Zema está preocupado com o consumo abusivo de álcool mas deveria combater a exclusão, a violência é a miséria que leva muitas vezes as pessoas a abusarem de substâncias.

Com mais de 233 mil famílias mineiras passando fome, a principal preocupação do governador é com momento de lazer da população.

Na última terça-feira, o governador de Minas Gerais Romeu Zema proferiu uma fala, no mínimo, infeliz, para não dizer outras palavras. Quando foi tratar do Auxílio Emergencial do Estado, que será pago em parcela única no valor de R$600,  Zema afirmou que o recebimento deveria ser parcelado, garantindo que as pessoas façam o uso adequado do dinheiro. Segundo ele, quem receber irá para o bar ou boteco e ali mesmo deixar boa parte ou até a totalidade do valor.

Esta fala só mostra todo preconceito social de Zema. Mais que isso, revela que ele não conhece o Estado na qual governa. Dados do Instituto Data Favela, Locomotiva Instituto de Pesquisa e a Central Única das Favelas (CUFA), 68% de todos os moradores de ocupações, vilas e favelas de todo país não tiveram dinheiro para comprar comida por, pelo menos, um dia na semana. O país voltou para o mapa da fome da Organização das Nações Unidas e a insegurança alimentar quase dobrou com a pandemia e Zema ainda tem coragem de dizer absurdos como esse?

Para ele, gente pobre não tem direito de se divertir, de ir a um bar, encontrar com amigos para ter um momento de diversão e descontração. Sem contar, que uma ida ao boteco causa outro movimento que incomoda os grandes empresários: a movimentação econômica local das periferias.

Quando uma pessoa vai ao boteco, pequenos empresários são beneficiados, gerando renda para sua família. Estes negócios são fundamentais para a sociabilidade das comunidades.

Se o Zema realmente estivesse preocupado com o consumo excessivo de álcool da população, ele investiria no combate à miséria, exclusão e violência, grandes causadores do consumo em excesso de substâncias de grande parte delas.

A desigualdade social e situação de pobreza são grandes responsáveis pelo aparecimento de doenças mentais, especialmente durante a pandemia. Como é possível que um pai de família, desempregado, com contas atrasadas esteja nas suas melhores condições psicológicas?

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a depressão como “o mal do século XXI”. Essa doença não escolhe cor, raça, classe, sabemos disso, no entanto a população mais vulnerável está exposta a diversas questões sociais que favorecem o adoecimento.

Principalmente as mulheres pretas, mães solo, líderes de famílias. Mas claro que a saúde dessas mulheres não é prioridade, o Estado não é capaz de garantir atendimento básico. Falta médicos e outros profissionais de saúde, mas nossas vidas não valem nada.

É obrigação do governador combater a miséria, a exclusão e outros fatores sociais que provocam aborrecimento e até mesmo doenças mentais, fazendo com que os mais sensíveis vão em busca de substâncias e não destilar preconceitos contra a população pobre. Mas nem isso ele faz, já que não está preocupado nem mesmo em matar a fome da população, pois, nem R$600 queria liberar, afinal, este valor foi definido pela Assembleia Legislativa.

Como deputada estadual, presidenta da Comissão de Direitos Humanos e principalmente, como moradora de uma comunidade carente, vejo todos os dias o quanto a fome é devastadora e triste. Romeu Zema nunca soube o que é isso, pior, não tem a menor empatia pelo povo do estado na qual ele diz governar.

Não aceito ouvir absurdos como este dito pelo governador. Uso meu mandato para cobrar do governo do Estado melhorias para a população. É de responsabilidade do governo do Estado garantir alimentação para todos e não questionar o valor destinado para matar a fome de quem tanto precisa.

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