Por João Silvino – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

Para qualquer seleção, a disputa da Copa do Mundo é sempre o ponto alto de um ciclo e, para os jogadores convocados, o ápice de suas carreiras. As palavras “sonho” e “realização” são quase uma regra, mas dentro dessa grande história existem capítulos e adversários que aparecem no caminho, tiram o sono de jogadores e torcedores muito antes da bola rolar, como um despertador de traumas.

Nas vésperas do mata-mata da Copa, é hora de acordar fantasmas da história do torneio, relembrando sete das maiores e principais freguesias de seleções no principal evento do futebol mundial, considerando duelos de fase de grupos e mata-matas.

Argentina x México

Retrospecto em Copas: 4 jogos, 4 derrotas do México

Foto: El Destape

Como se não fosse suficiente acumular sete eliminações consecutivas nas oitavas de final, o México ainda tem um segundo pesadelo dentro desse histórico, que atende pelo nome de Argentina. Além de quatro derrotas nos quatro encontros pela Copa do Mundo, os mexicanos ainda viram os hermanos serem os responsáveis diretos por três eliminações, cada uma à sua maneira.

O primeiro jogo ocorreu exatamente na edição inaugural da Copa, em 1930, no Uruguai. Válida pelo Grupo A, foi a segunda partida dos argentinos, que precisavam vencer para ter chances de classificação contra o Chile na rodada final, e a terceira dos mexicanos, já eliminados. A diferença de ambições e qualidade ficou evidente no placar de 6 x 3 a favor da Argentina, que contou com hat-trick de Guillermo Stábile e ainda perdeu dois pênaltis com Paternoster e Zumelzu. No total, o duelo contou com cinco pênaltis marcados pelo árbitro, com o México também desperdiçando duas cobranças, de três.

O segundo duelo só voltaria a ocorrer em 2006, pelas oitavas de final da Copa da Alemanha. Aos 6 minutos do 1º tempo, Rafa Márquez chegou a abrir o placar para os mexicanos, mas Hernán Crespo empatou logo na sequência, aos 10. A expectativa por um jogo aberto acabou não se confirmando, e o placar de 1 x 1 persistiu até o fim do tempo regulamentar. Na prorrogação, Maxi Rodríguez virou a favor da Argentina aos 8 minutos e selou a classificação para as quartas.

Foto: Clive Mason/Getty Images

Quatro anos depois, era a oportunidade de uma revanche, exatamente no mesmo cenário: oitavas de final. O México vinha com o embalo de ter sobrevivido ao grupo da morte, enquanto a Argentina fez valer seu favoritismo no grupo B e o reforçou no primeiro mata-mata. Tévez abriu o placar aos 26 do 1º tempo, em um impedimento clamoroso e escancarado, enquanto Higuaín ampliou sete minutos depois. Na etapa final, Tévez fez mais um aos 7 minutos, e Chicharito Hernández anotou o gol de honra mexicano aos 26. 3 x 1 no placar e classificação dos argentinos.

Oito anos depois, o quarto encontro veio pela fase de grupos, na Copa do Qatar. O contexto, dessa vez, era dramático, podendo selar a precoce eliminação da Argentina na fase de grupos, e os mexicanos certamente adorariam participar disso.

Porém, o México vinha de uma atuação ruim contra a Polônia, sendo salvo pelo interminável goleiro Ochoa. E contra a Argentina, nada mudou: depois de um 1º tempo amarrado pelos dois lados, Messi brilhou aos 18 minutos do 2º tempo para abrir o placar após receber de Di María, e Enzo Fernández fechou a conta aos 41. O 2 x 0 não selou a eliminação do México ainda na fase de grupos, mas contribuiu para ela, que ocorreu devido ao saldo de gols inferior ao da 2ª colocada, Polônia.

Argentina x Nigéria

Retrospecto: 5 jogos, 5 derrotas da Nigéria

Foto: Gabriel Bouys/AFP

Mais do que uma freguesia, o duelo entre Argentina e Nigéria virou quase um compromisso obrigatório em Copas do Mundo entre 1994 e 2018, tão protocolar quanto a execução dos hinos antes de cada partida. Nas sete edições disputadas neste recorte, argentinos e nigerianos não se cruzaram apenas em 1998, quando caíram em grupos diferentes, e em 2006, quando a Nigéria ficou fora do Mundial.

