Foi na mesma semana. Na terça de madrugada, dois disparos foram ouvidos por vizinhos, quando um carro estacionava, no mesmo horário, em frente à casa da covereadora da Bancada Feminista, Carolina Iara, pelas imagens das câmeras da rua.

Na quarta-feira, um homem invade o gabinete da vereadora, Érika Hilton, dizendo que estava procurando-a; semanas antes, já tinha ameaçado arrancar a cabeça de um de seus assessores.

Dois dias depois, uma moto dá tiros para o alto em frente à casa da covereadora do Quilombo Periférico, Samara Sosthenes, com testemunhas relatando o episódio. Tudo isso na semana do dia 29 de janeiro, dia de luta pela visibilidade trans.

Já antes disso, ainda em dezembro – e prestes a serem eleitas ou já confirmadas como fenômenos de recordes históricos de votos -, foram ameaçadas de morte, por diversos meios, Benny Briolli eleita em Niterói, Duda Salabert eleita em Belo Horizonte e Linda Brasil, eleita em Aracaju. Todas mulheres trans.

O Brasil segue, ano após ano, sendo o lugar onde mais pessoas LGBTQI são assassinadas no mundo. Não pensem que são mortes rápidas, “eficazes”. São normalmente homicídios qualificados com muito ódio e sadismo. Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil – Antra, 80% dos crimes contra pessoas trans são executados com extrema crueldade. Como explicar, por exemplo, que tantos homens arranquem o coração de travestis ao assassiná-las?

Esta violência brutal não permite que as pessoas trans possam estudar ou trabalhar, ou, ainda, acessar condições elementares, como dormir sob um teto, obter documentos de identidade ou viver mais do que a expectativa assombrosa de até 35 anos de vida, como informa o IBGE.

A transfobia é constitutiva da formação histórica de poder político e econômico no Brasil. Por isso, quando três mulheres trans negras são eleitas com milhares e milhares de votos, há um subterrâneo do ódio que é produto de uma história fundada no poder de homens brancos, sejam eles grandes proprietários, sejam eles o braço armado do Estado e suas conexões semi clandestinas.

A eleição de Jair Bolsonaro, não por qualquer acaso, ocorreu no mesmo ano em que sofremos o luto de Marielle, quando ecoamos, sem nunca mais retornar, aos quatro cantos do mundo, nas ruas do Brasil por muitos dias, que lutaríamos até o fim pela sua memória e por justiça. Neste 14 de março de 2021, são três anos completos sem a presença física da nossa companheira. Não admitimos mais sermos interrompidas.

A luta pela visibilidade trans cresceu e, sem dúvida, fomos as grandes representantes das eleições municipais em várias capitais que assumiram a dianteira da luta contra o projeto de ódio, de fome e de morte do governo de Bolsonaro e de Damares Alves.

Foi pensando na necessidade urgente de criar mecanismos de proteção às vidas ameaçadas de Carolina Iara, Erika HIlton e Samara Sosthenes, que as Bancadas do PSOL e do PT apresentaram um pedido à presidência da Câmara Municipal de São Paulo para viabilizar reforços de segurança para exercerem sua função parlamentar.

Carolina Iara e Samara Sosthenes, por serem covereadoras em mandatos coletivos, tiveram seus pedidos de segurança negados pela Câmara e seu presidente, Milton Leite. A desculpa formal de que os mandatos coletivos não têm situação jurídica regulamentada e que as covereadoras são oficialmente contratadas como assessoras da Câmara não pode apagar os dezenas de milhares de votos que Carol Iara e Samara tiveram como autênticas representantes dos movimentos sociais e da população que as apoiaram democraticamente.

Nenhum regimento pode estar acima da proteção das pessoas que doam seus corpos e suas vidas para a luta. É notório que os ataques têm a ver com o fato de que Carol e Samara serem lutadoras sociais e parlamentares reconhecidas popularmente. Além disso, elas seguem sendo oficialmente funcionárias da Câmara, ameaçadas por sua função pública.

Seguiremos lutando pelo reconhecimento do Estado sobre a necessidade de proteção às nossas vidas. O projeto de ódio transfóbico conspira contra nós, mas nossa luta cresce, ganha espaço. Gritos nas ruas de que as vidas trans e negras importam ganham volume. Não retornaremos. Por Marielle e por todas nós, exigimos a proteção devida pelo Estado às nossas vidas. Parlamentar travesti não é bagunça!

 

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