Bárbara Banida: ‘madonna’ da desobediência artística
A produção e trajetória desobediente de Bárbara Banida nas suas linguagens
Por Isaac Urano
A arte cearense tem sido a chama do farol das produções contemporâneas, a chama que vem da libido de criação de todo artista, na porção “esquizoanalítica” da coisa: o artista cria porque, acima de tudo, deseja. A força vital da criação, do nascimento da originalidade, talvez venha desse aspecto de nós, máquinas desejantes. Como poderia estar errado, se é dentro de uma exposição chamada Bloco do Prazer que a arte de Bárbara Banida está presente, discutindo o corpo a partir da cerâmica, com a série das Madonnas? A arte cearense tem a transgressividade no tesão para criar.
Bárbara é artista, curadora, pesquisadora e gestora cultural. Ela entra nas relações de criação da arte contemporânea pela transgressão de gênero, pela performance, pela pintura, pela cerâmica, cheia dos melhores entrelaços de linguagens. Além disso, ela tem a ‘Banida Plataforma’, que tem a missão de possibilitar o acesso de artistas cearenses a recursos públicos por meio de editais. Bárbara também chegou a ser indicada ao Prêmio PIPA, o ‘gag’ da arte contemporânea no Brasil, com o trabalho Investigação Erotar.

U: Quem é Bárbara Banida? Como você se apresentaria para alguém que nunca ouviu o seu nome?
B: Eu digo que Bárbara Banida é multiplicidade. Eu já fui muitas, eu sou várias e eu serei tantas outras. Acho que me apresentar também é dizer que minha fruição pela vida está na impermanência. Mas, se eu dissesse hoje quem eu sou no mundo, diria que estou, há um tempo considerável, artista, criadora, apaixonada pela investigação poética e linguística, ambientalista, pesquisadora das ecologias da terra e de territórios especulativos, de mundos alienígenas, de territórios do onírico e do misterioso. Sou amante das águas do mangue e das fendas profundas. Me agrada fazer amizade enquanto faço arte. Sou uma travesti artista fortalezense que tem pensado muito em como o barro, a cerâmica esmaltada, os mistérios que carregamos, as linguagens, os pigmentos, nossas verdades, dúvidas e a maneira como criamos nossas estéticas no mundo importam e são relevantes.
U: Você teve um momento na arte-educação, passou pela performance, pela pintura, pela gravura e chegou à cerâmica. Como foi esse percurso, e o que cada linguagem foi abrindo em você ao longo do caminho?
B: Eu acho que a minha trajetória de investigação interlinguística, por entre várias linguagens e territórios da arte, vem como o mato cresce pela extensão dos campos e pelas brechas do asfalto: de maneira indomável e inevitável. Uma coisa vai me levando a outra porque sou muito apaixonada por futucar arte. Estou investigando pintura, desenho e, em determinado momento, aquela tela já não me basta. Preciso da tridimensionalidade e encontro a cerâmica. E aí, com a cerâmica, já quero investigar esculturas em bronze, em ferro, em outras materialidades, mas também quero voltar para a pintura de outra forma. Hoje mesmo, de manhã, eu estava esculpindo, depois fazendo instigações curatoriais e, mais tarde, estava em uma escola, em um espaço educacional periférico, sendo arte-educadora. Em alguns momentos da minha vida isso veio de uma sobrecarga de tentar me manter financeiramente, mas hoje sinto que não. Hoje faço porque realmente me identifico com isso. Me identifico com a multiplicidade. Não sou uma planta que nasce sozinha em um vaso. Sou esse mato que brota com diversas espécies, de maneira desobediente, entre a cidade e o campo, entre o real e a ficção.


U: Sua prática investiga essas ficções especulativas, muito transgressoras, e a criação de mundos no gesto artístico. Como surge um trabalho seu? Qual é o processo de criar esses mundos?
B: A ficção especulativa, para mim, dialoga muito com a noção de ficção visionária que Walidah Imarisha traz, mas também com as criações do imaginário e do onírico que vários artistas, curadores e críticos vêm levantando nos últimos anos, como Lucas Dilacerda e Wes Viana. Para mim, o meu trabalho surge do contato com a matéria — seja essa matéria o barro, o pigmento, a tinta, o onírico, a palavra, o palco, o ateliê ou a cidade —, atualmente muito focada nesse contato com a cerâmica. O barro é uma matéria muito generosa. O processo de criar esses mundos atravessa algo que escrevi na minha dissertação, que é a noção de teia e emaranhado. Esses mundos vão se entramando dentro da poética. Então eu não crio um mundo apenas com uma obra. É esse conjunto de tantas obras, tanta dedicação e tanta imersão no processo criativo que vai dando densidade e profundidade a esses mundos. Não são mundos rasos, nem mundos que você consegue perceber sem ter coragem de adentrá-los com profundidade, mantendo, no subterrâneo do imaginário, nossa sensibilidade e sutileza.
U: Você está presente na exposição Bloco do Prazer, que eu amei muito, com trabalhos que colocam, em algum nível, uma discussão sobre gênero no centro do debate. Mas o que são exatamente as Madonnas, pelas quais fiquei tão encantado? O que essa série diz e por que ela precisa existir agora?
B: Uma das séries que está no Bloco do Prazer são as Madonnas. Elas são guardiãs. Criei/gestei, nos últimos anos, um universo chamado Erotar. Esse universo nasce do meu percurso com os estudos em ecologia, iniciados na educação ambiental em 2014. Na última década, comecei a pesquisar sobre o fim do mundo e, em determinado momento, percebi que estava desmobilizada. Não queria mais pensar no fim, e sim na regeneração, nos recomeços. Precisava criar um mundo que me remobilizasse, e então criei Erotar. As Madonnas são seres de proteção. Erotar também é um lugar espiritual, um lugar de esperança e fé, e as Madonnas protegem essa fé, protegem esse mundo. Elas protegem nosso ecossistema imaginativo, nossa criatividade, nosso encanto em ser artistas, nossos mistérios, nossa ousadia. Elas nos dão força de continuidade. As Madonnas são esses seres maternos que nos gestam enquanto nós gestamos arte.
U: Tu tens uma performance chamada “A Cisgeneridade é uma Ruína” e ela reforça um caráter político. Ser uma artista trans no Ceará, fazendo uma arte que rompe algumas normas, é para ti um ato de resistência, de afirmação ou das duas coisas ao mesmo tempo?