O primeiro dos cinco encontros, na edição de estreia dos nigerianos, entrou para a história por outro motivo. No dia 25 de junho de 1994, em Foxborough, a Nigéria saiu na frente com Siasia aos 8 minutos, até que Maradona voltou a dar show em sua Copa de superação e comandou a virada dos hermanos ainda no 1º tempo, com assistências para os dois gols de Caniggia, fechando o placar em 2 x 1. Depois do jogo, porém, Maradona caiu no doping, saindo de mãos dadas do campo com uma enfermeira, em uma das imagens mais marcantes da história do Mundial.

Oito anos depois, o duelo contou com o peso extra de compor o grupo da morte no Mundial de 2002, junto com Suécia e Inglaterra. A partida foi a estreia de ambas no dia 2 de junho, em Ibaraki, e foi decidida por Gabriel Batistuta aos 18 do 2º tempo, aumentando a longa sequência invicta da Argentina, que caiu no jogo seguinte para a Inglaterra. Argentinos e nigerianos se despediram da Copa ainda na fase de grupos.

Mais oito anos se passaram até o terceiro confronto, na África do Sul. Novamente, Argentina e Nigéria se enfrentaram no jogo de estreia, realizado em 12 de junho na capital Joanesburgo. O zagueiro Gabriel Heinze abriu o placar logo aos 6 minutos, e os hermanos foram praticamente soberanos nos 90 minutos, parando na inspirada atuação do goleiro Vincent Enyeama, eleito o craque do jogo pela Fifa. Para Messi, que empilhou finalizações defendidas pelo arqueiro nigeriano, foi uma das melhores chances de marcar pelo menos um gol no Mundial de 2010, onde passou totalmente em branco nos cinco jogos da Albiceleste.

Foto: Reprodução/Conmebo

Na Copa do Mundo de 2014, quebrou-se a sequência de Argentina e Nigéria se cruzando em estreias de Copa, mas não a de jogos entre elas. Dessa vez, o duelo foi válido pela última rodada do grupo F, com os nigerianos jogando sua sobrevivência no Beira-Rio. Mesmo com esse fator, quem saiu na frente foi a Argentina logo aos 3 minutos, com Messi, que iniciava sua melhor atuação em Copas até então. Na saída de bola, contudo, Ahmed Musa empatou após falha da defesa argentina. Aos 46, na porta do intervalo, Messi foi derrubado na entrada da área e marcou um gol antológico de falta. Na volta para o 2º tempo, Musa voltou a empatar em nova falha da zaga albiceleste, mas Rojo marcou o 3 x 2 e deu números finais a mais uma vitória dos argentinos no confronto.

Por fim, o quinto e derradeiro encontro foi também o último jogo da Nigéria em Copas, na fase de grupos de 2018. Com o cenário parcialmente invertido em relação ao Mundial de 2014, o drama dessa vez estava quase todo do lado argentino, embora fosse um duelo direto pela segunda vaga no grupo D. No gramado de São Petersburgo, coube a Messi abrir o placar aos 14 minutos do 1º tempo, deixando a Argentina classificada no intervalo. No início do 2º tempo, Moses empatou cobrando pênalti, e a Nigéria tomava a vaga nas oitavas até os 41 minutos, quando Rojo apareceu na área e acertou um lindo chute de primeira, virando o jogo e impondo mais uma derrota aos nigerianos.

Argentina x Holanda

Retrospecto: 6 jogos, duas eliminações e um vice-campeonato

Foto: Reprodução/ Flashscore

Para a Holanda e sua torcida, é possível escolher qual o pior pesadelo de sua história das Copas: os três vice-campeonatos, os gols perdidos que contribuíram nos “quases” e fantasmas específicos como o Brasil e, principalmente, a Argentina.

