Conheça o Cinema Novo, movimento que revolucionou a história do cinema brasileiro
Liderado por Glauber Rocha, o movimento transformou a produção audiovisual nacional com obras marcadas pela crítica social, inovação estética e compromisso político
Hoje, dia 19 de junho, o Brasil comemora o Dia do Cinema Nacional porque foi há mais de 100 anos, em 1898, que as primeiras imagens foram capturadas pela tecnologia do cinematógrafo — aparelho criado em Paris que registrava imagens sucessivas e depois as projetava, reproduzindo movimento — em solo brasileiro.
O cinema brasileiro passa por diversas fases. Entre 1930 e 1940, o público brasileiro se acostuma com o cinema hollywoodiano. No início da década de 1940, as chanchadas — comédias musicais misturadas com elementos de filmes policiais e ficção científica — ganham ascensão. E, em um período de repressão, desigualdade e censura no Brasil, surge o Cinema Novo, movimento que mudou a história do cinema brasileiro. Foi após o Golpe Civil-Militar de 1964 que esse movimento cinematográfico se consolidou e, até hoje, é considerado um dos marcos da trajetória cinematográfica brasileira.
Contexto Histórico
Liderado pelo cineasta baiano Glauber Rocha, o Cinema Novo teve fortes influências do neorrealismo italiano — movimento caracterizado por filmes que retratam cenários de opressão e injustiça com poucos recursos na Itália pós-Segunda Guerra Mundial — e da Nouvelle Vague Francesa — movimento vanguardista que utilizava orçamentos inferiores e montagens inovadoras no início dos anos 1960 na França.
Surge em um período de intensa inquietação política. De um lado, massas urbanas reivindicavam direitos sociais; do outro, uma elite resistia a qualquer tipo de avanço. Esse antagonismo atinge seu auge no governo Goulart (1962-1964) e resulta no Golpe de 1964. Os anos de chumbo e as lutas sociais decorrentes desse período tornam-se tanto o pano de fundo quanto a temática dos filmes do movimento.
Princípios e Características
“Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” foi o lema que um grupo de jovens cineastas seguiu em busca de revolucionar o cinema no Brasil. Agora, os filmes poderiam ser feitos fora de grandes estúdios e produtoras, mas ainda assim trazendo um discurso de grande relevância. Isso se contradiz com todo o cinema brasileiro anterior, com a popularidade de grandes estúdios como a Vera Cruz, que, de acordo com Glauber, traziam “uma visão imperialista das coisas”. Suas principais críticas eram voltadas à transformação da cultura em objeto de lucro e às populares chanchadas. A ideia era produzir uma arte que se preocupasse com movimentos sociais e políticos e com a cultura nacional.
Para Glauber: “Onde houver um cineasta disposto a filmar a verdade e a enfrentar os padrões hipócritas e policialescos da censura intelectual, aí haverá um germe vivo do Cinema Novo.”
Foto: Reprodução
Improviso, filmagens com menos câmeras, narrativas carregadas de críticas e planos mais diretos são algumas das características do estilo de filmes desse movimento. A falta de grandes equipamentos de gravação tornava as obras do Cinema Novo mais surpreendentes e particulares. O filme era visto como uma ferramenta de mudança, então o objetivo era fugir de todo o padrão estético da época. Isso refletiu nas gravações que, com baixos orçamentos e equipes pequenas, abandonaram todo o refinamento técnico e tinham a ambição de construir um cinema nacional “descolonizado”.
Sua ambição política residia em um compromisso com a verdade: os cineastas enfrentavam a crua realidade brasileira, trazendo à tela a miséria urbana e rural, a opressão institucional e as desigualdades sociais. O cinema funcionava como instrumento de conscientização coletiva, um espaço de confronto e reflexão crítica.
Nesse período surge a Estética da Fome, que sintetizava os ideais e as diretrizes do Cinema Novo. A fome era representada como tema político e social. Essa escolha estética provocou críticas oficiais de “miserabilismo”, que condenavam a representação de personagens pobres, sujos e desesperados em casas escuras. Toda essa estética era contrária ao cinema da época, que retratava luxo, cenários belos e riqueza, ocultando uma realidade marcada por miséria e vulnerabilidade.
Havia certa fusão entre documentário e ficção: corpos reais, ruas concretas e linguagem cotidiana ganham sentidos metafóricos e universais, criando uma dualidade entre o concreto e o simbólico. Cada diretor exprimia em suas obras suas perspectivas pessoais, políticas e estéticas, de forma similar à “teoria do autor” da Nouvelle Vague.
