Após 40 anos, o gravador e ilustrador paraibano Ciro Fernandes retorna a Curitiba para a abertura da exposição “Ciro Fernandes: o menino, o olho e o pássaro”. A abertura acontece no dia 14 de junho, às 10h, no Memorial de Curitiba, com a presença do artista que, aos 84 anos, realiza uma demonstração de gravura ao vivo durante o evento.

“Os trabalhos tratam de questões que atravessam minha vida há muitos anos, ligadas ao imaginário, à observação do mundo e à liberdade criativa”, afirma Ciro. “Estou animado para compartilhar esses trabalhos com um público diverso e para ver como cada pessoa irá construir suas próprias leituras”, completa.

Com curadoria de Iriana Vezzani e subsídio do Mecenato da Fundação Cultural de Curitiba, a mostra integra o circuito de exposições da 16ª Bienal de Curitiba e reúne cerca de 100 trabalhos impressos, além das matrizes de xilogravura talhadas em diversos materiais.

A curadora Iriana Vezzani afirma que o processo curatorial partiu da compreensão da trajetória do artista como uma prática contínua de construção de memória e pertencimento. “Buscamos reunir obras que evidenciam não apenas sua importância histórica para a xilogravura brasileira, mas também a permanência do olhar que atravessa toda a sua produção”, diz Iriana.

Sobre a exposição das matrizes, a curadora destaca que elas aproximam o público da presença física do gesto. “A matriz é vestígio da relação física e da experiência do tempo entre o corpo do artista e a matéria. Sua obra não se posiciona como oposição à tecnologia, mas como um deslocamento crítico dentro desse próprio campo.”

(Matrizes de xilogravuras compõem a exposição. Foto: Katarina Almeida)

Vale lembrar que o artista deve talhar uma xilogravura ao vivo durante a abertura. Além disso, uma obra será doada ao Museu da Gravura Cidade de Curitiba, referência nacional na área.

Homenagem em Vida

A Singular Cultural é uma produtora dedicada às artes visuais, que preza pela preservação do patrimônio cultural e por ações educativas. Um dos focos dos sócios Amanda Prado e Vitor Prado é homenagear artistas em vida — trabalho já realizado em exposições retrospectivas, como as de Rogério Dias, no Museu de Arte Contemporânea do Paraná, e de Rimon Guimarães, no Museu Municipal de Arte de Curitiba.

Desta vez, acompanhando o artista pelas redes sociais durante a pandemia, Amanda e Vitor decidiram homenagear o gravurista. “Depois de algum tempo, agendamos uma visita ao ateliê e vimos o vasto material que Ciro possuía. Achamos que era hora de uma grande exposição, como forma de homenagear um artista que faz parte da história do país”, afirma Vitor.

Para Ciro, todo reconhecimento é importante, porque reafirma a relevância do trabalho desenvolvido ao longo dos anos. “A produção artística é feita de persistência, pesquisa e dedicação contínua, muitas vezes longe dos holofotes. Poder receber esse reconhecimento em vida é especialmente valioso, porque permite dialogar com novas gerações e acompanhar de perto a forma como o trabalho continua encontrando ressonância no público”, diz.

Sobre o artista

Nascido em Uiraúna, no alto sertão paraibano, o artista plástico Ciro Fernandes tem 84 anos e vive no Rio de Janeiro. Vindo de uma família de artistas, aprendeu desde cedo sobre música, pintura e gravura.

Sua obra transita entre pinturas, instalações e xilogravuras, dialogando com referências da arte popular e da cena contemporânea, e construindo uma linguagem poética marcada pelo uso de camadas e texturas que rememoram lembranças pessoais e narrativas coletivas.

Após um período de isolamento causado pela pandemia, Ciro passou a marcar forte presença nas redes sociais, acumulando mais de 200 mil seguidores no Instagram, onde divulga principalmente vídeos de seu trabalho — alguns deles com mais de 10 milhões de visualizações.