Por Ana Pessoa

Esse é meu segundo ano consecutivo cobrindo o Festival de Cinema de Cannes pela Cine Ninja, e é impossível não comparar o clima desta edição com o que vivi aqui no ano passado, mesmo ainda estando nos momentos iniciais do evento. Em 2025, o Brasil era o país de honra no Marché du Film — o maior mercado e encontro internacional de filmes e profissionais do cinema no mundo; “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, disputava a Palma de Ouro e existia uma sensação muito forte de presença brasileira ocupando os espaços de debate, mercado e sessões. A gente se esbarrando pelos bares, restaurantes e festas. Esse movimento ajuda a entender como Cannes também funciona como um espaço de afirmação política e simbólica dentro do cinema internacional, especialmente quando determinados países do Sul Global ocupam o centro da programação.

Também foi um ano marcante para a Quinzena dos Realizadores, com o destaque do projeto apadrinhado por Karim Aïnouz, Directors’ Factory Ceará Brasil, reforçando a potência criativa que existe para além dos grandes centros do audiovisual brasileiro.

A presença do Brasil também apareceu de forma muito simbólica em outros espaços do festival. A diretora Marianna Brennand, diretora do filme “Manas”, foi uma das homenageadas da edição e recebeu um incentivo de 50 mil euros do programa Women In Motion, iniciativa que apoia cineastas mulheres na realização de seus segundos longas. Em um cenário ainda tão desigual para mulheres no audiovisual, ver uma diretora brasileira ocupando esse espaço foi bonito demais. São esses espaços paralelos que também definem quem ganha continuidade dentro do circuito do cinema internacional.

Agora, em 2026, o clima já é outro, com presença marcante sobretudo da cena independente do cinema europeu e asiático.

A atriz Jane Fonda e a atriz Gong Li conduziram a cerimônia de abertura, enquanto o cineasta Peter Jackson recebeu uma Palma de Ouro honorária. Em um dos momentos da noite, Jane Fonda falou sobre o poder das vozes “nas telas, fora das telas e nas ruas”, em uma fala entendida também como crítica ao avanço conservador representado por Donald Trump. Cannes continua tentando sustentar essa imagem de um festival onde cinema e política caminham juntos — ainda que isso muitas vezes aconteça entre marcas de luxo, photocalls e negociações milionárias.

O filme de abertura deste ano, “The Electric Kiss”, talvez resuma bem essa contradição. A comédia romântica francesa ambientada nos anos 1920, com elenco de peso e uma Paris em transformação como pano de fundo, parece mais pensada para o circuito comercial francês e para os distribuidores locais do que como uma escolha que realmente dialogue com o imaginário de abertura de Cannes. É um filme leve, bem resolvido dentro do que se propõe, com momentos de humor e uma estética bonita, mas que não chega a criar um impacto de abertura de festival.

Nesse sentido, “The Electric Kiss” se encaixa numa abertura que cumpre mais uma função de programação do que de inauguração do festival. Funciona como entretenimento e circulação, sem tensionar ou deslocar o tom desta edição.

E é isso… nos últimos anos, esse lugar do filme de abertura em Cannes tem oscilado entre tentativas de aproximação com o público francês e escolhas mais seguras de mercado, com poucos momentos que ficam na memória do festival.

Mas, pra mim, o mais importante de estar em Cannes é observar quem ocupa as margens desse circuito: cineastas do Sul Global, narrativas que escapam do eurocentrismo e histórias que ajudam a ampliar nossa visão de mundo.

Porque, apesar de todas as contradições, do glamour excessivo e das disputas de mercado que atravessam o festival, Cannes ainda segue sendo um espaço importante de encontro, circulação e reconhecimento para filmes e realizadores que ajudam a pensar o cinema contemporâneo para além dos centros tradicionais de poder, e estar aqui, acompanhando tudo isso de perto pela Cine Ninja, continua sendo uma experiência muito potente.

Foto: Oliver Kornblihtt/Cine Ninja
Foto: Oliver Kornblihtt/Cine Ninja
Foto: Oliver Kornblihtt/Cine Ninja
Foto: Oliver Kornblihtt/Cine Ninja
Foto: Oliver Kornblihtt/Cine Ninja
Foto: Oliver Kornblihtt/Cine Ninja