Foto: Mídia NINJA

Por Ana Claudino

Bifobia nas relações entre mulheres lésbicas e bissexuais

Já escutei e presenciei alguns casos de bifobia dentro do meio sapatão. Na maioria das vezes, eram reproduções de falas machistas e bifobicas que boa parte das pessoas costumam falar por aí sem ser dar conta do quanto isso é problemático.

Do meu lugar de fala/escuta enquanto mulher lésbica negra, fico me questionando de onde surgem essas construções preconceituosas dentro da nossa mente e o que podemos fazer para acabar com elas e substituir por imagens não preconceituosas.

Afinal, pessoas bissexuais (cis ou trans) são LGBT’s assim como nós e apesar de cada letra da sigla ter suas diferenças, no final do dia ainda vamos lidar com a lgbtfobia da sociedade heteronormativa/patriarcal/cisgênera. Certo?

Então, por que algumas sapatonas mesmo assim acabam sendo bifóbicas?

Heterossexualidade como regime político

Todas nós temos um homem hétero cis branco europeu dentro de nós porque fomos criadas dentro do regime da heteronormatividade com construção de papéis de gênero bem definidos. E as outras existências que fogem disso, são vistas como erradas.

Mesmo quando nos descobrimos sapatão, essa criação ainda está dentro de nós e é preciso um exercício de desconstrução e reconstrução diária para não cairmos nas ciladas da heteronormatividade, a reprodução do machismo, a transfobia, o racismo e a bifobia. Fazer parte da identidade sapatão não te torna ativista só por ser sapatão.

Como as sapatão podem cuidar da bifobia

Escutar as vivências das companheiras bissexuais é uma forma de lidar com as bifobias que nós sapatão podemos cometer. Oprimir uma mulher por ela ser bissexual, não te valida como mais sapatão e sim como bifóbica. Agregar é melhor que segregar e no final do dia todas nós ainda vamos lidar com a LGBTFobia.

Um outro caminho para cuidarmos disso coletivamente, é organizarmos rodas de conversa entre mulheres bissexuais e lésbicas, assim podemos entender as diversas opressões que sofremos e também as que são iguais como o enfrentamento ao machismo e ao racismo (no caso das companheiras negras).

Já escutei algumas pessoas comentando que mulheres bi chegam nos lugares e querem falar das relações afetivas/sexuais delas com homens cisgêneros. Se formos parar pra pensar, todas nós temos relações com homens cisgêneros. Elas podem não ser da mesma forma que acontece com as mulheres bissexuais, mas as vezes escutar a vivência de outra mulher, pode ajudar na nossa de certa forma. Além disso, a relação das mulheres bissexuais com homens heterossexuais não é a mesma que acontece com as mulheres heterossexuais. Aceitar as mulheres bissexuais nos espaços é também aceitar as suas vivências por completo e não apenas as vivências dela com mulheres lésbicas.

Sair da caixinha da monossexualidade

Além da heteronormatividade, também vivemos numa lógica monossexual. Ou seja, gays, lésbicas e heterossexuais são identidade monossexuais. As pessoas bissexuais, quebram essa lógica e muitas das vezes precisam lidar com a invisibilidade.

Ser sapatão nos coloca num lugar de construção de novas narrativas sobre nós e consequentemente sobre o mundo. Mas isso não faz sentido se isso não incluir outras vivências diferentes da nossa e se construímos um ambiente opressor.

Como por exemplo dizer que mulheres bissexuais são vetores de doença porque transam com homens cisgêneros. Todos nós podemos pegar e transmitir infecções sexualmente transmissíveis se não nos cuidarmos na hora do sexo.

Ou dizer que mulheres bissexuais irão trocar a sapatão por homem. Esse medo vem da monogamia tóxica que trata as relações afetivas de uma forma capitalista, como se fossemos produtos em uma loja que podem ser trocados. Não existe esse lance de “ser trocada”, o que acontece são que as relações podem acabar e a vida segue.

Essa imagem negativa que temos das pessoas bissexuais, vem da imagem criada pela heteronormatividade monossexual do patriarcado. Lembra, é preciso desconstruir o homem cis hétero branco europeu de dentro de nós e se possível nem deixar que ele exista mais.

A base para cuidar de tudo isso é lutar por igualdade entendendo as diversidades que existem no ser mulher LGBT e que somos todas companheiras!

Ana Claudino é preta, sapatão, pesquisadora, publicitária e criadora do canal Sapatão Amiga.

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