Em seis jogos, os holandeses até não levam grande desvantagem, contando com duas vitórias sobre a albiceleste. A primeira veio na 2ª fase da Copa de 1974, quando, com gols de Cruyff (2x), Rep e Krol, a Laranja Mecânica anotou sonoros 4 x 0 no placar, dando sequência à campanha do seu primeiro vice. Depois disso, encarar a Argentina virou uma razão quase certa de lágrimas no futebol holandês.

Passados quatro anos, a Holanda não contava com o talento de Johan Cruyff, mas ainda tinha nomes como Neeskens, Nanninga e os irmãos Van de Kerkhof. O grande desafio era superar a Argentina, que jogava a Copa do Mundo de 1978 em casa, envolvida em uma ditadura e contando com o lotado Monumental de Núñez. Mario Kempes abriu o placar no 1º tempo, e Nanninga empatou aos 8 minutos do fim. Os holandeses tentaram buscar a virada, mas acabaram batidos por outro gol de Kempes e pelo terceiro de Bertoni, vendo a taça da Copa escapar pela segunda edição consecutiva.

Vinte anos depois, a Holanda conseguiu lavar a alma e despachar os argentinos nas quartas de final da Copa do Mundo. O Stade Vélodrome, em Marselha, presenciou um desfile de craques dos dois lados, com o placar sendo inaugurado por Patrick Kluivert a favor da Laranja Mecânica aos 12 minutos do 1º tempo. Minutos depois, veio o empate da Argentina com Claudio López, em uma partida marcada por uma expulsão de cada lado (Numan pela Holanda e Ortega pela Argentina). Quando a prorrogação parecia inevitável, veio o gol antológico de Dennis Bergkamp aos 45 do 2º tempo, selando a classificação dos holandeses em uma épica vitória por 2 x 1 sobre a albiceleste, a segunda e última em Copas.

Em 2006, Argentina e Holanda voltaram a se encontrar na fase de grupos da Copa do Mundo na Alemanha, mas não saíram de um esquecido 0 x 0, em jogo que não valia absolutamente nada para as duas, classificadas com antecedência em sua chave. Com isso, o próximo duelo com verdadeiro interesse e prestígio foi na Copa de 2014.

Foto: Reprodução/Trivela

O endereço era a Arena Corinthians, horas depois da imensa ferida deixada pelo 7 x 1, em pleno ardor e parecendo impossível de cicatrizar. Para as duas torcidas envolvidas, fãs de futebol pelo mundo sem compromisso e brasileiros que ainda tiveram estômago para ver um jogo de futebol naquele 9 de julho, o resultado foi um 0 x 0 amarrado entre argentinos e holandeses, o que levou a decisão do segundo finalista aos pênaltis. A famosa fábrica de heróis e vilões, e que na astúcia do técnico Louis Van Gaal, ao substituir o goleiro Cillessen por Krul, colocou a Holanda na semifinal. Porém, essa astúcia virou cautela na hora mais importante, e a Argentina levou a melhor por 4 x 2, com Vlaar e Sneijder parando no goleiro Romero. Assim, em três mata-matas, a albiceleste passava a levar vantagem no histórico.

E em 2022, surgiu espaço para uma terceira pedra argentina no sapato da Holanda. De volta às Copas após um esquecível ciclo entre 2015 e 2018, a Laranja Mecânica ainda tentava se encontrar depois de uma Eurocopa decepcionante, enquanto a Argentina chegava de alma lavada pelo título da Copa América. Mas faltava a Copa de Messi, e sem o título no Catar, poderia ser a última do craque.

No estádio de Lusail, tudo caminhava para uma classificação tranquila da Argentina, sempre com a estrela de Messi: primeiro, assistência sensacional para Nahuel Molina abrir o placar aos 34 do 1º tempo. Aos 25 da etapa final, pênalti em cima de Acuña, e lá estava o camisa 10 para converter e ampliar. Tudo parecia resolvido, não fosse por Wout Weghorst: o atacante do Besiktas entrou aos 32 minutos, e aos 37 diminuiu o placar, completando um cruzamento de cabeça. No último lance do jogo, uma jogada ensaiada de almanaque desmontou a marcação argentina e deixou o camisa 19 com espaço para finalizar e empatar o confronto, que foi para a prorrogação. Sem novos gols, coube aos pênaltis resolver.

