Entrevista com profissionais da Especialidade Cuidados Paliativos

Confira entrevista com Ana Carolina Capuano e Marilisa Pollone

A técnica de medicina fora desenvolvida por séculos. No período do Iluminismo começou a ser uma atividade laboral mais categorizada. Com o advento dos processos do capital, no ocidente, medicina e mercado começaram a interagir de forma diferente, e talvez os cuidados, em alguns momentos, foram trocados por outros valores. Não só em um exemplo, mas em vários, encaramos situações constrangedoras aliciadas a grandes corporações em que a humanidade pode ser corrompida em prol de interesses financeiros.

Além disso, a ode à eternidade, ao “estado de juventude do corpo”, às vaidades encarceradas em um estado de espírito falsamente “sempre feliz”, tem deixado de lado as passagens naturais e estágios da natureza, criando dismorfismo como pós-humanismo ancap (temática sobre a qual jogo a bomba agora, porém pretendo destrinchar em outra coluna) – por mais incrível que pareça o ser humano também é parte da natureza, mesmo que hoje parte disforme, pelo menos o ser humano ocidentalizado.

Para piorar, recentemente revelado pela CPI que investigou a gestão da COVID pelo governo, vimos muitas instituições que deveriam preservar a vida, jogando com a sorte das pessoas e negociando o fôlego de vítimas deste genocídio em massa. O que não há relação alguma com o juramento que se faz ao sair da faculdade, ou com o que temos no contrato social silencioso de afeto, de preservar e cuidar da vida.

Como diz a doutora Ana Paula Arantes, em um vídeo para a Casa do Saber: “a medicina tem limites para o tratamento de uma doença, mas não tem limites para o tratamento dos sofrimentos”. Assim é possível tratar de uma pessoa até o seu último processo antes de fazer essa passagem. Por conta disso eu trago aqui algo que julgo muito importante, principalmente nessa relação de trabalhar com doenças limítrofes entre a vida e a morte carnal, o esclarecimento sobre esta especialidade da medicina que lida com essa etapa.

Até porque muitos de nós, nesses tempos, não sabemos o que é perder alguém e como essa parte nos faz falta, entendendo que existe uma forma melhor de lidar com esse fim. É um certo alívio, e uma questão de dignidade com quem amamos, quisera eu que um dia todos nós tivéssemos o direito de viver e partir de forma digna é por isso que escrevo e milito para que a desigualdade acabe em todos os estágios da vida.

Não muito estudados, os cuidados paliativos vêm amenizar certas mazelas e confrontar esse lado mais tecnicista da medicina. É uma especialidade importantíssima para lidarmos com os processos de luto, perda e leveza, em entender essa passagem do corpo físico. Por sorte, temos muitos profissionais que entendem a medicina como uma tecnologia de afeto. Hoje trago duas delas que lidam exatamente com esse momento tão delicado do estágio de um paciente, são profissionais da especialidade de cuidados paliativos, parte da medicina essencial para cuidarmos com muito zelo de todos os processos de caminho da vida, não saber lidar com esse lugar gera muita ansiedade, dificuldades no processo de luto e problemas existenciais, que muitas pessoas carregam como um fardo sozinhas, gerando até outras doenças mentais e físicas, nos que ficam, conhecer melhor sobre esse processo e entender que temos profissionais que lidam com isso é um direito humano.

Ana Carolina Capuano é médica especialista em clínica médica com área de atuação em cuidados paliativos e sócio-fundadora da Afecto.

Marilisa Pollone é Bacharel em Comunicação Social pela PUC SP, psicóloga especializada em sexologia e cuidados paliativos.

Confira abaixo nossa conversa com elas:

O que são cuidados paliativos?

Cuidados Paliativos é um cuidado direcionado a pacientes que enfrentam uma doença ameaçadora da vida, muitos deles sem proposta curativa que aborda dimensões físicas, psíquicas, sociais e espirituais.

Como essa abordagem é encarada pela medicina atual?

Por se tratar de um ramo novo na medicina, muitos ainda não internalizaram o conceito e o propósito desta forma de cuidar. A OMS coloca como um direito humano dada sua importância. Os C. Paliativos já vem sendo praticados e estão mais desenvolvidos em outros países por ter maior tradição. Apesar do atraso, tivemos muitos avanços no Brasil nos últimos anos.

Como foi trabalhar com a saúde mental da equipe e dos pacientes nesta época de pandemia? Como as tecnologias ajudaram?

Foi uma época difícil psicologicamente, pois muitos não tiveram a oportunidade de acompanhar seus familiares internados, não puderam se despedir dos familiares no fim de vida, o que acarreta sérios problemas na elaboração do luto. A equipe assistencial ficou muito sobrecarregada lidando com essa doença nova, jornadas de trabalho extensas, grande carga emocional, medo, insegurança em relação aos próprios familiares (contágio) gerou isolamento e práticas até então não usuais.

Como você acha que a tecnologia ajudou nestes momentos sombrios?

O uso de dispositivos como tablets, celulares, foram de extrema importância pois era a única forma de comunicação através de vídeos, mensagens e chamadas de familiares com pacientes e equipe de saúde, amenizando a angústia e ansiedade pela falta de contato físico.

Como foi lidar, especificamente, com essa especialidade da medicina, nesta pandemia?

Por se tratar de uma doença potencialmente fatal, se encaixa no escopo dos cuidados paliativos. Atuou na humanização facilitando a comunicação entre paciente e família com um olhar sistêmico controlando sintomas físicos, psíquicos, sociais e espirituais de pacientes e familiares.

Tecnicismo da medicina atual e os Cuidados Paliativos

O C.P. resgata a naturalização do processo de morrer. Dentro deste contexto, os tratamentos que não visam qualidade de vida na fase terminal são evitados. Visamos a qualidade e não a quantidade, os tratamentos tecnológicos são evitados por não contribuírem.

C.P. na formação dos profissionais de saúde

Infelizmente, apesar dos avanços no Brasil, as graduações atuais na área da saúde não contemplam os C. Paliativos. Essa especialidade hoje é adquirida através de pós-graduações multidisciplinares e, no caso da medicina, em residência médica.

Como você acha que a positividade tóxica, principalmente trazida por posts e stories nas redes, nos obrigando a todo momento a clamar por uma hegemonia da felicidade, como essas situações lisérgicas de sorrisos, afeta as pessoas que estão passando por um momento tão frágil como as e os seus pacientes?

As redes sociais vendem um mundo ilusório: felicidade, juventude, padrões de beleza etc… vivemos em um mundo onde as pessoas precisam ser altamente produtivas. Quem não se encaixa nestes padrões já é psicologicamente afetado e não encontra local de pertencimento. Em se tratando de pessoas fragilizadas pela doença, sem dúvida estes ditames terão maior impacto.

Como são essas visões de passagem da vida, da transitoriedade da vida, em relação a essa ode à juventude, principalmente ligada a novas tecnologias de modificações de corpo, num sentido de alcançar quase uma imortalidade?

A ode da eterna juventude não faz pensar na terminalidade, na finitude, o que dificulta o processo de adoecer, é como se a morte fosse um evento sempre a ser combatido, as pessoas se esquecem clichê ou não a única certeza da vida é a morte.

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