Um dia, eu estava na fila do Banco do Brasil e notei uma senhora com absolutamente todas as senhas do banco anotadas em um papel. Disse a ela: “minha senhora, é melhor não andar com isso assim não”, e ela me respondeu; “minha filha fala a mesma coisa”, abriu um grande sorriso e foi até o caixa eletrônico. Isso me fez ficar um pouco assustada. Na mesma linha de angústia, estava conversando com uma amiga sobre esse tema e ela me disse a seguinte coisa: “bom amiga, meu pai tá comendo em restaurante de quilo e tomando ivermectina, eu considero que perdi ele para o zap… amiga, eu me sinto apenas derrotada, sinto que fiz o que pude”.

Este relato traduz um sentimento que só é possível quando se tem responsabilidades afetivas e cuidado pelas pessoas mais velhas. Nos tempos de hoje, presenciamos não só essas cenas, mas situações como festas online onde o vô e a vó não conseguem abrir a câmera, a propagação de notícias obviamente falsas (para quem nasceu com a internet e entende minimamente esses sinais), compartilhamento de deepfake, ou até mesmo o algoritmo dando sua mão perversa para a pessoa dentro do Youtube, jogando para canais muito duvidosos. A falta de educação digital nesta faixa etária é tão séria que estamos vendo as consequências, como quando uma pessoa como Trump é eleita através de impulsionamentos de sentimentos drenados por lógicas criadas pela empresa Cambridge Analytica.

Diante disto, pensei em vir aqui no papo reto: você ajudou quantas senhoras a mexer no Whatsapp hoje? E quando aquela sua tia queria criar o perfil no Facebook e te ligou, você ajudou? Se você sempre se preocupa em ajudar, esse texto não é para você! Porém se você é aquele militante que adora puxar pautas de respeito mútuo mas faz chacota daquela senhora que chama o Whatsapp de zap, posta o olho verde e amarelo, gif com Jesus abençoando o Facebook e no mesmo dia manda um post sobre a importância do porte de arma, esse texto é pra você! E por que estou falando especialmente de pessoas do campo progressista, e não com reacionários? Bom, você já parou para pensar quem é que acolhe uma pessoa 60+ nas novas tecnologias se você não ajudar? Sim, o “Capitão” com todo seu nefasto charme.

Por mais que o mercado de smartphones demonstre um extremo crescimento de vendas neste público (segundo o último senso do IBGE), eles ficam muitas vezes à deriva sem saber o que fazer com aquele aparelho ali. Para vocês verem até onde vai essa conversa, existe um serviço chamado “Neto de Aluguel” que acolhe e dá aulas para pessoas com mais de 60 anos, ou até mesmo boomers, para que entendam as novas tecnologias. Tudo bem, a existência desse serviço seria apenas mais uma coisa que temos que lidar das coisas absurdas que já lidamos, mas abandono afetivo é parte da lei estabelecida no Estatuto do Idoso. Ou seja, temos sim que ter responsabilidade para inclusive construir uma sociedade mais justa e menos entreguista em relação à bagunça que o acesso à internet de forma pouco consciente causa.

Diante da migração de processos corpo a corpo para processos digitais, somado à solidão gerada pelo necessário distanciamento social, trago algumas dicas para que você possa ajudar as pessoas mais velhas:

1ª Crie um manual escrito para usos básicos do aparelho, como botões e acessos dos ícones, como fez esse sobrinho do link abaixo:

Sobrinho faz guia de como usar celular para tia de 76 anos

2º Trabalhe sua paciência para passar o conhecimento. Caso você não tenha muito didática, tente arranjar estratégias para que a pessoa não fique à deriva novamente como, por exemplo, pedir ajuda a mais uma outra pessoa, ou mandar algum tutorial que explique de forma didática. Faça como um amigo meu que ajudou a mãe de 72 anos a escrever e diagramar o TCC, sinta que isso não é só um benefício para a pessoa e sim para a relação de afeto entre vocês.

3º Explique com calma, você fazendo uma primeira vez e depois deixando a pessoa fazer. A pior coisa é você tomar o celular da mão da pessoa, fazer e entregar pronto sem esclarecer a dúvida. Este meu amigo que ajudou a mãe conta que foi uma experiência que estreitou a relação deles, valendo a pena o tempo investido.

4º Entenda que isso também é afeto e carinho. A solidão diante de dificuldades tecnológicas pode gerar uma abalo emocional e uma sensação de incapacidade muito grande, o que pode detonar processos de ansiedade na pessoa mais velha e talvez até um isolamento.

5º Explique qual é sua agenda e quando pode ajudar, nunca fale “tia eu já te ajudo”sem que isso seja sincero e honesto. Deixe claro até onde vai seu tempo ou até onde você sabe sobre o assunto. Normalmente as pessoas mais velhas acham que, porque somos mais novos, sabemos de tudo.

E não precisa só ajudar quem é da sua família não! Este é um problema de todos nós enquanto comunidade e o cuidado que proponho certamente deveria abarcar desde o poder público até o íntimo do afeto humano.

Revisado por minha amiga artista cientista Clarissa Reche

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