Diretor, ator, filósofo, ativista, escritor, provocador: Rodrigo França é, de fato, uma grande referência com apenas 45 anos. Dentre os seus trabalhos mais marcantes, está o best-seller “O Pequeno Príncipe Preto”. Na coluna de hoje, ele joga luz sobre um tema extremamente importante: o preconceito contra as religiões de matrizes africanas. Para se aprofundar ainda mais no tema, o multiartista está com um novo monólogo, Capiroto, em cartaz na cidade de São Paulo até o dia 8 de novembro no Teatro Sérgio Cardoso, com sessões terças e quartas, sempre às 19h. Escrito e dirigido por Rodrigo França, o trabalho busca “desdemonizar”, de maneira bem-humorada, várias entidades não cristãs. O espetáculo é estrelado por Leandro Melo.

Além disso, na entrevista de hoje, França ainda esmiúça o ocidente patriarcal e como esse problema estrutural impacta até mesmo a história do continente africano. E não para por aí: ele também fala sobre a sua relação com a pauta racial e como as novas gerações podem se engajar sem se ludibriar com suas vivências pessoais, esquecendo da luta coletiva, que deve ser a força motriz para a emancipação do povo preto.

Leiam com muita atenção. Rodrigo França está sem papas na língua:

André Menezes – Querido, para darmos início ao nosso papo, queria começar falando da sua peça que está em cartaz aqui em São Paulo, ‘Capiroto’. Como foi o processo de escrita deste texto e por que falar deste assunto é tão importante?

Rodrigo França – Olha, primeiro, eu sou um artista muito inquieto, acredito que por ser da Filosofia isso também abre o espaço. Sempre me inquietou essa história de demonizar divindades que não fazem parte do cristianismo. Eu basicamente escrevi esse espetáculo para falar que o diabo não é Exu e Exu não é o diabo. Quando fui mergulhar fundo nessa história – eu precisava de elementos para comprovar isso –, eu comecei a estudar sobre a história do ocidente em relação à ocupação de terras, de como eles oprimiam e demonizavam essas divindades. Dessa forma, isso gera poder político, poder econômico, e com a chancela da igreja para conseguir adeptos. Quando você consegue adeptos, você consegue dízimos.

O espetáculo vem para estudar o ocidente a partir da fala do diabo. Se fala tanto a palavra “patriarcado”, mas pouco se sabe o que é o patriarcado, principalmente dentro dos movimentos sociais que colocam como patriarcado todo tipo de homem responsável por algo que aconteceu de uma maneira errônea, porém não se sabe de onde vem, que cultura é essa, quem se beneficia, e isso está muito interligado. Até mesmo como algumas culturas enxergam Deus, tem muito do patriarcado. Quem é esse pai que penaliza, que pune? Eu friso que essa cultura não é indígena, ela não é africana, pré-colonizada, porque ainda hoje muitos dos comportamentos dentro do continente africano, quando pesquisamos sobre o assunto, tem uma interferência muito grande do ocidente. A relação da própria África sempre foi muito patriarcal. Até mesmo a mutilação de clitóris, isso é um olhar do ocidente em relação ao corpo da mulher, à castração do prazer. Esse gozo que traz liberdade, e que, de uma certa forma, essa liberdade prejudica quem está no poder, quem está na ponta da pirâmide.

Então, é um espetáculo delicioso que eu, como intelectual negro, gostaria de falar para todo mundo, mas preferi deixar na boca do diabo. O diabo, que é branco. Ele não é negro, ele não é indígena, ele não é oriental. O diabo é branco e precisamos falar sobre isso, de uma maneira concreta e muito simbólica: o diabo é branco.

André Menezes – Como surgiu a ideia de escrever o especial de comédia ‘Humor Negro’ e por que você acha que ele virou um sucesso tão rápido?

Rodrigo França – Veio da jornalista Val Benvindo, uma jornalista de Salvador. Ela criou um festival de teatro onde comediantes negros iam se apresentar. O primeiro passo foi ressignificar o termo racista “humor negro”. Mas é bom frisar que nem tudo dá para ressignificar, nem tudo dá para justificar de uma maneira romântica em relação aos fatos históricos. Alguns termos a gente consegue, outros são perversos e ainda trazem muita dor. Então veio dela, e aí ela buscou adaptar essa história do teatro para o audiovisual. O sucesso vem primeiro porque existe uma parte do público muito cansado com o humor velho, do humor usado como instrumento de opressão.