Van Dijk e Berghuis abriram a série perdendo, o que complicou a vida da Holanda, enquanto a Argentina fez os dois primeiros. Enzo Fernández até chegou a bater para fora, mas Lautaro Martínez não desperdiçou a cobrança decisiva e classificou a Argentina, impondo mais um duro revés ao futebol holandês.

Alemanha x Argentina

Retrospecto: 7 jogos, 1 vitória e quatro derrotas da Argentina

Foto: Gabriel Bouys/AFP

É bem verdade que a Argentina já ganhou uma Copa contra a Alemanha, em 1986. Porém, além de ter vencido “apenas” esse jogo na história dos Mundiais, perdeu outras duas finais, e, a partir do vice-campeonato na decisão de 1990, enfrentar os alemães virou o seu pior pesadelo, em três edições consecutivas.

Antes, é preciso partir do começo dessa história, na Copa do Mundo da Suécia, em 1958. A Alemanha vinha com o status de atual campeã, apesar dos poucos remanescentes do título, enquanto a Argentina retornava às Copas após três edições de ausência, com dois boicotes (1938 e 1950) e uma desistência das eliminatórias (1954). Sofrendo pela naturalização de diversos jogadores que migraram para a Itália, a albiceleste até saiu na frente, em gol de Corbatta, mas a Alemanha virou ainda no 1º tempo com gols de Seeler e Rahn, que anotou outro no 2º tempo e fechou o placar em 3 x 1, no primeiro dia da Copa.

Em 1966, na Copa da Inglaterra, Argentina e Alemanha voltaram a se esbarrar na primeira fase, caindo no grupo B com Espanha e Suíça. Depois de vencerem seus jogos de estreia, alemães e argentinos foram para um tira-teima na 2ª rodada, no Villa Park, em Birmingham. A Alemanha esteve mais perto da vitória, com duas bolas na trave e um milagre do zagueiro Perfumo evitando um gol, mas o placar não saiu do zero. O jogo ficou marcado ainda pelo alto número de faltas e por uma expulsão de Albrecht no lado argentino.

Vinte anos depois, nunca mais haveria duelos sem importância, contando apenas com partidas decisivas. A primeira no Mundial de 1986, valendo o bicampeonato para os hermanos e o tricampeonato no lado alemão, em uma final apitada pelo brasileiro Romualdo Arppi Filho. A Alemanha chegava à final aos trancos e barrancos, com apenas três vitórias e precisando dos pênaltis para despachar o México nas quartas, enquanto a Argentina só havia tropeçado uma vez na fase de grupos e contava com uma Copa sobrenatural de Maradona. No gramado do Azteca, o zagueiro Brown e o atacante Valdano abriram 2 x 0 no placar entre os dois tempos de jogo. Porém, a Argentina cochilou no 2º tempo e levou o empate em apenas seis minutos, com Rummenigge aos 29 e Voller aos 35. Por sorte, Burruchaga recebeu de Maradona na sequência e fechou a conta em 3 x 2 a favor dos argentinos.

Na Copa de 1990, a final entre Alemanha e Argentina se repetiu, mas a Copa de ambas se inverteu: na fase de grupos, os argentinos perderam na estreia para Camarões e contaram de novo com “La mano de Dios” contra a União Soviética, quando Maradona evitou um gol com a mão aos 0 x 0. Sem gols do camisa 10, a albiceleste precisou dos pênaltis no mata-mata para eliminar Iugoslávia (onde merecia perder na prorrogação) e Itália, além de não contar com Caniggia para a decisão. Bem diferente, a Alemanha passou por cima dos adversários em seu grupo e convenceu no mata-mata, tendo trabalho apenas na equilibrada semifinal contra a Inglaterra, também resolvida nos pênaltis. E foi justamente na marca da cal, mas no tempo regulamentar, onde a campeã foi conhecida: superior em todo o jogo, a Alemanha teve um pênalti marcado no fim do 2º tempo, e Andreas Brehme converteu para dar o título aos comandados de Franz Beckenbauer.

