A floresta que é chamada popularmente de “pulmão do mundo” está sendo asfixiada. Sendo ou não o pulmão pela quantidade de oxigênio que produz e de carbono que consome, ou então o rim pelo que filtra, ou o coração pelo que sente e cria, importa que nas ultimas semanas a Amazônia está sendo esvaziada de vida por um genocídio.

O direito universal à respiração da Amazônia não tem sido apenas violado pelo desmatamento que devasta a cobertura florestal, ou o agronegócio, mineração e usinas hidrelétricas que contaminam, secam e barram suas veias de águas. A falta de oxigênio agora revela-se pelo genocídio indígena e das populações da floresta. Segundo um levantamento autônomo do movimento indígena do dia 07 de junho, através do Comitê Nacional pela Vida e Memória Indígena, já são 93 povos infectados pela COVID-19, mais de 2.523 indivíduos indígenas com casos confirmados, e 240 mortes.

Nunca na história do Brasil uma epidemia viral alastrou-se tão rapidamente entre os povos indígenas — nem mesmo as grandes epidemias de varíola quinhentistas e seiscentistas, que apesar de mais mortais, não tinham o avião e o barco a motor para invadir as florestas.

Essa dimensão na história recente, então, é ainda mais assustadora. Na última semana, o novo coronavírus chegou a todas as grandes terras indígenas na Amazônia: Vale do Javari, Yanomami, Alto Rio Negro, Xingu, Munduruku, Kayapó, Raposa Serra do Sol, Parque do Tumucumaque…

Uma tragédia de dimensões inimagináveis, profundamente desigual nos seus efeitos sociais, e aterrorizadora. Segundo a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), são 68 povos indígenas atingidos.

Em algumas regiões, o vírus foi levado pelas frentes de invasão da fronteira do capitalismo, como garimpeiros nos Yanomami, nos Kayapó e nos Munduruku, ou a grande mineração que contaminou os Xikrin do Catete, usinas hidrelétricas ao lado dos Assurini do Trocará, no rio Tocantins, ou ainda distribuído de forma desigual entre a população indígena por grandes frigoríficos contaminando os povos onde os bois invadem as terras, como o caso dos Kaiowa Guarani no Mato Grosso do Sul, ou os Kaingang em Santa Catarina.

Em outras partes, foi o próprio Estado brasileiro, com um cruel sistema de delivery de coronavírus que distribuiu infecções em aldeias que estavam em resguardo, em isolamento voluntário em seus territórios. Nesses casos, comunidades indígenas tiveram seus corpos-territórios invadidos por uma suposta ajudam de Troia: indígenas do Vale do Javari acusam a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) de infectar aldeias, ao passo que indígenas que vivem no Tumucumaque acusam o Exército de levar o coronvaírus para a a margem esquerda do Amazonas.

Em ao menos cinco aldeias no Vale do Javari pessoas apresentam os sintomas da COVID-19. No Tumucumaque, em uma das aldeias infectadas já foram confirmados, em poucos dias, mais de 50 casos.

O Exército e o sistema público de saúde, que deveriam ajudar a salvar vidas, serviram para colocar inúmeras vidas em risco.

Vivemos um dilema trágico: estamos assistindo passivamente a um genocídio que irá mudar para sempre o curso da história. Um genocídio no qual os assassinos não se envergonham de dizer em reuniões fechadas que é hora de aproveitar o momento e passar a boiada.

Há muitas coisas que poderiam ter sido feitas para evitar essa catástrofe, tal como a Argentina está fazendo. Especificamente com relação a saúde indígena, o Brasil possui uma longa tradição de combate a epidemias, conhecimento vasto da prática da medicina coletiva, e chegou a ter um eficaz, ainda que sempre frágil, subsistema garantido pela Constituição Federal. No passado, grandes nomes deram suas vidas para desenvolver mecanismos de combate a epidemias, como os médicos sanitaristas Noel Nutels, Roberto Baruzzi, e, hoje, nosso contemporâneo que segue essa tradição, Douglas Rodrigues. Alguns nomes que surgem em meio a tantas pessoas capacitadas que foram sistematicamente silenciadas desde o início desse processo, em paralelo ao crescimento do fascismo, e formas de repressão a diversas instituições de pesquisa e ação que poderiam ter feito ainda mais a diferença como a Fiocruz, o Instituto Evandro Chagas e as universidades públicas.

Não foi contra a Ciência que a ideologia fascista do governo Bolsonaro, guiada por um excêntrico guru da Virginia, se insurgiu: foi contra a vida mesmo. Inventar um passado mítico e desdenhar do conhecimento serve para esconder o extermínio massivo que está em marcha.

É toda a humanidade que está sendo asfixiada pelo vírus e pelos vermes enquanto populações sub-humanizadas estão sendo exterminadas. Como nunca antes nas nossas vidas, é hora de uma grande união, de juntar muitas forças, todas as forças, para enfrentar o assassino fascista e levar oxigênio para as regiões afetadas, para todos os polos bases, para todas as aldeias.

Uma grande coalisão humanitária é necessária. Urgente.

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