B: Essa performance, A Cisgeneridade é uma Ruína, tem algo muito importante na maneira como é apresentada, e não apenas na frase. Porque ela é um bloco de carnaval no qual convidamos a cidade a participar. Fazemos ela eu e outro artista, Arrudas Maria, meu grande companheiro de vida e de arte. Carregamos estandartes enquanto estamos fantasiadas, carnavalescas, colocando músicas de carnaval pela cidade. Então ela é uma celebração, esse grande festival, esse grande carnaval. Para mim, ser uma artista trans no Ceará, ou uma artista desobediente, contranormativa, dissidente — seja na identidade ou na forma de fazer arte — é celebrar a potência que a contranorma tem no mundo. É uma celebração da desobediência. Hoje penso que ser uma artista trans, ser uma artista desobediente, é celebrar nossa potência coletiva, não apenas a minha, mas dessas tantas que vêm comigo, que estão comigo há tanto tempo e com quem quero permanecer. Atualmente estou no doutorado em Artes na Universidade Federal do Ceará e tenho escrito uma tese sobre isso, sobre essas ações de potência coletiva. O nome dela é: Tudo que precisaremos inventar para permanecer juntas.
U: Você já foi indicada ao Prêmio PIPA, tem aí um bocado de exposições vindo, tenho certeza, mas o que você espera do seu próprio futuro, como artista, como pessoa? E o que você espera do mundo, do circuito?
B: Fiquei muito feliz com minha indicação ao Prêmio PIPA. Também fui indicada ao Selo Mandacaru e ganhei o prêmio Lab Verde na ArtRio. Mas acho que a coisa que mais espero — e espero no sentido da esperança e do fazer — como artista e pessoa é uma vida com ética e uma ética do cuidado. Sou uma artista que trabalha em conjunto. Acredito no coletivo, nas plataformas, em fazer arte enquanto fazemos amizade. É assim que imagino o mundo e o circuito: mais fecundo, com mais dignidade para trabalhadores da cultura e da arte, com mais união, para que consigamos estar juntos cada vez mais, nos respeitando, nos potencializando, inventando nossas potências e nossas estéticas de existência no mundo. Não é apenas o que espero do mundo e do circuito, mas também o que agencio e opero como artista, gestora cultural, curadora, amiga e amante. Acredito na força das conexões, dos afetos e nesse ecossistema benéfico para todos.
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Vi as Madonnas pessoalmente quando visitei o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura e, apesar de acompanhar o trabalho de Bárbara há muito tempo, foi a primeira vez que tive a honra de ver uma de suas criações de perto — momentos em que a arte se torna tão legal. Jamais esperava que teria a oportunidade de ler suas fabulações, e tive a sorte de ter um tempo para pensar o que sentia sobre suas obras antes de encontrar a própria artista na abertura do Salão de Abril deste ano.
A Madonna é uma figura recorrente na história ocidental: “ma donna”, entendendo sua face teológica, a mãe — e a mãe mais importante do Ocidente, a mãe de Cristo. Porém, no laço afetivo que se criou culturalmente ao seu redor, a Madonna é uma condensação de sua época. Mesmo tendo deixado seu posto celestial apenas com Leonardo da Vinci, agora ela também faz parte da nossa natureza. Mas Madonna é também um aspecto mutante; ela nunca significa exatamente a mesma coisa. Georges Didi-Huberman já falava da desestabilização das figuras religiosas por meio da reinterpretação, do nachleben: a imagem nunca morre completamente, mas, assim como a representação mais simples de seu filho, talvez morra — e renasça.
Enquanto via as obras de Bárbara, fazia a leitura daquele momento de Diante da Imagem, a crítica da tradicionalidade dos ícones, e meu sentimento era: basta da estabilidade. Se a imagem religiosa é sintomática, que tenhamos exemplos que a libertem. A rendição dessas esculturas, feitas na transgressividade, na dissidência, encontra-se nesse campo libidinal das criações feitas na sereia do Nordeste: o Ceará. Não pretendo aqui me debruçar sobre possíveis anacronismos; fujo para as diversas retomadas e revisitações e permito o coração nesse espaço. Afinal, as Madonnas estão ali para a fé, voltadas completamente para a esperança e para a força de continuidade de Erotar. Bárbara segue produzindo essas ficções desobedientes, reais, cheias de prazer criativo, mas esse “C” é de cearense: a arte segue animada pelas criações transgressoras de Bárbara Banida.