Foto: AFP

O reencontro viria em 2006, na Copa sediada pela Alemanha e em uma fase inédita: quartas de final. As duas seleções vinham de uma grande Copa do Mundo, com elencos estrelados e 10 gols marcados nos quatro jogos anteriores. O ponto “baixo” da Argentina havia sido a prorrogação contra o México, mas não freou o embalo da equipe, que saiu na frente aos 4 do 2º tempo com gol de Ayala. Contudo, a albiceleste perdeu o goleiro Abbondanzieri machucado e sofreu o empate já na reta final do jogo, com Klose aos 35 minutos. O placar persistiu e levou a partida aos pênaltis, onde Ayala e Cambiasso foram parados pelo goleiro Lehmann, classificando a Alemanha com um triunfo por 4 x 2.

Na Copa do Mundo da África do Sul, as quartas de final reservaram mais um jogo entre argentinos e alemães. Dessa vez, a Argentina despontava como favorita pela classificação segura na fase de grupos e pela vitória sobre o México nas oitavas, enquanto a Alemanha havia tropeçado contra a Sérvia na 2ª rodada e, apesar do 4 x 1 sobre a Inglaterra, só construiu a goleada após o gol legítimo que foi tirado de Frank Lampard.

Porém, a Alemanha tinha um ataque de respeito, um poder de fogo que jamais deveria ser menosprezado e que poderia ter chegado à final da Copa. Isso foi provado logo aos 3 minutos do 1º tempo, com Müller abrindo o placar. Não faltou atitude para a Argentina, mas faltou eficiência, que sobrou para os comandados de Joachim Löw na etapa final: Klose ampliou aos 23 minutos, Friedrich anotou o terceiro aos 29, e Klose, de novo, cravou a goleada aos 44. Sonoros e estarrecedores 4 x 0 no placar, em mais uma vitória alemã sobre os argentinos.

Enfim, a grande final da Copa do Mundo de 2014. Uma Alemanha que não fez uma Copa brilhante, mas foi responsável pela maior tragédia do futebol brasileiro, e uma Argentina que, apesar da classificação suada contra a Suíça e de uma frágil defesa, era ligeiramente favorita e podia impor mais uma tragédia ao Brasil, vencendo uma Copa em pleno Maracanã. Felizmente para nós e para a tristeza dos argentinos, Higuaín e Messi erraram a pontaria ao sair na cara do goleiro Neuer durante o jogo, e nos últimos minutos da prorrogação, Mario Götze surgiu como herói improvável na área para marcar o gol do tetracampeonato da Alemanha.

Brasil x Chile

Retrospecto: 4 jogos, nenhuma vitória do Chile

Foto: Fábio M. Salles/Estadão Conteúdo

Quando o Brasil aparece no caminho em uma Copa do Mundo, os chilenos já arrumam as malas e se preparam para ir embora antes da bola rolar. Afinal, por força do regulamento, os duelos só podem ocorrer em mata-matas, e em todos eles o Brasil levou a melhor.

O primeiro deles foi na Copa de 1962, sediada exatamente no Chile, em plena semifinal, disputada no Estádio Nacional de Santiago. O Brasil perdeu Pelé na fase de grupos, mas tinha Garrincha e Vavá. O Anjo das Pernas Tortas abriu 2 x 0 ainda no 1º tempo, mas Toro diminuiu antes do intervalo. Na etapa final, Vavá ampliou para 3 x 1, Leonel Sánchez novamente descontou, e o Brasil só matou o jogo aos 33 minutos, com mais um de Vavá. Nos últimos minutos, Garrincha acabaria expulso após cair na pilha de Rojas. Porém, em uma dessas histórias mal contadas do futebol, o assistente Esteban Marino “desapareceu” do Chile no dia do julgamento, e o craque brasileiro foi liberado para a decisão contra a Tchecoslováquia.

36 anos depois, Brasil x Chile abriram uma sequência de duelos nas oitavas de final, com este primeiro sendo o mais importante desde a farsa armada pelo goleiro Roberto Rojas no Maracanã em 1989, que resultou no banimento dos chilenos das eliminatórias de 1994. Antes do mata-mata na França, nenhuma das seleções havia brilhado na fase de grupos: o Brasil sofria com bastidores conturbados, precisando de um gol contra para vencer a Escócia e perdendo para a Noruega, enquanto o Chile não venceu nenhuma partida e se classificou com três empates, deixando escapar no fim vitórias contra Itália e Áustria.

