Esporte, urbanismo e cidadania: cidades mudam para que a Copa aconteça
Por trás dos estádios e do espetáculo, os territórios mudam, comunidades são afetadas e histórias ficam fora do campo
Por Janaina Coutinho – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Grandes eventos esportivos costumam ser apresentados como incentivadores de desenvolvimento urbano, turismo e crescimento econômico. Mas enquanto as câmeras apontam para os estádios e para a festa dos torcedores, transformações acontecem nos bairros, nas ruas e na vida de quem habita as cidades-sede.
Receber uma Copa significa muito mais do que construir ou reformar arenas esportivas, ou receber turistas e seleções. O evento exige investimentos em aeroportos, sistemas de transporte, telecomunicações, segurança pública, hospedagem e serviços urbanos.
Corredores de ônibus são ampliados, vias são remodeladas, áreas centrais recebem revitalizações e zonas estratégicas ganham atenção especial do poder público. Em teoria, essas intervenções deixariam um legado para a população. Na prática, especialistas apontam que os benefícios nem sempre chegam de forma equilibrada para todos os bairros.
A Copa transforma cidades inteiras em vitrines globais. Enquanto alguns comemoram novos investimentos e oportunidades econômicas, outros enfrentam aumento do custo de vida, restrições ao comércio informal, mudanças na rotina e até deslocamentos forçados.
A conta da Copa de 2014
Em 2014, o Brasil recebeu a Copa do Mundo. Para viabilizar o torneio, governos assumiram compromissos alinhados às exigências da FIFA e de seus patrocinadores, promovendo obras e intervenções urbanas em larga escala. O processo foi marcado por remoções de comunidades, restrições ao uso do espaço público e questionamentos sobre violações de direitos humanos.
Nesse mesmo ano, famílias foram removidas de seus lares para que obras de revitalização para a Copa pudessem acontecer. Dalva Martins, ex-moradora da comunidade Metrô-Mangueira, foi removida da casa onde vivia durante as intervenções realizadas para o Mundial.
Em entrevista à Agência Brasil, às vésperas da competição no Brasil, Dalva relatou a mudança: “Eles demoliram a casa da amiga ali, está tudo no chão, não esperaram nem tirar as coisas de dentro. Eu tenho seis netos que eu crio, tenho um recém-nascido, uma criança especial, onde eu vou morar? Pra onde que eu vou?”
A herança deixada pelos estádios da Copa de 2014, construídos especialmente para o evento ou reformados para receber partidas, possui dois lados: ao mesmo tempo que promoveram melhorias na infraestrutura, foram fatores relevantes para o aumento na insegurança e o aumento da especulação imobiliária.
“80 mil pessoas foram despejadas de suas casas por causa do ‘estado de exceção’ criado pela escolha do Rio como sede das finais da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos”, afirmou Theresa Williamson, urbanista e Diretora Executiva da Comunidades Catalisadoras.
O legado urbano
Para pesquisadores que estudam os impactos urbanos dos megaeventos, uma das críticas recorrentes é a tentativa de ocultar problemas sociais durante o período de realização da competição. Orlando Junior, pesquisador do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirma ser clara a intenção de, com a remoção, tirar dos olhos dos turistas as comunidades pobres.
Embora o contexto urbano seja diferente, cidades dos Estados Unidos, México e Canadá também enfrentam debates sobre gastos públicos, segurança e impactos sobre comunidades locais.
Especialistas apontam que processos de modernização urbana associados a megaeventos podem contribuir para a valorização imobiliária e o aumento dos aluguéis, afastando a população de baixa renda dos entornos da arena, como foi o caso de Dalva Martins, em 2014.
Após o evento, toda a mobilização para melhorias nas cidades que abrigaram a festa, parecem ficar esquecidas na mente da população. As infraestruturas são duradouras, como a Arena da Amazônia, em Manaus, construída apenas para sediar os jogos, porém os equipamentos são subutilizados pela comunidade local, deixando o questionamento se os benefícios sociais são permanentes ou não.
Copa 2026
Após 12 anos, muitas das discussões levantadas no Brasil voltam a aparecer nos países-sede da Copa de 2026.
Na Cidade do México, uma das sedes da competição, investimentos em mobilidade, infraestrutura e requalificação de espaços públicos vêm sendo apresentados como parte do legado esperado do evento. Dados levantados pelo Portal de Transparência da Cidade do México, apontam que o país investiu mais de R$ 41 bilhões na Copa. Ao mesmo tempo, pesquisadores e movimentos sociais alertam para desafios recorrentes em grandes eventos esportivos, como a pressão sobre áreas populares, o aumento do custo de vida e a distribuição desigual dos benefícios gerados pelas intervenções urbanas.
De acordo com executivos da FIFA, durante uma reunião no estádio SoFi, em Los Angeles, o que os moradores das cidades e governos ganham ao sediar o evento é colocar a cidade no “mapa”, como um ponto turístico a ser visitado.
Já grandes centros urbanos, como Chicago e Minneapolis, desistiram de sediar o torneio devido aos altos custos previstos em gastos para a melhoria das cidades. Em entrevista, o ex -prefeito de Chicago, Rahm Emanuel, alegou que as exigências contratuais da FIFA, que transferiam riscos financeiros excessivos e custos de adaptação para os contribuintes, eram inaceitáveis.
Em 2026, grande parte dos estádios que serão usados para acolher os jogos, já existem. Então, os governos locais, comitês organizadores e a FIFA anunciaram projetos relacionados à mobilidade urbana, programas comunitários, acessibilidade, turismo e sustentabilidade.
Muitas das melhorias feitas pelos governos não atingiram grande parte da população, que, em muitos casos, sofreu com a segregação e a impossibilidade de participar dos jogos e demais eventos relacionados à Copa.
Das 11 cidades que receberão partidas do torneio, Houston, Los Angeles, Vancouver e Toronto, por exemplo, vivem preocupações com relação aos impactos financeiros negativos que podem permanecer após o fim da competição. Esse impacto é consequência da responsabilidade total das cidades com os custos operacionais, segurança pública, adaptação de infraestrutura e logística de transporte.
Por trás do espetáculo, há moradores, comerciantes e trabalhadores que veem seus territórios transformados para que o Mundial aconteça. Quando a competição termina, os estádios permanecem. A pergunta é: a cidade que desapareceu para receber a Copa do Mundo consegue voltar a existir depois dela?
*Com informações da Agência Brasil.



