Cinco seleções que jogaram a Copa do Mundo Feminina, mas nunca a Masculina
Casos de países mais fortes no feminino do que no masculino são comuns, e em alguns, a diferença se reflete nos Mundiais
Por João Silvino – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Com os últimos dias da Copa do Mundo de 2026 correndo nesta semana, cresce a expectativa para a edição feminina no ano que vem, que será realizada no Brasil entre os dias 24 de junho e 25 de julho. Será a décima edição do torneio, criado pela Fifa em 1991, e nessa trajetória, um fenômeno não tão incomum já se fez presente: a participação de países que, no futebol masculino, estão longe de qualquer destaque mundial e até mesmo continental.
No Brasil, conhecemos bem esse cenário por meio da Ferroviária de Araraquara, e no passado, equipes como São José-SP, Rio Preto e Iranduba tinham grande destaque com as meninas, enquanto os clubes masculinos sequer disputavam um torneio nacional. Com esse contexto explicado, voltamos ao universo da Copa do Mundo Feminina, que em sua história conta com algumas seleções que nunca estiveram presentes em uma edição masculina. A partir de agora, você conhece cinco delas e algumas curiosidades.
Copa do Mundo 1991: Taiwan / Taipé Chinês

O primeiro caso vai além das quatro linhas, sendo uma prova legítima de como a política e o esporte andam de mãos dadas. Taiwan e China vivem um conflito histórico há quase um século, desde o sucesso da Revolução Chinesa de 1949. Após ser derrubado do poder por Mao Tsé-Tung, na então República da China, o governante Chiang Kai-shek passou a ocupar a ilha de Taiwan, onde formou um novo governo, que inicialmente contou com o apoio dos Estados Unidos. A partir dali, nasceram duas Chinas: a República Popular da China, comandada por Mao, e a República da China, que é o nome oficial de Taiwan até os dias de hoje.
Porém, Taiwan passou a ficar isolado nos anos 70, perdendo o assento da China na ONU para Pequim em 1971, e tendo as relações oficiais rompidas com os Estados Unidos em 1979, por iniciativa dos norte-americanos, que apesar disso, seguem com obrigação legal de defender a ilha por determinação do congresso. Na teoria, o Taiwan possui autonomia política, financeira e militar, mas na prática, não tem reconhecida ou mesmo ativa uma independência formal em relação à República Popular da China, que persiste no objetivo de reunificação dos países, ameaçando até o uso de força militar.
Exatamente por conta da pressão política imposta pela RPC, o Taiwan é obrigado a competir no esporte sob o nome de Taipé Chinês; foi assim que disputou a Copa do Mundo Feminina em 1991, realizada justamente na República Popular da China. No sorteio, foi para o grupo C, ao lado de Alemanha, Itália e Nigéria.
Na estreia, disputada em 17 de novembro na cidade de Jiangmen, o Taipé Chinês acabou derrotado por 5 x 0 contra as italianas, e dois dias depois, jogando em Zhongshan, perdeu novamente, agora por 3 x 0 diante da Alemanha. Porém, como a edição inaugural da Copa do Mundo contava com apenas três grupos, as duas melhores terceiras também iriam se classificar ao mata-mata, e as taiwanesas se aproveitaram disso: batendo a Nigéria por 2 x 0 em Jiangmen, na última rodada, fecharam a campanha com 2 pontos, e superaram o Brasil, terceiro colocado do Grupo B, pelo número de gols marcados (2 x 1).
Nas quartas de final, o Taipé Chinês teve um duelo pesado contra os Estados Unidos na cidade de Fashon, e o abismo técnico se fez evidente: as norte-americanas venceram por 7 x 0, e no 1º tempo, o placar já registrava 5. Com uma sonora goleada, o Taiwan/Taipé Chinês se despediu de sua única participação em Copas do Mundo Femininas. Nas eliminatórias para 2027, as taiwanesas chegaram a disputar a repescagem, mas perderam a vaga contra a Coreia do Norte. Ainda assim, o país ocupa a 40ª posição no Ranking Feminino da Fifa.
Um panorama bem diferente do que é vivido pela seleção masculina, uma das piores da Ásia e que ocupa apenas a 174ª posição no Ranking da Fifa. Nas eliminatórias, o país até consegue superar o mata-mata preliminar, onde enfrenta adversários ainda mais fracos, mas na primeira fase de grupos, sempre é derrotado em todos os jogos e acaba em último lugar. Em 2026, venceu o Timor-Leste na 1ª fase, e perdeu todas na 2ª contra Omã, Quirguistão e Malásia.
Copa do Mundo 2011: Guiné Equatorial
Campanha: Fase de grupos

