André Hayato Saito fala sobre ‘Amarela’, curta pré-indicado ao Oscar 2026
Obra aborda identidade, afeto e exclusão no Brasil da Copa do Mundo de 1998
Por Lohuama Alves
Pré-indicado ao Oscar, o diretor do curta-metragem “Amarela”, André Hayato Saito, revisita um dos momentos mais simbólicos da memória coletiva brasileira, a final da Copa do Mundo de 1998, para construir um retrato íntimo sobre identidade, pertencimento e violências silenciosas. A obra acompanha Erika, uma adolescente nipo-brasileira atravessada por deslocamentos culturais em um dia em que o país inteiro parece viver um sentimento unificado de celebração.
Produzido por uma equipe majoritariamente brasileira com ascendência asiática, “Amarela” faz parte de uma trilogia do diretor e roteirista André Hayato Saito com a produtora MyMama Entertainment. Os outros filmes são “Kokoro to Kokoro – De Coração a Coração” (2022) e “Vento Dourado” (2023).
Ao Cine Ninja, o cineasta fala sobre a origem do filme, os atravessamentos autobiográficos, as escolhas estéticas e narrativas e o impacto simbólico de “Amarela” no Brasil contemporâneo.
Um filme nascido da experiência íntima
Sobre o surgimento da ideia, o diretor explica como iniciou. “O filme nasceu do desejo de olhar para um momento profundamente brasileiro, a final da Copa de 1998, a partir de uma experiência íntima, atravessada por silêncios, agressões e deslocamentos, e também da vontade de criar imagens em que pessoas de ascendência asiática possam existir com complexidade e afeto, longe de estereótipos. E senti que precisava virar filme como um gesto de expurgo, uma forma de dar corpo e voz a dores silenciadas por tanto tempo.”
Ao situar a narrativa no dia da final da Copa, o diretor destaca o diálogo entre o evento histórico e o conflito interno da protagonista. “A final da Copa de 1998 funciona como um espelho ampliado do que Erika vive internamente. É um dia de pertencimento coletivo intenso, em que o país inteiro parece pulsar em uníssono. Para ela, no entanto, esse desejo de celebração esbarra em muros invisíveis. Enquanto o Brasil, de certa forma, se reconhece como nação naquele momento simbólico, Erika tenta entender se há espaço para ela dentro dessa ideia de ‘nós’. A data pressiona, expõe e acelera esse conflito íntimo.”
A personagem antes do contexto histórico
Apesar da força simbólica da Copa, o ponto de partida do roteiro sempre foi a vivência da personagem. “Sempre foi a perspectiva da Erika. O contexto histórico entrou depois. Eu me interessava mais por como grandes narrativas nacionais atravessam corpos individuais, especialmente corpos que, muitas vezes, não se sentem reconhecidos. A Copa é o ruído externo; Erika é o silêncio que tenta se organizar por dentro.”
“O título ‘Amarela’ carrega algumas camadas de significado. No Brasil, pessoas de ascendência asiática são oficialmente classificadas como ‘amarelas’, uma denominação racial que carrega consigo uma história de enquadramentos, estigmas e projeções externas. Ao mesmo tempo, ‘Amarela’ dialoga com o imaginário coletivo do país, já que ‘Amarelinha’ é também o apelido da seleção brasileira de futebol. Portanto, ‘Amarela’ fala de identidade, pertencimento e das tensões entre orgulho e vergonha, entre o que nos é imposto de fora e o que tentamos reconstruir a partir de dentro. É nesse atrito que o nome do filme reside.”
“A personagem da Erika nasceu muito da minha própria experiência. Quando eu tinha 14 anos, usava inconscientemente o futebol, especialmente na Copa de 1994 e 1998, quase como uma forma de pertencer ao que se esperava da identidade brasileira. Erika foi construída a partir de pequenos gestos, silêncios e contradições. Ela é alguém que luta por pertencer, mas que ainda não sabe exatamente a quê ou de que forma. Busquei evidenciar essa zona de entrelugar: japonesa demais pra ser brasileira, brasileira demais pra ser japonesa”, destacou o cineasta.
Linguagem cinematográfica e experiência nipo-brasileira
“Esses temas me levaram a uma escolha de linguagem mais contida, atenta aos gestos e às relações não verbalizadas. A experiência nipo-brasileira, para mim, carrega uma história marcada pela contenção e expectativa de adaptação. Por isso, a câmera se mantém muito próxima da personagem, quase colada ao seu corpo, buscando captar os pequenos movimentos, as respirações, os olhares. Essa proximidade cria uma sensação de intimidade e permite que o espectador acesse o que está por trás do silêncio, aquilo que a personagem sente, mas não consegue nomear.”
Ainda na entrevista, o diretor explica como trabalhou a violência silenciosa que atravessa o filme. “A violência que atravessa ‘Amarela’ não se manifesta de forma espetacular, mas se infiltra no cotidiano, nos olhares, nas palavras aparentemente inofensivas. Trabalhei essa dimensão justamente evitando excessos, deixando que o desconforto emergisse nos intervalos, nos pequenos deslocamentos da personagem dentro dos espaços que ocupa. Como cineasta, isso representa um compromisso em não transformar a dor em espetáculo, mas em reconhecê-la como algo real, persistente e, muitas vezes, normalizado e banal. O filme tenta criar um campo de atenção para esse tipo de violência.”
