Foto: Valentin Salja

Quando falamos sobre a vivência com deficiência é muito comum abordarmos os temas inclusão, educação, saúde e acessibilidade. Não necessariamente nesta ordem, tampouco isolados. Vemos vídeos, reportagens e depoimentos sempre girando nestes assuntos como se fossem apenas os mais importantes de nossas vidas.

Eu e alguns amigos com deficiência tentamos um outro caminho. Com blogs, canais no youtube ou projetos pessoais mostramos como nossa vida não é tão diferente quanto a de alguém sem deficiência. Claro que temos algumas diferenças, porém as emoções, pensamentos e desejos são iguais. Afinal de contas, somos humanos.

Pode parecer óbvio dizer isso, mas infelizmente precisamos enfatizar nossa humanidade constantemente. É engraçado, eu sei. Entretanto é necessário lembrar deste “pequeno” detalhe, pois nossa mera existência ainda não é suficiente uma vez que somos diferentes da maioria das pessoas.

Aliás, o que seria esta diferença? Acredito que seja uma marca social que nos diz onde, o que e como devemos viver. Um eterno lembrete de qual é o nosso lugar. Ser diferente é ser alguém que não tem lugar definido. É ser construtor de lugares. É muitas vezes viver só.

É muito comum em grupos de facebook para pessoas com deficiência encontrar enquetes com perguntas sobre relacionamento. “Quem namoraria um cadeirante?”, questionam. Confesso que às vezes essas dúvidas incomodam, soam como um lamento constante.

Porém, lembro da solidão que experimentei durante minha adolescência. Foi muito difícil ver minhas colegas tendo suas primeiras experiências amorosas, seus corpos transformados pela idade enquanto o meu pouco mudava. Doía pensar que poderia passar por esta vida sem saber como seria ser o “bem querer” de alguém. Lembrar desta fase me faz entender essas enquetes.

Dia desses Duda Salabert, primeira candidata trans ao Senado em Minas Gerais e professora, concedeu uma entrevista  ao programa mineiro “Mistura Fina” sobre diversidade onde comentou o seguinte:

Existe uma dimensão fundamental para construção da humanidade que significa afeto. Então mais do que tolerar nós temos que experienciar afetos diferentes, de campos diferentes. E aí sim, nós vamos poder construir um elo coeso de humanidade. Porque senão fica a minha humanidade que exclui alguns grupos dessa categoria de humanidade. Porque para ser humano, aquele ser tem que se reconhecer como um ser que recebe e propaga afeto. E aí pergunto:

Quem está disposto a receber afeto de uma travesti?

Ao ver esse questionamento lembrei das enquetes facebookianas, não eram tão fora da realidade como muitos podem pensar. Quem estaria disposto a receber afeto de uma pessoa com deficiência?

Infelizmente pessoas marcadas pela diferença não são escolhidas para afetividades, não são lembradas tampouco vistas. Há um estigma sobre sua existência.

Ora são hipersexualizadas, sendo dispensadas para relações duradouras. Ora são assexualizadas, castradas socialmente e submetidas a relações infantilizadas. Em todos os casos, a solidão acaba se tornando a única opção.

Claro que existem as exceções (ainda bem!), contudo é preciso atentar para a regra. Por quais motivos essas pessoas encontram tanta dificuldade em acessar esse afeto? Quais são os requisitos necessários para fazer parte deste jogo e sair deste lugar marginal?

A resposta destas questões transita pelos elementos que norteiam nossas escolhas. Repetimos os padrões na seleção de nossos pares, sem perceber os diferentes.

Lembro de um cara que mesmo me considerando uma mulher linda, não poderia se relacionar comigo. O fato de ser cadeirante era demais para ele. Por outro lado, um ex-namorado já deixou claro que eu deveria agradecer aos céus pelo relacionamento, pois não teria outro tão cedo.

Essa dualidade “super” afeto x solidão é muito desgastante, mas é resultado da discriminação que a Duda citou. Sabemos que relações são complicadas, o “mar não está para peixe” para ninguém. Todavia há uma diferença entre oportunidade e exclusão. Este é o ponto.

O problema não é ter deficiência ou ser travesti, como no exemplo citado. A questão é como a sociedade lida com essa diversidade corporal. Não adianta saber que essas pessoas existem, mas sim permitir que elas façam parte de suas escolhas.

Acho irrelevante dizer que nestes corpos marginais existem seres incríveis se você não se abrir para eles. Se seu afeto for inacessível, não adianta dizer “ame seu corpo” e continuar ignorando a existência de outros corpos.

Todo mundo precisa de amor. Todo mundo merece ser amado.

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