20 anos depois, a modesta e desconhecida seleção da Guiné Equatorial marcou presença na Copa do Mundo de 2011, realizada na Alemanha. O país, que foi colônia de Portugal, e posteriormente da Espanha, conquistou sua independência em 1968, mas só se filiou à Fifa no final dos anos 80. Na Copa Africana Feminina de 2010, válida também como eliminatórias, as guinéu-equatorianas conquistaram o vice-campeonato, carimbando o passaporte para a primeira competição oficial do país até então, nas duas modalidades.
No entanto, a seleção africana levou consigo uma bagagem de polêmicas. O elenco comandado pelo ítalo-brasileiro Marcello Frigerio contava com oito jogadoras brasileiras naturalizadas, que, segundo rumores e acusações, teriam sido subornadas pela Guiné Equatorial, para defenderem a camisa do país. Ainda no departamento de naturalizações, a seleção perdeu a atacante Jade Boho, suspensa pela Fifa por já ter defendido a Espanha.
Todo esse roteiro conturbado parecia típico de seleções que caem de paraquedas nas competições da Fifa e voltam para casa com três goleadas, algo comum na Oceania. No sorteio, que reservou um grupo com Brasil, Austrália e Noruega, essa expectativa negativa foi reforçada. Porém, apesar de tantos pesares, a Guiné Equatorial não fez feio para uma seleção estreante e sem tradição.
O jogo de estreia, contra a Noruega na cidade de Augsburg, ficou marcado pelo fair play, com apenas nove faltas cometidas, e acabou em apenas 1 x 0 para as norueguesas, sendo que a Guiné Equatorial teve mais finalizações. Na 2ª rodada, contra a Austrália, uma movimentada derrota de 3 x 2, mas que ficou marcada por um lance inacreditável: após um chute das australianas na trave, a zagueira Bruna agarrou a bola com as duas mãos dentro da área, mas a árbitra não marcou pênalti e muito menos expulsou a atleta. Na última rodada, derrota de 3 x 0 contra o Brasil, em gols de Cristiane (2x) e Érika, encerrando a única participação do país em uma competição oficial de futebol feminino; atualmente, a Guiné Equatorial está na 90ª posição do Ranking.
No futebol masculino, o país é 105º colocado do ranking e vem em uma evolução recente, disputando edições da Copa Africana das Nações e alcançando a semifinal desta na edição que sediou, em 2015. Contudo, nas eliminatórias para a Copa do Mundo, nunca chegou a uma fase decisiva; sua melhor campanha foi em 2022, quando foi vice-líder de seu grupo na 2ª fase, com 11 pontos, ficando a apenas dois da classificada Tunísia.
Copa do Mundo 2015 e 2019: Tailândia
Campanhas: Fase de grupos (2015/2019)

Mais uma vez no continente asiático, uma seleção que entrou para a história com sua participação na Copa do Mundo Feminina, mas por um motivo muito longe de ser nobre.
As tailandesas já marcaram presença em dois Mundiais na história, começando pela criticada edição de 2015, no Canadá. O torneio, expandido de 16 para 24 seleções naquele ano, foi disputado totalmente em grama sintética, algo que incomodou dezenas de jogadoras, e além disso, ocorreu poucos dias após o início do Fifagate, escândalo que derrubou, baniu e prendeu dezenas de dirigentes do futebol mundial. Dentro de campo, a Tailândia era uma das oito estreantes naquela Copa, após vencer uma repescagem asiática contra o Vietnã, e caiu no grupo B, com Alemanha, Noruega e Costa do Marfim.
A campanha de estreia em Copas se limitou à fase de grupos: na 1ª rodada, a Tailândia levou 4 x 0 da Noruega, em Ottawa, e venceu a Costa do Marfim por 3 x 2 na sequência, novamente jogando em Ottawa. Assim, chegou na última rodada podendo se classificar, mas sofrendo uma nova goleada de 4 x 0 contra a Alemanha, em Winnipeg, as tailandesas foram uma das piores terceiras colocadas e se despediram da competição.
Quatro anos depois, na Copa da França em 2019, a Tailândia retornou ao Mundial após atingir a semifinal da Copa Asiática, mas o destino não reservou uma participação a ser lembrada de forma positiva. A seleção foi sorteada para o grupo F, com Estados Unidos, Chile e Suécia, e a estreia em 11 de junho acabou virando um pesadelo: em Reims, as tailandesas perderam de 13 x 0 para as norte-americanas em Reims, no que foi a maior goleada já registrada nas Copas do Mundo, seja a masculina ou a feminina; daí, surge a frase inicial desse tópico, com a Tailândia entrando para a história.
Na 2ª rodada, a equipe foi novamente goleada contra a Suécia, mas ao menos marcou um solitário gol na derrota por 5 x 1 em Nice. E na despedida, nova derrota, por apenas 2 x 0 diante do Chile em Rennes. Ainda assim, a Tailândia é a 49ª colocada no ranking mais atualizado de seleções.
Bem atrás disso, ocupando uma discreta 94ª posição, está a seleção masculina, que nunca esteve realmente próxima de uma Copa do Mundo. Até hoje, a Tailândia só chegou duas vezes na fase final das eliminatórias, mas em ambas as ocasiões, não venceu nenhum jogo e acabou com sobras na última posição do grupo. Na última vez, por uma vaga na Copa do Mundo da Rússia, foram oito derrotas em dez partidas no grupo B e somente 2 pontos, ficando a 9 do vice-lanterna Iraque, e a 17 da vice-líder e classificada Arábia Saudita.
Copa do Mundo 2023: Zâmbia
Campanha: Fase de grupos

