“O que me é mais importante deve ser dito, verbalizado e compartilhado”
Audre Lorde, 1977

Analisando a minha trajetória e de amigas próximas enquanto sapatonas pretas, percebo a presença da tirania do silêncio em determinados momentos da vida. O medo que paralisa, o não conhecimento da opressão, a ausência de um termo específico para nomear aquela dor, a espera de alguém falar por nós, a repressão dentro de casa para silenciar nossa voz… São diversos os motivos para o silenciamento.

Lendo Audre Lorde, aprendi a importância de transformar o silêncio em linguagem e ação, quando derrubamos as barreiras impostas pelas opressões estruturais e ocupamos nosso lugares de fala para construir novas narrativas, saímos dessa inércia provocada pela opressão do silêncio.

No feminismo negro, encontrei o afeto e acolhimento para romper as tiranias do silêncio e entender que o meu medo sempre iria existir mas que poderia usá-lo de forma estratégica, para avançar não apenas individualmente mas coletivamente também.

Demorei um certo tempo para compreender o sentimento de raiva que carregava em mim junto com uma constante sensação de não pertencimento. Por não entender as estruturas que constantemente me oprimiam e não saber nomeá-las, fiquei refém da tirania do silêncio. Mas, mesmo calada com medo de falar, eu era tão ferida quanto aquelas que já estavam falando.

“Quais são as palavras que você ainda não tem? O que você precisa dizer? Quais são as tiranias que você engole dia após dia e tenta tomar para si, até adoecer e morrer por causa delas, ainda em silêncio?“ Audre Lorde

A sobrevivência das pessoas negras e LGBTQI’s no Brasil, por exemplo, não faz parte dos planos do Estado com sua formação baseada na escravidão da população negra e invasão de terra indígenas, hoje servindo de interesse de grupos dominantes herdeiros daqueles que começaram uma onda genocida lá em 1500 e que até hoje está em curso.

Mas por que estou falando isso? Porque quando perdemos o medo de falar e transformamos as tiranias do silêncio em linguagem e ação, nos movimentamos contra essas estruturas que são máquinas de matar corpos e suas subjetividades.

Junho é o mês do Orgulho LGBTQI e essa data é celebrada não apenas para comemorarmos a nossa existência mas também para lembrarmos que ela é símbolo da resistência de Stonewall, onde as pessoas LGBTQI romperam com as tiranias do silêncio e denunciaram, principalmente, a violência policial.

Romper com as barreiras do silêncio é o início de um caminho pela busca do reconhecimento da nossa existência e direitos, principalmente o direito à vida. Até a próxima.

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