No Parc des Princes, em Paris, César Sampaio comandou a melhor atuação brasileira no Mundial, marcando dois gols no 1º tempo, e Ronaldo ainda fez o terceiro na porta do intervalo. Na etapa final, o craque Marcelo Salas chegou a descontar, mas antes que os chilenos tivessem uma fagulha de esperança, Ronaldo marcou o quarto gol logo na sequência e matou o jogo: 4 x 1 e Brasil classificado.

Nos anos seguintes, o Chile ficou fora das Copas de 2002 e 2006, fazendo uma eliminatória vergonhosa no ciclo para o Mundial da Coreia e do Japão. No retorno em 2010, cruzou novamente o caminho do Brasil nas oitavas de final. Dando início à geração que seria campeã da Copa América em 2015 e 2016, os chilenos acabaram sendo presa fácil para a seleção brasileira de Dunga: em um período de três minutos, aos 35 e 38 do 1º tempo, Juan e Luis Fabiano abriram 2 x 0 no placar. E aos 14 da etapa final, Robinho anotou o terceiro para fechar a conta.

Por último, o dramático jogo pela Copa do Mundo de 2014, no Brasil. A questionável seleção de Felipão contra a madura e competente equipe chilena, responsável por despachar a Espanha ainda na primeira fase. David Luiz abriu o placar em um gol estranho, e Alexis Sánchez empatou pouco depois. Em um panorama geral, o Chile não deu tanto trabalho, mas quando resolveu dar, corações pararam: no último minuto da prorrogação, Pinilla ganhou disputa no meio-campo, tabelou com Sánchez e entrou na área antes de soltar um canhão com a perna direita, que explodiu na trave brasileira (bem que podia ter entrado). O empate não saiu do placar, e nos pênaltis o Brasil venceu por 3 x 2, com duas cobranças defendidas por Júlio César.

Brasil x México

Retrospecto: 5 jogos, quatro derrotas do México

Foto: Dylan Martinez/Reuters

Aqui, temos uma freguesia carregada pelos primórdios da Copa do Mundo, o que não diminui o feito. Tal qual os chilenos, o México não sabe o que é vencer o Brasil em Mundiais, além de não marcar um mísero gol. E só escapa de ter perdido todas as cinco partidas graças a um certo personagem.

O primeiro duelo ocorreu em solo brasileiro e no templo do Maracanã, abrindo o Mundial de 1950, e ainda marcando o retorno do torneio após 12 anos de hiato, por conta da Segunda Guerra Mundial. O craque do Brasiç e artilheiro da Copa, Ademir de Menezes, abriu o placar no 1º tempo, mas a seleção só deslanchou na etapa final, com gols de Jair, Baltazar e mais um de Ademir. Mesmo com o 4 x 0 na estreia, o torcedor deixou as arquibancadas do Maracanã torcendo o nariz.

Quatro anos depois, o jogo de estreia se repetiu, agora na Copa do Mundo da Suíça. No gramado do estádio Charmilles, em Genebra, a vitória brasileira foi ainda maior: com gols de Julinho, Didi, Baltazar e Pinga, que fez dois, a canarinho cravou um 5 x 0 no placar em seu pontapé inicial, o que até 2018, foi a maior goleada em um jogo inaugural de Copa.

O reencontro ocorreu na Copa de 1962, e de forma até inacreditável, foi a estreia das duas seleções mais uma vez, agora em Viña del Mar. Os mexicanos conseguiram dar mais trabalho e levaram um 0 x 0 para o intervalo. Para sorte do Brasil, o Rei Pelé voltou inspirado e resolveu na etapa final com um gol e uma assistência, em seu único jogo completo no Mundial do Chile.

Depois de tantas estreias, um novo duelo entre brasileiros e mexicanos só voltaria a ocorrer na Copa de 2014, após 52 anos. Novamente foi válido pela fase de grupos, mas agora no segundo jogo. O duelo foi disputado e com chances para os dois lados, as melhores pelo lado brasileiro. Porém, Guillermo Ochoa fez diversos milagres embaixo das traves e fechou o gol, não permitindo que o zero saísse do placar na Arena Castelão, em Fortaleza.