Rejeitando as convenções narrativas da indústria cinematográfica, o Cinema Novo adotava estruturas fragmentárias, desfechos ambíguos e protagonistas questionáveis. A intenção era perturbar o espectador, provocar reflexão e fugir do conforto proporcionado pelas histórias de herói e final feliz do cinema estrangeiro. Essa renovação dialogava com as inspirações europeias, mas se reinventou por meio das urgências latino-americanas, buscando libertar o cinema de heranças coloniais.
Com relação à representação de personagens, as mulheres no Cinema Novo buscavam mudança e transformação. De acordo com Glauber, são “seres em busca de uma saída possível para o amor, dada a impossibilidade de amar com fome.”
Fases, Filmes e Diretores
Primeira Fase (1959-1964)
O Cinema Novo começou a ganhar força entre 1959 e 1964, caracterizando sua primeira fase. É um período de poucos recursos: orçamentos pequenos, equipes menores, filmagens nas ruas e em locais reais. Com pouco equipamento, era necessário ter boas ideias e improvisar. É nesse momento que surge a linguagem da fome. Os cineastas representam as problemáticas existentes na vida da população — fome, violência e exploração econômica.
A ideia era se afastar da visão de ser apenas um “país tropical” com pessoas calorosas que o Brasil possuía no exterior. Acreditava-se na mudança sem romantização. O estilo era quase totalmente documental. Os filmes mais importantes do movimento nascem nessa época.
O Centro Popular de Cultura (CPC) lançou “Cinco Vezes Favela” (1961), reconhecido como uma das obras inaugurais do movimento. O filme foi realizado por cinco cineastas. Desses realizadores — Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman, Miguel Borges e Marcos Farias — quatro construíram carreiras significativas.
Cacá Diegues, considerado um dos mais importantes cineastas brasileiros de todos os tempos, abordava temas históricos e raciais. “Ganga Zumba” (1964) mostra como ele conseguia alcançar camadas populares sem perder seu rigor crítico e informativo.
Foto: Reprodução
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Joaquim Pedro de Andrade construía pontes entre a literatura, a tela e o debate político, adaptando obras clássicas da literatura brasileira. “Macunaíma” (1969) consolidou-se como sua obra mais emblemática da época.
Leon Hirszman tentou reconectar o movimento com audiências mais amplas por meio de “Garota de Ipanema” (1968), obra que retrata a classe média brasileira.
Miguel Borges dirigiu “Maria Bonita, Rainha do Cangaço” (1968), enquanto Marcos Farias não ganhou projeção duradoura.
“Vidas Secas”, de Nelson Pereira dos Santos, estreou em 1963 e retrata a pobreza e a busca por valor e dignidade. O roteiro é baseado na obra de Graciliano Ramos e foi um dos filmes dessa fase inicial do movimento. Uma família de retirantes enfrenta as secas que assolam o sertão nordestino.
O diretor comenta que as obras dessa fase do Cinema Novo não tinham uma proposta muito clara. O importante era filmar e narrar. Nelson objetivava retratar em suas obras a vida popular. “Vidas Secas” e “Como Era Gostoso o Meu Francês” (1971) demonstram seu domínio do realismo crítico.
“Foi um momento muito importante para o reconhecimento internacional do Cinema Novo. Os filmes eram reconhecidos como vigorosos, muito críticos e muito novos. Isso se dava por duas razões: primeiro porque os filmes eram bons, desculpe-me a modéstia. E, em segundo lugar, porque inspiravam uma solidariedade natural e espontânea que apoiava uma volta à democracia no Brasil. O Cinema Novo, portanto, ajudou a expressar essa solidariedade.” — Texto extraído do livro “Nelson Pereira dos Santos, uma cinebiografia do Brasil – Rio, 40 Graus, 50 Anos”.
“Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) é outro filme que compõe essa primeira fase. Dirigida por Glauber Rocha, a obra acompanha a trajetória de Manuel, um vaqueiro que mata seu chefe no sertão nordestino e trilha uma jornada de fuga, rivalidade e crime.
O filme não apenas é considerado um dos mais marcantes de todo o Cinema Novo, mas também possui reconhecimento internacional, tendo disputado a Palma de Ouro no Festival de Cannes em seu ano de estreia e recebido uma exibição em 4K de sua cópia restaurada, em 2022. Além disso, a obra impressionou cineastas ao redor do mundo, inspirou inúmeras críticas e apareceu em segundo lugar na lista dos cem melhores filmes brasileiros publicada pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), em 2016.
