A quaresma se encerrou nesse domingo de Páscoa. A quarentena, ainda não. Enquanto o mundo inteiro tenta conscientizar as pessoas para com a necessidade de reforçar as medidas de isolamento social, mesmo diante das dificuldades econômicas que delas resultam, aqui no Brasil, Bolsonaro e seus fanáticos seguidores insistem em menoscabar tais medidas. Pelo terceiro dia seguido o presidente promoveu aglomerações, apenas para afrontar o seu ministro Mandetta (Saúde), de cuja popularidade – advinda do correto enfrentamento à pandemia – ele sente ciúmes.

Seus seguidores continuam a promover manifestações pedindo a flexibilização das medidas de isolamento, trazendo riscos aos outros e a si mesmos. Enquanto isso, os números de infectados e mortos em território nacional, mesmo que sob suspeitas de subnotificação, crescem à uma velocidade assustadora, mais rápido do que em período equivalente na China, em países da Europa ou mesmo nos EUA.

O fato é que Bolsonaro não é um líder. Ninguém lidera em função do ódio, da rejeição, da exclusão, da aversão, do obscurantismo ou do negacionismo. Se lidera em virtude do amor, do exemplo, da união, da empatia, da esperança, da capacidade de inspirar, gerar confiança e produzir resultados esperados.

Em verdade, Bolsonaro não passa de um efeito colateral do antipetismo que, por sua vez, tem motivos vários. De um lado, nossos próprios erros (graves) e problemas; de outro, a campanha sórdida que a mídia sempre fez contra o PT, que constitui a motivação artificial do sentimento criado na população para “facilitar” a ascensão de alguma liderança de direita ao poder. Deu errado: subiu a extrema-direita.

Essa mesma campanha sórdida, feita contra o PT desde a sua fundação no longínquo ano de 1980, a mídia faz agora contra Bolsonaro, quando começa a perceber que ele não fará a “entrega” daquilo que é esperado pelos interesses de quem essa mesma mídia defende. Quem manda no Brasil são eles: o 1% mais rico, do qual essa turma midiática faz parte. Não que Bolsonaro não mereça, porém, mais uma vez, os veículos de mass media aguardavam apenas um momento propício para começar a “depenar o frango”. Veio a pandemia do novo coronavírus (SARS-CoV-2), causador da doença Covid-19 e, com ela, mais um festival de extravagâncias e bizarrices saindo diariamente do esgoto que Bolsonaro ostenta no lugar da boca. Era o pretexto de que a turma precisava.

Enquanto Lula fazia as “entregas” que essa turma queria, se deu bem. Quando sua sucessora falhou, todos foram atrás de um pretexto para apear o PT do poder. Lava-jato? Ora, corrupção na Petrobras e nas estatais sempre existiu, o que não quer dizer que, de um lado, se deva tolerá-la; ou, de outro lado, pressupor que todos estivessem envolvidos com ela. Por que não foram atrás de combater tais “mecanismos” de corrupção antes, posto que se sabe de sua existência desde tempos imemoriais? Repito: só foram atrás na hora que precisaram do pretexto para sacar o PT do poder. O resto é conversa mole.

O maior problema do Bolsonaro, contudo, não é a pauta econômica, embora ela seja a única capaz de mantê-lo ou apeá-lo do poder. Talvez ele até consiga reverter esse quadro nos dois próximos ano. A pandemia vai passar, as coisas vão se normalizar e há uma chance de que Paulo Guedes “acerte a mão” na retomada do crescimento, embora a ausência de um planejamento econômico que vá além das reformas me leve a crer que não. O mais cruel do presidente são as bizarrices que ele defende, os arroubos de autoritarismo, o flerte com o totalitarismo. Para mim, sem querer ser maniqueísta, ele é um cara perigoso, do mal mesmo.

Os defensores do liberalismo – tanto enquanto teoria de Estado como enquanto corrente do pensamento econômico – vêm tolerando tais bizarrices em virtude de uma agenda econômica liberal que deveria ser conduzida por Paulo Guedes e seus Chicago Boys. Depois que a Economia demonstrou sinais de que está a se esvair – com o pibinho de 2019, a elevada taxa de desemprego, a queda vertiginosa da bolsa, a alta desenfreada do dólar e outros que tais – sem indícios de melhoria próxima, quadro que se agrava ainda mais com a pandemia do novo coronavírus, nada justifica a manutenção do apoio dessa turma da direita para com o bizarro.

Essa turma do andar de cima que tolera o presidente, apenas e tão somente, por conta do Paulo Guedes – que, por sua vez, não tá tendo muito sucesso – é a mesma turma que se aborrece com as burrices dele diante da pandemia. A Covid-19 mudou o panorama e o nível de tolerância das pessoas para com a inépcia do presidente. Quando é a vida que está em jogo, até os mais árduos defensores do bolsonarismo começam a rever os seus conceitos.

É esperar pra ver…

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