Dois dias após as eleições municipais em São Paulo, uma triste efeméride bate à porta: um ano da morte dos nove jovens negros e periféricos assassinados por policiais militares no Baile da DZ7, em Paraisópolis. Familiares das vítimas, advogados e ativistas do movimento funk e de direitos humanos ainda lutam por respostas do Governo do Estado de São Paulo.

Foto: Daniel Arroyo

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

III –  ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante;
IX –  é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;

Esse é um trecho da nossa Constituição, documento finalizado em 1988 e que vigora hoje, capengando, em todo o território nacional. Pra quem vem de onde eu vim, é fácil ver na vida cotidiana as entrelinhas do texto: alguns são mais iguais que outros. Alguns são mais submetidos à tortura que outros. E a expressão artística e cultural de alguns também vale mais do que a de outros. Na cidade de São Paulo, o outro matável, o não-igual, está nas bordas. Como estavam os nove jovens brutalmente assassinados no fluxo da DZ7, na Favela de Paraisópolis, há exatamente um silencioso ano.

A versão da Polícia Militar daquele 1º de dezembro de 2019 é de que dois homens teriam atirado contra agentes da Rocam (Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas) e fugido em uma moto em direção ao baile. Vários protestos foram organizados, centenas de reportagens na TV e nos jornais, mas as famílias seguem sem repostas, sem atendimento psicológico; sem indenização por parte do Estado.

Durante todo o processo eleitoral que culminou na reeleição do prefeito Bruno Covas (PSDB), o funk surgiu como um tema-problema em várias sabatinas e entrevistas. “O que fazer com os fluxos?” foi pergunta frequente pros candidatos. Só um deles, Guilherme Boulos, tinha uma resposta que tratava a cultura periférica como cultura. Mas ele perdeu neste domingo (29) e, pelos próximos quatro anos, só podemos imaginar o que seria uma prefeitura que, pelo menos em teoria, olhasse pro nosso movimento funk por uma lente mais generosa, menos racista, menos classista.

O projeto vencedor é de um partido que, há décadas, usa a estigmatização da quebrada como suporte para um discurso falido de segurança pública que, por sua vez, sustenta um apartheid imprescindível para sua concepção de cidade-negócio. Transformar a cidade numa colônia de exploração do grande capital depende da criminalização desses jovens, dos seus territórios e, claro, da sua arte. Não da arte como negócio – essa vai de vento em popa, quando o “pancadão” acontece nas boates da Vila Olímpia. O que se criminaliza é o movimento que a gera.

Família, a gente não pode se iludir: isso vai continuar. Os fluxos vão continuar sendo caso de polícia, enquanto a playboyzada bate com a bunda no chão de mármore. Claro que tem terno e gravata debatendo nosso sangramento. Genocídio dá má publicidade, inclusive lá fora. O problema é que nós não estamos na mesa para negociar e exigir o que queremos para nós, pras nossas manifestações culturais e principalmente, pras nossas quebradas.

União, consciência e ação

Só na cidade de São Paulo ainda existem cerca de 300 fluxos. Todos eles causam problemas e trazem soluções para a favela. Tudo ao mesmo tempo: barulho e renda; sujeira na porta e diversão pra molecada; empoderamento feminino e letras controversas. A questão é: como lidar com essas contradições? É urgente a necessidade de diálogo e planejamento.

Para que isso aconteça são muitos os espaços que precisam se comprometer. As produtoras, as e os MCs, toda a cadeia produtiva do gênero, precisa estar envolvida. Onde sua música toca? Que riscos o seu fã corre pra curtir o som que você produz? Que música tava rolando quando a molecada morreu sufocada pela mão dos PMs? Entende como a responsabilidade é de todos nós? O que você tem a ver com isso e o que você tem feito pra mudar essa realidade que atinge seus camaradas de infância, sua família que até ontem tava na favela?

Pra gente poder se autodeclarar movimento, a gente tem que fazer mais do que ganhar dinheiro, views, seguidores, ditar tendência estética e levantar temporariamente um ou outro mano da pobreza. A gente precisa garantir a vida dos nossos 20 milhões de funkeiras e funkeiros e, por extensão, das nossas comunidades. Se formos conscientes e inteligentes o suficiente, se tivermos amor suficiente pela nossa arte, garantiremos também o sustento da maioria deles e delas também.