Glauber não apenas dirigia filmes que se tornaram clássicos — “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), “Barravento” (1962), “Terra em Transe” (1967) e “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” (1968) — como também escrevia manifestos que orientavam o pensamento coletivo.
Ruy Guerra trouxe inovação com “Os Fuzis” (1964), e Olney São Paulo, com obras como “O Grito da Terra” (1964), também deixou marcas profundas no período inicial do Cinema Novo.
Foto: Reprodução
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Segunda Fase (1964-1968)
O golpe militar muda tudo. No período de 1964 a 1968, acontece a segunda fase do Cinema Novo. Os filmes ficam mais carregados de símbolos políticos e mensagens cifradas. Os cineastas falam menos para o público e mais para críticos e intelectuais. Alguns tentam fazer filmes mais sofisticados para agradar a um público maior, distanciando-se da “Estética da Fome”.
Glauber Rocha segue firme em seu compromisso político. Faz “Terra em Transe” (1967), um drama repleto de símbolos sobre a ditadura, que se passa em Eldorado, país fictício da América Latina, exibindo a trajetória de Paulo, poeta que busca mudar o cenário de corrupção em um país que enfrenta um golpe de Estado. No fim, o filme é proibido pela censura.
A obra também competiu pelo prêmio principal do Festival de Cannes, onde teve sua estreia internacional. Mas obras como “Garota de Ipanema”, de Leon Hirszman (1968), também foram lançadas nesse período, retratando personagens da classe média em uma trama de romance e autoconhecimento, com o objetivo de atrair as massas.
Terceira Fase (1968-1970)
Em dezembro de 1968, o regime militar intensificou a repressão, dando início à terceira e última fase do Cinema Novo. O Ato Institucional nº 5 é imposto, intensificando a censura, a perseguição e o exílio. Os cineastas fogem do Brasil e continuam filmando longe de casa.
Ironicamente, os filmes dessa fase ficam tecnicamente melhores porque o Brasil se modernizava. Mas isso contradizia os ideais simples do começo. A criação da Embrafilme (1969) multiplica a produção de filmes no Brasil, mas agora sob influência do regime. No início dos anos 1970, o Cinema Novo perde força e desaparece, com Glauber Rocha declarando o fim do movimento.
O que sobra de sua energia rebelde ressurge em outros movimentos, como o Udigrudi, que volta a uma estética mais bruta em oposição ao polimento da indústria.
Curiosidades do Movimento
Foi nas mesas de um boteco carioca que nasceram as ideias do movimento. Durante os anos 1950, Glauber Rocha, Leon Hirszman e Joaquim Pedro de Andrade frequentavam bares da Zona Sul do Rio de Janeiro para imaginar um cinema diferente.
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Outra curiosidade interessante é a contradição do regime militar. Enquanto perseguia e censurava os cineastas, simultaneamente criava condições econômicas favoráveis por meio de cotas obrigatórias de exibição para longas-metragens nacionais, favorecendo a circulação das obras do movimento.
A ironia maior: um movimento nascido da rejeição à indústria cinematográfica terminou criando sua própria estrutura produtiva. A Difilm, fundada por onze cineastas e produtores na metade da década de 1960, funcionava como alternativa às grandes distribuidoras.
Foram mais de 67 filmes lançados até 1969, um fato impressionante que o próprio Glauber reconhecia como o marco revolucionário mais concreto do Cinema Novo.
Legados para o Cinema
Não apenas as obras cinematográficas lançadas no período, mas toda uma transformação da produção audiovisual brasileira e internacional ocorreu em decorrência do Cinema Novo.
O período impulsionou a criação da Embrafilme, em 1969, embora o movimento nunca tenha se identificado plenamente com ela. O Cinema Novo também alimentou o Terceiro Cinema, um fenômeno revolucionário que se expandiu pela África e pela América Latina.
Além disso, sua estética se mantém presente: filmagens em locação, mistura de atores profissionais e não profissionais e a tematização da violência e da desigualdade tornaram-se elementos recorrentes no cinema nacional contemporâneo.
Estruturalmente, o movimento criou redes de cineclubes e cinematecas como alternativas ao circuito comercial, estimulou debates sobre políticas públicas para o audiovisual e abriu espaço para estratégias coletivas de distribuição.
Finalmente, colocou o Brasil no mapa dos grandes festivais cinematográficos mundiais, consolidando a imagem de um cinema preocupado em narrar histórias com simplicidade e profundidade narrativa.
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