Foto: Reprodução / TV Globo

Já começou o Big Brother Brasil 22! E no primeiro dia dessa edição já deu o que comentar, afinal inúmeras falas problemáticas foram reproduzidas. E entre elas, da jogadora Natália.

Mas antes de continuar esse artigo, gostaria de lhe convidar a ler com atenção, até por que é necessário que tomemos cuidado com as narrativas e a forma como identificamos e reproduzimos a mesma.

Dessa forma, gostaria de pontuar o lugar social da Natalia: mulher cis negra. Mas por que é necessário identificar essa intersecção? Porque saber de qual corpo falamos é necessário para entendermos e analisarmos os vetores das opressões.

Sendo assim, no primeiro dia do programa a mesma teve um discurso equivocado que romantizava a condição de pessoas escravizadas no Brasil Colônia, de acordo com a mesma “viemos como escravos porque a gente era eficiente”.

Entretanto, as redes sociais ao invés de responsabilizar a mesma, tiveram condutas de cancelamento. E quando eu falo sobre não cancelarmos a Natália, eu digo isso pensando que o cancelamento é uma tática bem antiga usada no Brasil Colônia: o que podemos chamar de linchamento. E o que seria isso? Uma tortura onde os negros sofriam agressões (físicas, verbais e/ou sexuais) por suposto crime cometido, ou por se negarem em estar na condição de escravizados, para que nesse ato outras pessoas brancas pudessem contemplar sua relação de poder.

Logo, o que devemos fazer é responsabilizar a fala da Natália, e não lincha-lá. Até porque atos como esses legitimam a violência, como já está acontecendo. Atualmente a mesma está tendo seu vídeo íntimo exposto nas redes: o que é um crime.

O mais irônico é perceber que se fosse um branco nessa condição a lógica seria outra. Digo isso por que quando Rodolpho no BBB21 foi racista com João, a narrativa de responsabilização foi completamente outra.

Mas por que isso acontece? Porque a branquitude sempre está em processo de desconstrução. Existe um pacto social que sustenta esse lugar. Agora, quando falamos de pessoas negras é importante pontuar que muitas vezes a formação política dessa população é escassa.

E o grande denominar disso é a expulsão escolar, visto que 71,7% das pessoas negras são expulsas desse espaço institucional. Infelizmente, esse mecanismo ocasiona em aprendizados e narrativas que tendem a individualizar o que deveria ser coletivo.

Como bem pontua Carla Akotirene, estar no programa falando sobre o recorte racial, sem nenhuma formação política pra isso, esvazia todo um movimento e a nossa ancestralidade.

Afinal, isso é e deveria continuar sendo uma pauta coletiva. Contudo, esse jogo foi criado para fomentar essa ação! Porém, se vivemos numa sociedade racista e que, por conta disso, nos odeia e mata: o que esse ato ensina pra gente? Que o amor não é possível!

E a forma como enxergamos a nós mesmos e ao outro começa a ser a partir da brancura, por que a nossa educação de certa forma ainda é branca: a famosa HISTÓRIA ÚNICA que Chimamanda nos ensina. E o darwinismo social é a prova viva desse mecanismo, afinal foi um termo criado pela academia escravagista que buscava justificar a exploração e morte de corpos negros.

Isto quer dizer que, se vivemos numa seleção natural é normal que uns consigam sobreviver, e outros não. Só que nesse caso, a morte não é uma causa natural, ela é projetada pelo governo racista.

E todo esse processo leva a gente a acreditar que o lugar marginal que ocupamos é justo, pois somos fortes o suficiente para sobreviver nele. Ou seja, quem nos ensinou e nos obrigou a performar tal condição foi o sistema.

Até hoje a branquitude faz com que a sociedade comemore a Lei Áurea, sendo que a mesma não só advém de uma mulher cis branca, como também foi uma utopia de libertação ao corpo negro. Afinal, somos tirados da mão do senhor de engenho, e colocados na mão do estado.

Vale ressaltar que recentemente, por ter me posicionado por essa ótica no Instagram (através de um reels) recebi inúmeros ataques vindo de pessoas brancas. Alegavam que eu estava passando pano e defendendo a Natália!

Porém, em nenhum momento daquele vídeo eu disse que a Natália não estaria errada, apenas me atentei ao cuidado com a narrativa de um corpo que estava sendo exposto e atacado nas redes, pois uma coisa que aprendi, e sigo aprendendo, é: AS NARRATIVAS MATAM.

E a forma como direcionamos o olhar das pessoas ao que queremos transmitir pode incentivar o ódio, o que aconteceu com Karol Conká no BBB passado: queriam espancar ela, e para desestabilizar a sua saúde mental várias ameaças de morte foram recebidas.

E quando no vídeo eu falo sobre a branquitude se autoquestionar antes de cancelar a Natália, quero indagar com isso o quão as pessoas brancas de fato estão compreendo sobre o racismo. Afinal, como eu disse: muitos pensam dessa maneira. “Ah, mas nunca vi nenhum branco falar isso”, e precisa falar?

 Por que você acha que a maioria dos empregos destinadas a mulheres negras são de empregadas? Por que pessoas negras não podem ser e ocupar qualquer outra profissão que não seja de submissão a algo, ou alguém?

Melhor: por que teria o homem branco animalizado o homem negro? De onde vem a ideologia do “negro do pirocão que deixa qualquer uma de cadeira de rodas”, e de onde vem tal força imposta a ele, primordialmente no período em que esses homens realizavam “trabalho” de força bruta?

Logo, a crítica central (como disse no início do artigo) deveria ser sobre a responsabilização da Natália, e a conscientização de outras pessoas negras que foram aludidas e invadidas pelo sistema e, por isso, pensam da mesma forma.

Mas para aqueles que acompanham o Big Brother Brasil, podem ter notado que a mesma Natália que teve uma análise de romantização a condição da pretitude, foi a mesma que questionou o mito da fortaleza da mulher negra.

Afinal, a quem interessa a nossa solidão? Quem lucra e lacra com ela? Já dizia Luedji Luna: “eu sou a preta que tu consome e não assume, e não é questão de ciúmes, tampouco de fé… Por acaso eu não sou uma mulher?”. E foi exatamente esse sentimento que a Natália expressou dentro da casa.

Sendo assim, vale ressaltar que mesmo a Natália tendo uma análise equivocada a respeito do processo escravocrata, isso não inibe ela de ser ultrassexualizada e atravessada pelo racismo, visto que ela é lida enquanto uma mulher (cis) negra na sociedade.

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