Por fim, o primeiro mata-mata da história entre as duas seleções, logo na Copa seguinte, da Rússia. A etapa inicial foi equilibrada e difícil, com os mexicanos mostrando pleno potencial de vencer o confronto pela primeira vez. Até que na segunda etapa, em sua melhor atuação na Copa, Neymar abriu o placar e o caminho da classificação, aos 5 minutos. Já nos minutos finais, Roberto Firmino anotou o 2 x 0 e selou a ida brasileira para as quartas de final.

França x Brasil

Retrospecto: 4 jogos, três eliminações do Brasil

Foto: Antonio Scorza/AFP

Quando se fala em Copas do Mundo, não tem nada que cause mais terror nos brasileiros do que enfrentar a França. Além de um histórico negativo, a seleção conseguiu traumatizar todas as gerações possíveis em três insucessos, e fechamos com esse fantasma coletivo.

O mais impressionante nesse histórico negativo é que o pontapé inicial foi favorável ao Brasil, na semifinal da Copa do Mundo de 1958: a França contava com o atacante Just Fontaine, que até hoje, é o maior artilheiro de uma única edição de Mundial, e marcou o gol do empate por 1 x 1, após Vavá abrir o placar. Porém, Didi colocou o Brasil em vantagem pouco antes do intervalo, e na etapa final, um menino que atendia pelo nome de Pelé resolveu tomar o jogo para si, marcando um impressionante hat-trick. A 7 minutos do fim, Plantoni descontou e fechou a vitória brasileira em 5 x 2.

28 anos depois, começou o pesadelo na Copa do Mundo do México, pelas quartas de final. Em 21 de junho de 1986, Brasil e França entraram no gramado do estádio Jalisco, em Guadalajara, e logo aos 18 minutos, a canarinho abriu o placar com Careca, após uma tabela espetacular entre Muller e Júnior. Porém, Platini empatou pouco antes do intervalo, e no 2º tempo, Zico desperdiçou um pênalti que classificaria o Brasil, parando no goleiro Bats. Sem novos gols, a partida acabou indo para os pênaltis, onde Sócrates e Júlio César perderam suas cobranças e ceifaram o sonho de uma das melhores gerações brasileiras.

Foto: Reprodução/Trivela

Depois de eliminar o Brasil, a França amargou um ciclo esquecível nos anos 90, ficando fora das Copas de 1990 e 1994, enquanto o Brasil levava o tetra nesse meio tempo. O retorno dos “Les Bleus” ao Mundial não poderia ser melhor, com título em uma final contra a própria seleção brasileira; embora essa decisão tenha ocorrido após uma manipulação no sorteio, confessada por Michel Platini. Meios a parte, as duas seleções chegavam embaladas ao Stade de France, até a nebulosa convulsão de Ronaldo Fenômeno horas antes do jogo, em uma história de fatos pouco explicados. Nitidamente abatido, o Brasil não viu a cor da bola e perdeu por 3 x 0, em dois gols de Zidane e um de Petit.

Oito anos depois, antes das quartas de final em 2006, o cenário era quase o mesmo. O Brasil entrou novamente com o status de atual campeão, enquanto a França não havia ficado fora em 2002 (algo que o regulamento nem permitia), mas fez um péssimo papel, caindo na fase de grupos sem marcar um mísero gol. No Mundial da Alemanha, até aquele momento, nenhuma das duas seleções convencia: o Brasil tinha 4 vitórias, mas com um futebol aquém do esperado para o quadrado mágico, enquanto a França passou apenas na 2ª posição de um grupo tecnicamente fraco, com Suíça, Coreia do Sul e Togo, além de sair atrás da Espanha nas oitavas e depender do talento individual de Zidane para conseguir a virada. 

Naquele 1º de julho em Frankfurt, foi exatamente a classe do camisa 10 que acabou com um jogo onde o Brasil não se achou em campo. O magro 1 x 0 a favor dos franceses, em assistência de Zidane para Henry, não refletiu os 90 minutos.