Estamos maravilhadas e maravilhados por assistir às máquinas pintarem e bordarem no solo de Marte, mas o Brasil não avança em uma questão básica: não consegue articular, de forma coletiva, uma discussão madura e qualificada sobre como vencer o racismo. O negacionismo em relação a esse crime que violenta de tantas formas não dá descanso. A insistência de parte considerável da sociedade brasileira em bater o pé e fazer birra para dizer que ele não existe beira algum tipo de patologia. Se há gente que se desestabiliza só de ouvir a palavra, as reações são de choro e ranger de dentes quando os indícios das tensões de base racial aparecem   escancarados em produtos que extrapolam as chamadas bolhas das redes sociais onde a discussão sobre esse tema é mais intensa e até belicosa. Mas eis que esse debate chegou recentemente, mais uma vez, em um jogo de futebol e, no game de TV, Big Brother Brasil. Nos dois casos o racismo insinuou-se em comentários sobre cabelos.

No domingo 25 de abril, durante a disputa entre as equipes de Napoli e Bahia pela 3ª Rodada do Campeonato Feminino de Futebol, o comentarista Edson Florão classificou de “exóticos” os cabelos das atletas do Bahia. E até insinuou que isso dava a elas uma vantagem sobre as adversárias no momento da disputa da bola pelo alto.  O cabelo funcionando como uma espécie de suporte? Oi? O narrador, Paulo Cezar Ferrarin, concordou e comparou o cabelo das atletas ao da multi e talentosa artista, Margareth Menezes ao chamar de “mimimi” o alerta feito por um internauta de que eles estavam pisando em um campo minado.  A transmissão do jogo ocorreu por meio de uma plataforma digital, a My Cujoo em parceria com a CBF TV.

Palavras ferem pelo que dizem

Segundo o Dicionário Houaiss, uma referência em português, exótico não pode ser considerado um elogio ou virtude nos seus três significados: 1. Não originário do país em que ocorre; que não é nativo ou indígena; estrangeiro; 2. Que é esquisito, excêntrico, extravagante; 3. Que não foi bem-acabado ou realizado; malfeito, desajeitado.

Os dois comunicadores, portanto, apontaram que as atletas da equipe do Bahia têm cabelos “não originários do país; esquisitos, excêntricos, extravagantes; malfeitos, desajeitados”. Ou seja: informaram sem saber do que estão falando- o que já é muito grave- ou apenas repetiram um padrão que descortina o incômodo secular de brasileiras e brasileiros com os seus cabelos e/ ou cabelos alheios na sua forma original?

Que bom, que nesse caso, a CBF, a plataforma de transmissão e a direção do Bahia rapidamente se posicionaram, por meio de nota, repudiando os comentários. O comentarista e o narrador também foram afastados de novas transmissões. Sobre estes, torço para que, no lugar da negação, reflitam sobre o episódio sem autocomiseração e tentem ao menos procurar entender por que o seu comentário não é desculpável sob nenhuma perspectiva. A nota da CBF, por meio do perfil oficial do campeonato, oferece elementos para que ambos façam essa reflexão:

“Durante a partida Napoli x Bahia, pelo Brasileiro Feminino A-1, a equipe de transmissão do MyCujoo fez comentários preconceituosos direcionados a atletas do Bahia. A CBF lamenta profundamente o ocorrido e informa que solicitou ao MyCujoo que os profissionais fossem afastados imediatamente das transmissões, o que foi prontamente atendido pela plataforma. Não podemos admitir que o futebol seja palco para esse tipo de comportamento”.

Foto: Divulgação / Canva

Negação

O problema é que, infelizmente, quando alguém é pilhado em comentários que podem ser caracterizados como preconceito, especialmente de cunho racial, a primeira reação do autor é a negação. O padrão é insistentemente repetido. No episódio que ocorreu no Big Brother Brasil não foi diferente. O cantor Rodolfo, que acabou eliminado, disse que não teve a intenção de ofender, ao ser confrontado com a comparação que fez entre o cabelo de outro participante, João Luiz Pedrosa, professor de geografia, com uma peruca de uma fantasia de monstro.

A cada vez que necessitou se explicar sobre o episódio as justificativas do cantor só apontaram a insistência em negar o que é comportamento padrão para muita gente. Fica mais ou menos entendido que a vítima da ofensa está procurando caso por uma bobagem. Para manter a sua versão lá foi Rodolfo reivindicar o próprio cabelo como crespo afirmando que o alisa. Só isso já seria um bom motivo para a sua reflexão. Confrontado, especialmente por Camillla de Lucas, outra participante negra e muito próxima a João Luiz, começou a apontar o cabelo de outra pessoa, ou seja, o do seu pai como se fosse o salvo conduto para que pudesse continuar a considerar cabelos crespos como algo tão grotesco que viram uma fantasia.

Com a saída do programa e a peregrinação por outros produções da emissora, ao ser colocado diante da história, Rodolfo ensaiou desculpas. Como estamos no terreno da comunicação, o que importa não é a mensagem, mas como ela soa. Neste caso o ruído parece mais o de alguém que recita o texto para acabar com a conversa que incomoda. E cabelo, ao lado de cor da pele, provoca uma sensibilidade além da conta no Brasil. No caso dos cabelos, basta dar uma ligeira atenção ao arsenal de produtos e procedimentos para mudar a sua textura. Destes, o que mais me espantou foi a chamada escova definitiva, uma técnica que usa formol. O processo, se aplicado sem cuidado, pode levar à morte, como aconteceu com algumas pessoas.