Políticas públicas contra o extermínio

Esse poder público que está aí não gosta da gente, fato. Mas se a gente quiser que o funk não seja tratado apenas pela pasta de segurança pública, o diálogo vai ter que acontecer. A gente quer que o gênero seja tratado como cultura, com incentivo e condições de desenvolvimento. Do contrário, vamos seguir sendo estigmatizados, tanto o movimento, quanto o público e os artistas. Afinal, persiste a ideia de que todo bandido é funkeiro e todo funkeiro é bandido. O resultado disso? Criminalização e extermínio, como no caso de Paraisópolis.

Se teve uma coisa boa nessa eleição foi que recuou a direita maluca, de arminha na mão e paranoia na cabeça. Até Bruno Covas, que herdou a prefeitura de um então aliado do bolsonarismo e fez uma gestão de costas pros pobres, prometeu criar políticas antirracistas. Se foi emoção eleitoreira ou não tanto faz. Nossa cara é cobrar – e o antirracismo passa por acabar com a estimatização do funk e da juventude periférica. O movimento cultural precisa dialogar com várias pastas tanto do governo quanto da prefeitura.

As secretarias de Cultura, de Planejamento urbano, de Finanças e Desenvolvimento, as pastas da Mulher e da Saúde, só pra citar algumas, precisam estar envolvidas. Todos esses braços do Estado devem conversar com o movimento funk e as comunidades para chegar a um acordo que salve vidas e ao mesmo tempo garanta o sono e o sossego dos moradores. A cultura não vai embora. Tentar contê-la é como tentar segurar o vento com as mãos. Então, é preciso organizá-la, de forma democrática e participativa. Com a juventude não adianta criar nada de cima pra baixo.

Ainda que o projeto popular não tenha ganhado as eleições, 40% dos eleitores de São Paulo mostraram que têm outra concepção de cidade. E isso é um trunfo pro movimento cultural, que a gente tem que saber aproveitar. Se essa mudança de perspectiva, que boa parte do povo mostrou desejar, não for compreendida e implementada, mais e mais de nossos jovens terão seu futuro interrompido pela política de morte. Antes de morrer pela bala, a gente morre pela invisibilidade política. Temos que exigir que nossas vozes sejam ouvidas, em nome de nossa sobrevivência – como movimento, como cultura, como seres humanos. Ou seja, a favela só vai vencer quando o sangue dos nossos parar de escorrer pelas mãos do Estado.

Para não esquecer, seguem os nomes das vítimas do Massacre do dia 1º de dezembro:

Gustavo Cruz Xavier – 14 anos
Denis Guilherme dos Santos Franco – 16 anos
Marcos Paulo Oliveira dos Santos – 16 anos
Denys Henrique Quirino da Silva – 16 anos
Luara Vitória Oliveira – 18 anos
Gabriel Rogério de Moraes – 20 anos
Eduardo da Silva – 21 anos
Bruno Gabriel doa Santos – 22 anos
Matheus dos Santos Costa – 23 anos

Nossa solidariedade às famílias, amigas e amigos das vítimas.

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

William Filho

Maconha no Brasil: o que esperar de 2021?

Djeff Amadeus

Cabe desobediência civil para impedir o Enem no Domingo

Camarada Gringo

Com a invasão do Capitólio, o imperialismo chega em casa

Gabriel RG

Assange está mais longe da extradição, mas o jornalismo segue perto do fim

Dríade Aguiar

Feliz ano novo com velhos problemas (para as mulheres)

Tatiana Barros

Artista faz streaming na Twitch TV para ensinar tudo que aprendeu gratuitamente usando várias tecnologias, principalmente a impressora 3D

Márcio Santilli

A ciência e o capital contra a pandemia

Dríade Aguiar

Uma sentença, uma celebração e uma promessa

Márcio Santilli

A resistência dura e vitoriosa dos Ashaninka do Rio Amônia

Márcio Santilli

O resgate da esperança

Cleidiana Ramos

Precisamos desarmar nossas bombas de ódio

Bernardo Gonzales

Fotos 3x4, transexualidade e as violências cisheteronormativas

Jorgetânia Ferreira

Manifesto das mães contra a volta às aulas presenciais em Uberlândia

Bancada Feminista do PSOL

Por que o MBL tem medo dos mandatos coletivos?