Os veículos de comunicação da mídia corporativa brasileira – e, com eles, muitos acadêmicos e agentes políticos, da esquerda à direita, dentre os quais alguns que respeito e admiro bastante – nunca aprendem. Talvez, jamais aprendam. Seja na cobertura da política interna ou da política internacional, estão sempre praticando a lógica maniqueísta do bem contra o mal, à caça de um vilão e em busca de um mocinho, procurando alguém para demonizar e outro, para endeusar.

No plano interno, depois de comprovar, a cada 30 anos, que seu patrocínio à solução “Salvador da Pátria” (Jânio Quadros, Collor de Mello, Jair Bolsonaro) sempre resulta em sucessivos e retumbantes fracassos, continuam a insistir na mesma tese e a bater na mesma tecla, flertando com o banditismo de alguém que, formado em Direito, ganhou R$ 3,5 milhões em menos de um ano prestando consultoria a uma “firma” de Engenharia, responsável pela recuperação judicial de empresas para cuja situação de insolvência suas sentenças, enquanto juiz, colaboraram de modo decisivo. O mesmo sujeito que afirmou, com extremo cinismo, não ter ficado rico com uma renda que é 5 vezes maior que a renda anual de um CEO de uma empresa multinacional. Exatamente a mesma pessoa que teria assumido a condução de um ministério no governo Bolsonaro sob promessa de nomeação para um cargo de ministro do STF. E que, ainda na condição de juiz federal, fora julgado suspeito em suas atuações persecutórias em face de seus desafetos políticos.

No plano internacional, ante a presente crise no Leste Europeu, os mesmos veículos de mídia entenderam por bem demonizar Putin e endeusar Zelensky, sendo este tão culpado quanto aquele: além das óbvias consequências de seu flerte com a OTAN e o que isso representa para a zona de influência russa na região, mesmo se auto-declarando judeu descendente de sobreviventes do Holocausto, se deixou apoiar e, supostamente, colaborou para financiar, armar e cercar-se de movimentos nacionalistas radicais de extrema-direita, de pendor neonazista (como o Azov), instigando ainda mais o conflito entre estes e os movimentos separatistas russos da Ucrânia. Afinal, quem seriam os bandidos e quem seriam os mocinhos dessa história? Ninguém. O mais provável é que todos tenham algum baixíssimo grau de razão em defesa dos legítimos interesses de suas nações, porém, elevado grau de culpa nesse cartório…

A voz dos analistas dos veículos de mass media, apesar de fraca, rouca, recheada de obviedades e frivolidades, ecoa pelo Brasil, ajudando a fazer a cabeça de milhões de pessoas a repetir suas platitudes. Sabem, mas, fingem não saber que a solução “Salvador da Pátria”, historicamente, só resultou em mais desgraças ao nosso país. Da mesma forma que deveriam saber que, em uma guerra, princípios como o do respeito à soberania, da autodeterminação dos povos, da não-intervenção e da solução pacífica de conflitos, dentre outros, servem para uma análise jurídico-política, a luz do Direito Internacional, ao final do conflito. Mas, explicam pouco ou quase nada sobre os conflitos de interesses subjacentes ao conflito em si. Aliás, durante a guerra, é realpolitik. E pouquíssimas outras coisas mais.

Que motivo será esse, que ronda as grandes corporações nacionais de comunicação e que não permite comportamento distinto ao da eterna síndrome do vira-lata? Será apenas o desejo de manter suas audiências, seus contratos e respectivo faturamento? Ou seria, tão somente, o velho mau-caratismo de sempre? Talvez um pouco de cada coisa. O fato é que acompanhar situações complexas a partir da leitura rasa e simplista de tais veículos de comunicação e seus analistas (há exceções) dá nos nervos tanto quanto assistir à presente edição do Big Brother Brasil. Haja paciência.

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