula de Roma (G20) e da COP-26, em Glasgow

Parecia improvável que Jair Bolsonaro pudesse superar-se em matéria de constrangimentos internacionais, depois da sua participação, em setembro, da abertura da 76ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas – reunião de líderes mundiais, na qual o Brasil conserva o privilégio de abrir os trabalhos com o discurso do mandatário em exercício.  Bastaram cerca de 40 dias para que se dissipassem as expectativas. Se em Nova York o presidente e a sua entourage passaram pelo constrangimento de comer pizza de pé, na calçada de um restaurante, por não obedecer regras mínimas segurança contra o vírus covid-19, na Itália, durante a reunião do G20 (30-31/10), voltou às pizzas para nomear a Torre de Pisa, por onde se fez passear em visita turística por ocasião do evento.

Enquanto Bolsonaro desmascarava a sua insolente ignorância pelos salões do G20, em Roma, os líderes das mais importantes economias industrializadas e emergentes do planeta viravam-lhes as costas em solene desprezo, merecido até, mas nada producente em termos políticos, tendo em conta às responsabilidades da Cúpula de Roma, articulada à agenda da Conferência Mundial sobre Mudanças Climáticas, COP-26, em Glasgow. Evento marcado para acontecer do meio para o fim do encontro de líderes, no qual as questões do clima em colapso, da crise sanitária e do aumento das desigualdades sociais constavam como pautas e compromissos principais da Cúpula de uma economia globalizada, ameaçada pelos mesmos problemas.

Foi evidente o despreparo e as gafes cometidas pelo presidente brasileiro, de tal forma que os vexames amplamente divulgados mundo afora, tornaram-se motivo da vergonha alheia, não fossem na verdade a vergonha de uma Nação. Completamente isolado dos líderes do G20, seja das reuniões plenas, bilaterais ou trilaterais, seja das rodas de conversas informais da Cúpula, ficaram as imagens do presidente batendo papo sobre futebol com os garçons em serviço – os únicos interlocutores possíveis -, e a frase da Primeira Ministra Merkel, da Alemanha: “Tinha que ser você”, depois que o perdido Bolsonaro pisou no seu pé por descuido ou atabalhoamento.

Como resultado, o Brasil e o seu representante oficial, entraram para o anedotário do G20, achincalhados em memes nas redes sociais, no comentariado de notícias dos mais importantes jornais e motivo de humor na televisão pelo mundo, visto que Bolsonaro não apareceu sequer na foto tradicional dos Chefes de Estado, por ocasião do encerramento da Cimeira de Roma. Em vez de tomar o seu posto no evento, para o qual deslocou uma comitiva composta por 24 pessoas – incluindo o filho vereador pelo Rio de Janeiro -, Bolsonaro saiu a passeio na cidade de Anguillara Veneta, no norte da Itália, onde recebeu o título de cidadão honorário.

O mimo surgiu da uma iniciativa da prefeitura cidade, na qual nasceu o seu bisavô, que é administrada por uma prefeita filiada ao partido Liga Norte, de extrema direita. A nota a destacar do evento fica por conta dos protestos dos moradores de Anguillara Veneta: ataques com pichações no prédio da prefeitura e insultos ao visitante e sua comitiva, nas ruas por onde passaram.

Por fim, para não dizer que não cumpriu agenda política, Bolsonaro conseguiu encaixar uma visita com Matteo Salvini, líder do mesmo partido que o homenageou, e participar com ele de uma cerimônia na cidade de Pistoia, junto ao monumento em memória dos pracinhas brasileiros mortos na Segunda Guerra. A propósito, a propalada homenagem não passou de um jogo de cena com sinais trocados. Afinal, tanto Bolsonaro quanto Salvini são alinhados às ideias nazifascistas do ditador Benito Mussolini, às quais foram combater os heroicos pracinhas brasileiros.

Encontrou-se ainda, ligeiramente, com o enviado especial dos Estados Unidos para questões climáticas, John Kerry.  Destes, Bolsonaro sequer conseguiu lembrar os nomes: afirmou à imprensa (no cercadinho) ter conversado com o italiano “Salvati” e com o americano “Jim Carrey”, confundindo o ator e humorista norte-americano com o compatriota John Kerry.