Foto: Divulgação / Canva

A que ponto se chega para eliminar o efeito do cabelo que ganhou tantos adjetivos- carapinha, duro e até uma avaliação destinada para comportamentos humanos- ruim? Difícil encontrar uma mulher com cabelos crespos que não foi confrontada, em alguma fase da sua vida, com a insistência para se livrar do cabelo “assanhado” ou “descuidado” por não estar submetido a nenhum processo para mudança de textura.

Na minha infância, por exemplo, eu fiquei impressionada quando vi, pela ´primeira vez, aos sete ou oito anos, uma amiga da minha mãe utilizar o “ferro”, como procedimento para alisar os cabelos.  A técnica consistia no uso de um conjunto de objetos. Um deles tinha formato de pente e outro, que parecia uma pequena sanduicheira, minha mãe explicou para mim depois que era a “chapinha”, conhecida por ser mais agressiva, pois aprisionava toda a extensão do cabelo para o alisamento. Os objetos foram colocados para esquentar nas bocas do fogão a gás e, quando estavam bem quentes, foram passados no cabelo da pessoa, mecha a mecha. O cheiro de queimado a partir do contato dos fios do cabelo da nossa visita com os objetos quentes foi uma das coisas mais desconfortáveis que presenciei no processo.

Minha mãe tinha horror a esse procedimento especialmente quando era aplicado em crianças. Certa vez, ela socorreu uma das minhas amigas quando tínhamos 12 anos. Fomos tomar banho de rio e a menina desobedeceu às recomendações da minha mãe, sob cuja responsabilidade estava, e molhou o cabelo alisado com chapinha. Imediatamente os fios encolheram. Sem alternativa, minha mãe teve que desembaraçá-lo. Mesmo com um pente de dentes largos e muito cuidado, o cabelo estava enfraquecido o que fez os fios caírem em tufos volumosos. O incidente resultou no corte dos cabelos da menina, mas a mãe dela decidiu por um novo alisamento com chapinha para dar o que considerava formato ao corte.

Foto: Divulgação / Canva

Da agressão à liberdade dos fios

Nos processos de alisamento, depois dessa fase dos ferros veio a dos alisantes químicos. Amônia, o mais usado, deixava um cheiro terrível como o que exala de esgotos. Para substituí-la, anos depois, apareceu a guanidina.  Usei produtos à base das duas substâncias, mas só a partir dos meus 18 anos e para irritação da minha mãe.

Lembro que, na primeira vez que meu cabelo recebeu um produto para alisar os fios, a cabeleireira disse que o que estava usando, com amônia na composição, era em escala mais leve porque eu não tinha “cabelo ruim”. Nessa época, eu ainda não tinha aproximação com discussões sobre os impactos do racismo na estética. Quando essa fase chegou, a partir do meu trabalho com o jornalismo, eu já tinha passado por experiências como acordar com o chamado “corte químico” do cabelo, na altura da testa, por conta da guanidina. Levei meses para poder voltar a usar o cabelo solto porque os fios mais curtos ficavam em estado de frizz constante.

Na primeira metade dos anos 2000, quando foi mais intensa a minha relação com procedimentos de alisamento, que já tinha expressões para amenizá-lo como “defrisagem”, “tratamento só na raiz para soltar os cachos”, a oferta de produtos especializados para cabelos crespos era ínfima. A alternativa era adaptar os produtos disponíveis para cabelos secos ou com procedimentos químicos. Aqui e ali aparecia uma alternativa especializada, mas a saída adequada mesmo era só para quem conseguia comprar produtos importados, especialmente os vindos dos EUA que já tinham uma sedimentação na oferta de cosméticos produzidos para atender à comunidade afro-americana.

Só quando fui iniciada no candomblé, anos depois, meus cabelos alcançaram a sua liberdade completa por conta, inclusive, dos códigos de conduta sobre o que se passa na cabeça. Meu novo cabelo, que surgiu após a retirada do anterior, não voltou a passar por procedimento químico à base de amônia ou equivalente.

Mas chegamos à era em que há ampla oferta de produtos para os fios crespos. Há até modulação para classificar as diversas texturas dos nossos cabelos. Ficamos mais à vontade com metáforas como “cabelo é coroa” e é possível desfilar de black power, trança, dread e, inclusive, mandar alguém deixar os nossos cabelos em paz com jeitinho ou com uma sucessão de impropérios, afinal quem diz o que quer está sujeito a ouvir também o que não quer. Mas ainda assim a batalha não está vencida. Continuamos a ouvir com frequência perguntas como “dá trabalho para acomodar?” ou “posso pegar para sentir a textura?”. Isso mostra como esse cabelo crespo vivendo a sua liberdade de ser as tantas coisas que lhe é possível continua a incomodar.

Precisamos, portanto, fortalecer a disposição de não deixar passar mais como “brincadeira” ou “ignorância” – mais uma vez no sentido preciso da palavra, ou seja, não saber- e deixar a cabeleira voar. Como diz a canção ressoada na voz de outra cantora baiana, Gal Costa, quem disse que “cabelo não sente?”. Pois sente. Mas o incômodo com ele diz muito mais sobre quem o critica do que quem o usa. Assim, atletas da equipe feminina do Bahia e Margareth Menezes: que bom que temos vocês com seus lindos cabelos para deixar o insistente racismo do jeito que ele deve ficar quando insistir em aparecer: nu e completamente exposto para o repúdio.