Eu fui um menino dos anos 1990, um jovem dos anos 2000, em que tudo que a gente via de humor na televisão para pessoas negras era muito racista e a gente sofria muito na escola. E aí a gente vem com uma nova forma de humor. Eu costumo dizer que, em muitas casas pretas, quando alguém cai, a gente levanta essa pessoa e vai rir junto. A gente não deixa essa pessoa no chão e fica rindo dela. É essa a diferença.

A gente pode falar sobre tudo, a questão é como. E quem é o alvo do riso? Não me interessa rir de quem já é violentado socioeconomicamente. Isso não me interessa, porque estariam falando dos meus. Me interessa falar do algoz, ridicularizar o algoz. Me interessa encontrar mecanismos e, principalmente, repertório a partir do humor para fortalecer os meus. Acho que o sucesso vem dessa diferença: do que sempre foi apresentado de uma maneira colonial, e a gente está apresentando de uma maneira subversiva.

André Menezes – Você acha que a pauta racial avançou no Brasil?

Rodrigo França – Negar o avanço seria negar uma luta histórica. A gente saiu do lugar, mas eu não gosto da falsa simetria, de acreditar sobre “pretos no topo”, sobre a “favela venceu”. Imagina, nós somos 56% da população brasileira, e a maioria continua numa miséria. A maioria não tem acesso ao básico. A gente caminhou, temos a lei das cotas, cerca de 51% dos empreendedores sendo negros e negras – mesmo ainda sendo difícil empreender. Dessa forma, não dá para falar: “olha, está tudo muito bem, obrigado”. E quando penso no hoje, tenho muita cautela de não julgar gerações. Sou contemporâneo, mas tenho um olhar também muito forte do passado, dos mais velhos por acompanhar alguns, como Abdias do Nascimento, dona Ruth de Souza, Léa Garcia.

Eu conheci muita gente quando penso em arte, muita gente que são referências, mas a única coisa que eu posso sinalizar é: é impossível caminhar para frente sem olhar para trás. Eu deixo esse alerta, esse sinal amarelo para essa nova geração em relação a isso. A gente não inventou a roda. Não adianta ter qualquer discurso sobre letramento racial, sobre politização, porque são coisas diferentes, sem buscar o conhecimento.

André Menezes – Você acredita que as gerações que nasceram ali a partir dos anos 2000/2010 virão com uma conscientização racial maior?

Rodrigo França – Acredito que não. Letramento racial e politização você não adquire por osmose. Eu sei que a vivência é importante, mas muitas pessoas acabam vivendo isso a partir de uma leitura de mundo errada. Vicência é importante, volto a pontuar, mas quando falamos em comunidade não é suficiente apenas a sua experiência. É importante a experiência coletiva. A minha vivência não resume o coletivo.

André Menezes – Quais projetos você tem mais orgulho de ter feito?

Rodrigo França – Caramba! Eu vou falar de cada gênero que eu bebo, tá bom?!

André Menezes – Claro!

Rodrigo França – Cinema: “Barba, Cabelo e Bigode”, por ser o meu primeiro longa. Eu sou o primeiro diretor negro de streaming no Brasil com conteúdo original. Festejo isso, mas, ao mesmo tempo, isso me entristece, até porque outras e outros cineastas negros chegaram antes de mim. Livro: “O Pequeno Príncipe Preto”, que é um best-seller. Teatro: “Contos Negreiros do Brasil”, que foi uma virada de chave.

André Menezes – Qual legado você quer deixar?

Rodrigo França – Que a gente entenda que, na arte, não é suficiente ter artistas negros somente nas frentes das câmeras ou no palco, é preciso que tenhamos uma ficha técnica completa, que os artistas que podem contratar seus profissionais tenham o entendimento que a cadeia produtiva de criação seja negra, porque narrativa não é só quem narra, é quem escreve, é quem dirige, é quem ilumina, é quem veste. É isso. É isso.

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