Por falar em imprensa, mais uma vez os jornalistas que cobriram os passeios do presidente foram hostilizados e agredidos por seguranças da comitiva e, em Roma, manifestantes inconformados com a visita indesejada foram agredidos de forma violenta pela polícia italiana, que usou bombas de gás, cassetetes e jatos d’água para interromper os protestos.

A prova da total irresponsabilidade de Jair Bolsonaro com as questões já referidas, foi a sua ausência dia 31 de outubro, na abertura da Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP-26), cimeira dos dirigentes mundiais, em Glasgow no Reino Unido, com a presença de representantes 197 nações, incluindo os líderes reunidos no G20 na Itália, parceira na organização da COP-26.

Constava da pauta da Cúpula de Roma, por exemplo, entre outra decisões importantes a ser apresentada em Glasgow, assegurar a exequibilidade do objetivo limite de aquecimento global de 1,5 °C em relação aos níveis pré-industriais; garantir 100 bilhões de dólares por ano até 2025, para ajudar países em desenvolvimento a mitigar os efeitos adversos das alterações climáticas; fazer avançar esforços com vistas à celeridade de acesso às vacinas contra a COVID-19, em países de rendimento médio e baixo. Bolsonaro não tomou conhecimento e, em nenhum momento foi questionado pela Cúpula do G20, às vésperas de um evento que discute os limites necessários para frear uma crise climática que se avizinha e para a qual não há outra solução que não seja o compromisso com a todas as formas de vida na terra.

Enquanto Bolsonaro fugia do debate e das responsabilidades como representante do Estado brasileiro, os líderes do G20 assistiram o discurso da jovem indígena brasileira Txai Suruí, de 24 anos, convidada da Conferência a falar como representante dos originários do Brasil, na abertura do evento. Bolsonaro, que teve uma fala gravada recusada pela coordenação da COP-26, se referiu ao discurso afirmando: “Estão reclamando que eu não fui para Glasgow. Levaram uma índia para lá, para substituir o Raoni, para atacar o Brasil”. Antes, o vice-presidente, general Mourão, havia afirmado  que Bolsonaro não iria a Glasgow, porque jogariam “pedra nele”. O fato, segundo aponta a imprensa, é que ativistas europeus jogaram fezes na fachada da prefeitura da cidade onde Bolsonaro foi homenageado.

Como bem demonstra a COP-26, poderá soar deselegante mas inevitável, afirmar que a postura dos líderes do G20 frente a Bolsonaro, pareceu mais covarde do que frágil, afinal estavam reunidos na Cúpula Roma os mais importantes líderes do planeta. O enquadramento de Bolsonaro, por parte desses líderes, explicitaria uma consciencialização sobre os problemas que o presidente tem causado ao Brasil e ao mundo. Nenhuma liderança do G20 poderá alegar desconhecimento dos resultados da CPI do Senado brasileiro, instaurada para ouviu inúmeras testemunhas e acusados de práticas criminosas durante a grave crise sanitária causada pelo Covod-19, que levou a óbito 608.000 pessoas no Brasil.

Os líderes do G20, no mínimo se omitiram contra essas denúncias, afinal o Relatório Final da CPI tipificou vários crimes cometidos pelo presidente negacionistas, entre os quais o crime contra a humanidade, nas modalidades extermínio, perseguição e outros atos desumanos. A modalidade extermínio, em questão, diz respeito aos povos indígenas, que tiveram negados os seus direitos à saúde pública durante a fase mais aguda da pandemia.

É fato que os representantes do G20 torceram o nariz para a presença ausente de Jair Bolsonaro na Cúpula de Roma, mas é fato também, que essa posição não condiz com as suas responsabilidade frente aos compromissos com a democracia e com crescimento sustentável no século XXI. Nenhuma fala ou gesto de desagravo, tampouco uma nota conjunta de repúdio ao comportamento desrespeitoso do representante do Brasil com o G20 e com a COP-26.

Em meio ao silêncio complacente dos líderes do G20, ecoa pelas ruas e fóruns em Glasgow, a palavra de ordem: “Fora Bolsonaro”, e assombra o gesto de protesto calculado, mas não menos desesperado, do artista plástico e escritor indígena Macuxi, Jaider Esbell, que tirou a própria vida às vésperas do importante evento sobre o clima no Reino Unido. No auge da carreira, com reconhecimento e exposições na Bienal em São Paulo, e galerias e museus consagrados do Brasil, Esbell fez da sua morte uma denúncia que não quer calar.

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