Voltando para a mais recente Copa do Mundo Feminina, dois países alcançaram o torneio pela primeira vez na Austrália e na Nova Zelândia, antes que os homens conseguissem o mesmo feito; um deles foi a Zâmbia, classificada após chegar na semifinal da Copa Africana Feminina em 2022. O Mundial seria a segunda competição oficial na história das zambianas, após os jogos olímpicos de Tóquio, onde chegaram a perder de 10 x 3 para a Holanda na fase de grupos.
Sorteada para a metade neozelandesa da Copa, no grupo C, a Zâmbia ficou em maus lençois, caindo diante de Espanha, Japão e Costa Rica. O sonho de uma classificação não chegou nem na última rodada, após as zambianas perderem de 5 x 0 para Espanha e Japão nas duas primeiras partidas, disputadas em Hamilton e Auckland. Mas nem tudo foi tristeza, e na despedida, a Zâmbia bateu a Costa Rica por 3 x 1, ficando com a 3ª posição do grupo. Atualmente, ocupa a 65ª posição no Ranking da Fifa.
No cenário do futebol masculino, a Zâmbia esteve a um passo de disputar sua primeira Copa do Mundo em 1994, contando com a geração mais promissora de sua história. Porém, um trágico acidente aéreo em abril de 1993, no Gabão, matou toda a delegação de 30 pessoas presente na aeronave, entre jogadores, comissão técnica e dirigentes da seleção. No ano seguinte, após perder a vaga para Marrocos, foi vice-campeã da Copa Africana de Nações, e em 2012, no mesmo Gabão, conquistou o inédito título continental, se consolidando como uma seleção de segunda prateleira que sempre pode surpreender. No momento, a Zâmbia é a 90ª colocada no ranking.
Copa do Mundo 2023: Vietnã
Campanha: Fase de grupos

O futebol asiático traz o quinto e último caso, com a pior campanha da Copa do Mundo de 2023. Apesar de estar em boas posições no ranking mundial de seleções, frequentemente no Top 30, o Vietnã passou longe de fazer um grande papel nos gramados da Nova Zelândia, após se classificar por meio de uma repescagem asiática, superando Taipé Chinês e Tailândia.
Logo de imediato, o sorteio da competição foi bastante cruel, colocando as vietnamitas em um grupo com Holanda e Estados Unidos, as finalistas da Copa de 2019, além de Portugal. Na estreia, derrota de 3 x 0 contra as norte-americanas em Auckland, e na sequência, eliminação sacramentada diante de Portugal, após um novo revés de 2 x 0 na cidade de Hamilton. Contudo, a pior campanha viria na rodada final, com o Vietnã perdendo de 7 x 0 para a Holanda e finalizando sua participação no Mundial com saldo de -12. Para 2027, a seleção não conseguiu vaga na Copa.
No futebol masculino, o Vietnã nunca passou realmente perto de uma Copa do Mundo, chegando na fase final de um classificatório da Ásia apenas em 2022, quando foi uma das presenças mais surpreendentes ao lado do Líbano. Contudo, em 10 jogos no grupo B, perdeu oito e acabou na lanterna com somente quatro pontos. Atualmente, o país se encontra na 99ª posição do ranking mundial.