“Existe um ponto de partida autobiográfico, sobretudo emocional, mas a Erika não é um retrato meu. Ela nasce do encontro entre memórias pessoais, relatos e experiências compartilhadas por muitas pessoas de ascendência asiática no Brasil. E, para além disso, há uma dimensão mais ampla, que atravessa diferentes histórias de deslocamento e atravessamentos culturais. No fundo, a trajetória da Erika dialoga não apenas com filhos de diásporas, mas com uma necessidade humana universal: a de pertencer, de ser visto e reconhecido no lugar que se habita”, comenta Hayato.
“Me interessava um cinema que observa sem invadir, que confia no tempo e na presença dos corpos. A paisagem cinza de São Paulo, esse tom suspenso entre o branco e o preto, foi um ponto de partida importante, pois traduz visualmente o estado de entrelugar vivido pela personagem. Há também uma forte influência da memória, da maneira como lembramos mais das sensações do que dos fatos em si, e isso orientou escolhas de ritmo, enquadramento e som. Nesse sentido, o cinema de Hirokazu Kore-eda foi uma referência importante.”
Sobre a composição da equipe, Hayato fala do impacto direto no processo criativo. “Impactou profundamente. Havia um entendimento quase imediato sobre nuances que normalmente precisariam ser explicadas. Isso criou um ambiente de confiança e escuta, onde muitas decisões surgiam de trocas informais, de memórias compartilhadas, de referências familiares. Além de uma escolha a favor da representatividade, foi uma escolha criativa: o filme ganhou camadas justamente porque foi construído por pessoas que reconheciam, em diferentes níveis, aquele território emocional. Essa é uma das diferenças de contar uma história de dentro pra fora. Estávamos construindo coletivamente um lugar vivido, e não um lugar imaginado.”
“A escolha da Melissa foi muito intuitiva. Desde os primeiros encontros, ela trouxe uma presença que combinava delicadeza, força e resistência, além de uma capacidade rara de sustentar silêncios e expressar múltiplas camadas emocionais de forma contida. Também foi uma escolha consciente no plano político e estético: colocar no centro um corpo que foge dos padrões hegemônicos de beleza é reconhecer camadas de opressão que atravessam essa experiência para além do racismo e da xenofobia.”
Desafios da realização
O cineasta destaca um dos principais desafios do curta. “Talvez o maior desafio tenha sido falar de uma experiência marcada por dor e exclusão sem torná-la didática ou formalista demais. O plano-sequência final, onde reservamos uma diária inteira para esta cena, também foi bem difícil, não só toda a coreografia de som, câmera e elenco, mas tentar retratar essa exclusão com delicadeza e profundidade. Eu tenho uma obsessão pelo ‘entre’, e conseguir transmitir sensorialmente essa atmosfera, abraçando e cometendo ‘erros’ de câmera cinematográficos, foi uma jornada e tanto.”
Recepção e impacto
Sobre o diálogo com o público, o diretor compartilha sua impressão após a pré-seleção do curta ao Oscar. “O que mais me marca é quando as pessoas dizem que o filme as fez lembrar de algo que nunca tinham conseguido nomear. Recebo relatos tanto de quem se reconhece diretamente na experiência da Erika quanto de quem nunca tinha parado para pensar sobre esse tipo de vivência. Esse deslocamento, esse convite à escuta e ao sentir, talvez seja o retorno mais precioso. O filme abre conversas que continuam depois da sessão, e isso é um sinal bonito de que ele segue vivo.”
O lugar de “Amarela” no Brasil de hoje
Ao refletir sobre o contexto atual, André afirma sua percepção sobre o lugar de “Amarela” no país atualmente. “Amarela se insere num Brasil que ainda luta para compreender a própria diversidade. O filme abre espaço para uma vivência que raramente chega ao centro da conversa: a de quem cresce entre mundos, lidando com o racismo cotidiano, a pressão para se adaptar e a sensação persistente de não-pertencimento. Ele evidencia que a experiência brasileira não é homogênea, e sim feita de múltiplas origens, dores, afetos e identidades.”
Um desejo para o futuro do filme
Por fim, o diretor compartilha suas expectativas futuras para o curta. “Desejo que Amarela continue encontrando pessoas dispostas a escutar e se vulnerabilizar em escolas, centros culturais, cinemas, festivais, espaços de debate. Que o filme possa servir como ponto de partida para conversas mais profundas sobre identidade e pertencimento, mas também sobre racismo, xenofobia e machismo, temas que atravessam silenciosamente a vida de tantas pessoas, especialmente na juventude. Se Amarela ajudar a abrir frestas para narrativas que historicamente ficaram à margem e ampliar o campo de reflexão sobre essas violências estruturais, ele já terá cumprido seu papel”, concluiu.
O curta-metragem brasileiro foi pré-indicado ao Oscar 2026 de Melhor Curta e já conquistou diversos prêmios nacionais e internacionais, além de indicações importantes. “Amarela” teve sua estreia na Competição Oficial do Festival de Cannes.










