A literatura como ferramenta de memória, resistência e construção de identidade foi o centro da conversa entre a escritora brasileira Bianca Santana e a autora franco-guadalupense Estelle-Sarah Bulle durante a Feira do Livro de São Paulo. Mediado pela jornalista Adriana Ferreira Silva, o encontro reuniu reflexões sobre ancestralidade, racismo, linguagem, deslocamento e o papel da escrita na elaboração das experiências de mulheres negras.

Antes do início da mesa, a organização prestou homenagem à escritora quilombola Dona Rosinha, que participaria da programação do evento e faleceu na madrugada do mesmo dia. Autora de Memórias do Meu Quilombo, obra prefaciada por Conceição Evaristo, Dona Rosinha foi lembrada por sua contribuição para a preservação da tradição oral quilombola brasileira.

Partindo dos romances Apolinária, de Bianca Santana, e Onde o Vento Faz a Curva, de Estelle-Sarah Bulle, as autoras discutiram a escrita de si como um processo que ultrapassa a autobiografia e se transforma em uma ferramenta de compreensão coletiva da realidade. Bianca destacou que seu interesse pelo tema surgiu a partir da observação do crescimento da produção literária de mulheres negras no Brasil e da necessidade de compreender como essas narrativas dialogam com o enfrentamento ao racismo.

A autora afirmou que “a importância de mulheres negras se apropriarem da pena para narrar a partir da própria vivência é enorme para a literatura”. Para ela, a escrita de si não significa reproduzir fielmente a própria história, mas construir ficção e reflexão a partir de um corpo atravessado por determinadas experiências sociais e históricas.

Já Estelle-Sarah contou que a decisão de escrever seu primeiro romance nasceu da percepção de que as Antilhas Francesas permaneciam praticamente ausentes da literatura produzida na França. Filha de pai guadalupense e mãe francesa, a escritora cresceu entre diferentes referências culturais e encontrou na literatura um espaço para abordar histórias frequentemente invisibilizadas: “Na literatura francesa, em grande parte dos casos, as histórias acontecem em Paris e com personagens brancos. Eu sabia que contar a história das Antilhas era trazer um ponto de vista diferente”, destacou.

Foto: Fábio Florido/ Terabia/ A Feira do Livro

As duas obras compartilham uma estrutura narrativa marcada pela presença de diferentes vozes. Em Apolinária, a trajetória da protagonista é contada tanto por ela quanto por sua neta. Em Onde o Vento Faz a Curva, membros de uma mesma família reconstroem suas lembranças a partir de perspectivas distintas.

Segundo Estelle-Sarah, a intenção era reproduzir a dinâmica das conversas familiares, nas quais diferentes pessoas recordam um mesmo acontecimento de maneiras diversas. A autora compartilhou que “queria que o leitor tivesse a sensação de participar de uma conversa em família, em que cada um conta a mesma história à sua maneira”.

Outro ponto de aproximação entre as autoras que marcou o debate foi a relação com a linguagem. Estelle-Sarah falou sobre sua conexão com o crioulo das Antilhas, idioma que ouviu ao longo da infância, embora nunca tenha sido alfabetizada nele, já que seu pai optou por não transmitir a língua para facilitar sua integração à sociedade francesa. “Eu não falo crioulo, mas ele permanece em mim como uma língua fantasma”, explicou, afirmando que a presença invisível da língua aparece em sua escrita por meio de expressões, ritmos e construções herdadas da oralidade familiar.

Bianca também destacou a influência da oralidade em sua formação, especialmente a partir da fala da avó e da literatura de Guimarães Rosa. Ela relembrou experiências como professora da Educação de Jovens e Adultos, quando utilizava textos do escritor mineiro para estimular estudantes recém-alfabetizados a produzirem suas próprias narrativas: “o que encantava era perceber que a forma como aquelas pessoas falavam também podia existir na literatura”, afirmou.

Ao longo da conversa, as escritoras refletiram sobre experiências de pertencimento marcadas pelo racismo e pela migração. Estelle-Sarah contou que, durante a infância e a juventude, frequentemente era questionada sobre suas origens. Enquanto na França não era vista como totalmente francesa, em Guadalupe tampouco era considerada completamente guadalupense. “Eu nunca era reconhecida como pertencente integralmente a nenhum desses lugares”, relembrou.

Bianca compartilhou experiências semelhantes vividas em viagens internacionais. Após compreender sua identidade negra no Brasil, passou a perceber como sua aparência era constantemente associada a diferentes nacionalidades e origens. A escritora destacou que, durante muito tempo, essa condição lhe pareceu representar uma falta. Atualmente, porém, entende essa experiência como uma potência e como “a possibilidade de reconhecer pessoas parecidas conosco em diferentes partes do mundo”.

As autoras ainda discutiram a importância de construir personagens femininas negras para além dos estereótipos e da subalternidade. Estelle-Sarah explicou que sua protagonista desafia expectativas sociais ao rejeitar destinos tradicionalmente impostos às mulheres, como o casamento e a maternidade, resumindo-a na frase: “ela vive em uma sociedade patriarcal, mas decide construir seu próprio caminho”.

Foto: Fábio Florido/ Terabia/ A Feira do Livro

Durante a conversa, Estelle-Sarah Bulle relatou episódios de racismo vividos em diferentes países, incluindo uma situação ocorrida poucas horas antes de sua participação na Feira do Livro. A autora contou que, ao chegar ao hotel em São Paulo, procurava o local onde era servido o café da manhã e, ao pedir informações em seu português limitado, foi direcionada ao refeitório dos funcionários. Segundo ela, o funcionário presumiu que fazia parte da equipe do hotel, e não que fosse uma hóspede.

A escritora relacionou o episódio a outras experiências semelhantes que viveu ao longo da vida, como ser confundida com funcionária de hotéis durante viagens ou ser associada a estereótipos raciais em diferentes contextos.

Para Estelle-Sarah, essas situações revelam como pessoas racializadas frequentemente são enquadradas em categorias sociais pré-estabelecidas, independentemente de sua trajetória ou posição social. O relato dialogou com a fala de Bianca Santana sobre as diferentes formas de racismo enfrentadas por pessoas negras e mestiças em distintos países e contextos culturais.

Bianca destacou que, ao escrever Apolinária, buscou retratar uma personagem complexa, contraditória e humana, sem reduzir sua trajetória apenas às experiências de opressão: “existe muito mais nas nossas histórias do que apenas a denúncia da desigualdade”, afirmou.

As autoras ainda abordaram a relação entre cabelo, identidade e racismo. Estelle-Sarah comentou seu livro mais recente, Histoire sentimentale de mes cheveux , no qual investiga como os cabelos crespos se tornaram um elemento central na construção da subjetividade de mulheres negras: “o cabelo é algo profundamente íntimo, mas também profundamente social”, observou.

Bianca relacionou essa discussão aos processos de afirmação racial vividos por mulheres negras brasileiras, especialmente por meio da chamada transição capilar. Para as duas escritoras, o debate sobre estética ultrapassa questões de aparência e se conecta diretamente com reconhecimento, pertencimento e autonomia.

Ao final do encontro, a literatura apareceu como um espaço capaz de preservar memórias, desafiar narrativas dominantes e ampliar as possibilidades de representação de pessoas historicamente invisibilizadas. Entre histórias de família, línguas herdadas e trajetórias marcadas pelo deslocamento, Bianca Santana e Estelle-Sarah Bulle mostraram como a escrita pode transformar experiências individuais em reflexões coletivas sobre identidade, racismo e resistência.