Por Babi Barbosa

A sociedade em que vivemos é baseada em padrões tão irreais quanto sólidos e, aparentemente, imutáveis.

Transitamos por espaços que foram projetados para o conforto, autonomia, segurança e liberdade de um cidadão italiano do século XV que nunca nem existiu (eu nunca nem vi), por que foi apenas calculado segundo a fórmula matemática encontrada por Leonardo da Vinci, baseado num tratado de arquitetura do romano Vitrúvio (e depois reclamam de Enzo e Valentina, cada nome…) de centenas de anos anteriores. Segundo a Wikipedia: “Vitrúvio já havia tentado encaixar as proporções do corpo humano dentro da figura de um quadrado e um círculo, mas suas tentativas ficaram imperfeitas. Foi apenas com Leonardo que o encaixe saiu corretamente perfeito dentro dos padrões matemáticos esperados.[2] O redescobrimento das proporções matemáticas do corpo humano no século XV por Leonardo e os outros é considerado uma das grandes realizações que conduzem ao Renascimento italiano. O desenho também é considerado frequentemente como um símbolo da simetria básica do corpo humano e, por extensão, para o universo como um todo.”

Até hoje não se tem notícia de algum ser humano vivente que tenha correspondido a esses cálculos e, portanto, tenha conseguido caber completamente em absolutamente TUDO o que foi construído pela indústria com base nele. É tipo roupa de tamanho único. O único que cabe certinho nela é o manequim da loja. Corrijam-me se estiver errada. Senão, vocês que lutem.

Resultado: cadeiras desconfortáveis, móveis planejados para causar inveja nas visitas e torturar os moradores da casa, equipamentos e ambientes de trabalho que causam doenças por esforço repetitivo e posicionamento incorreto.

Para salvação da produtividade e o bom desempenho do trabalhador, nasceu a Ergonomia, derivado das palavras gregas ergon (“trabalho”) enomos (“lei natural”). E você pensando que se tratava de saúde do trabalhador… tsc, tsc, tsc… Ledo engano.

Quédizê, somos a prova viva de que foi posto em prática um modelo científico empírico não testado, uma vez que nunca nasceu um serumaninho com aquelas características perfeitas, mas, mesmo assim, considerado perfeito para a indústria e somente ajustado quando a própria discutiu se esse modelo era lucrativo ou não. Tudo dentro da filosofia Fordiana de linha de montagem, em que cada peça é uma pessoa. Não, péra. É o contrário.

Lembrando que o lucro que cada “peçoa” (peça + pessoa. Tendeu? Tendeu? dããã) dava, se baseava na produtividade desta e no mínimo prejuízo possível que ela causasse. Ficar doente, por exemplo, é um preju com o qual a indústria não gostaria de arcar.

Solução: simbora para o modelo médico de capacidade; simbora tacar ergonomia nos processos, equipamentos, ferramentas e “peçoas”. Prestou, fica. Não tem capacidade? É inválido? Dá teu jeito e vaza.

E chegamos às lutas sindicais.

Graça as elas, vários direitos dos trabalhadores foram conquistados. Inclusive de ser inválido em paz. Com a aposentadoria por invalidez. Pelo menos passava a receber salário para ser inútil e incapaz pelo resto da vida.

Pensamentozinho vil e cruel, hein?

Mas, se não tem tu, vai tu mesmo.

Segue o baile.

Criatura enrolada que põe um título e fala de uns assuntos nada a ver. Bem, entre inválidos e incapazes, todos se salvaram. #Serase?

Até aqui, geral tinha o direito de trabalhar a vida toda até se tornar inválido, incapaz e inútil. Mas ainda tinha que chegar perfeito pra ir se destruindo ao longo dos anos.

Gente “defeituosa”, “com defeito de fábrica”, “aleijada”, “incapacitada” e todos aqueles termos que finalmente não se usa mais, nem sair de casa saiam. Não estudavam, trabalhavam, socializavam, relacionavam, tinham independência, ou constituiam família, como foi dito aos pais do meu marido surdo.

Em resumo, não tinham Acesso.

Enquanto “le monde va per lui-même”, máxima do liberalismo que aqui no nosso feijão com arroz é “cada um por si e Deus contra todos”, comia solta pelo mundo, um movimento silencioso, disperso e muito potente se desenvolvia dentro dos institutos e instituições de “especiais”, “excepcionais”, “portadores de deficiência”, “deficientes” (é favor desler essas palavras assim que terminar essa linha) e culminava em avanços invisibilizados e mais desvalorizados que a governança do país.

Esse povo queria começar a botar a própria mão e personalidade nas coisas. Sair pelo mundo e usufruir de tudo o que tem nele com o mínimo de assistência, tutela e acompanhamento possível.

E foi aí que surgiu o Movimento das Pessoas com Deficiência. OI? “peSSoas”!?!?

Então…

Sabe o Modelo Médico, o Vitruviano, o Fordiano? #RAPAPU Pois é. Mandaram pra quem os pariu. Se é que você ainda não tinha entendido.

Em primeiro lugar, a PESSOA. Suas características e necessidades em segundo. Sua deficiência, transferida para as barreiras que o ambiente apresenta. E sabemos que o modelo vitruviano transformou a nossa vida inteira numa eterna necessidade de subir em banquinhos e encolher as pernas nos bancos de ônibus e aviões. “Magina” pra quem não faz parte da corponormatividade nem nos seus sonhos.

Essa movimentação toda culminou na Convenção da ONU sobre Direitos das Pessoas com Deficiência, que aconteceu em 13 de dezembro de 2006. Nela, várias decisões importantíssimas para as Pessoas com Deficiência foram adotadas. Muitos países a ratificaram, dentre eles o Brasil, em 2008. E ela foi a base para a Lei Brasileira da Inclusão, de 2015. (cai na prova. Decora) No entanto, se esse povo já estava na rua, tão pouco a rua estava (e ainda está) aí para eles. Ocupar um espaço é muito diferente de usufruir dele. Daí a necessidade de adaptações importantes para acabar com as barreiras.

Só que o modelo médico da deficiência sendo inaceitável, obviamente teria que ser substituído e seria necessário adotar um outro modelo. Foi aceito o Modelo Social da Deficiência, onde se vê primeiro a Pessoa. Esse modelo percebe que não há deficiência onde não há barreira. Nele, os ambientes são adaptados, corrigidos e planejados para o bem estar, Acessibilidade, conforto, autonomia, segurança e liberdade de todas as pessoas e não mais só do amigo imaginário do Da Vinci.

Mas, porém, no entanto, todavia…

O bom e velho liberalismo disse: “Le monde va per lui-même” e decidiu enfiar essas conquistas numa caixinha. A da exclusão disfarçada de tapinha nas costas e responsabilidade social.

“Mas, Babi, não podemos falar desse jeito…”

Então põe aí: Criou-se a Integração.

Pelo modelo integrativo, a pessoa com deficiência pode até participar da sociedade, mas tem que ser “modelo de superação”, “nem parece que é deficiente”, “ajuda muito aqui na empresa”, “você não tem cara de deficiente”, dentre outras frases capacitistas, ao mesmo tempo em que recebe de seus convivas frases como: “se eu tivesse uma deficiência como a sua eu me mataria”, “nossa, como você consegue?”, “sala de recursos para alunos especiais com desenhos pra pintar o dia todo”, “temos 22 funcionários e dois deficientes”, “você aceita ser contratado por 40% menos que o salário dos funcionários normais?”, “Para deficientes, nós pagamos o salário mínimo”, “Como você se formou?”, “Não importa a sua graduação, nem as vagas disponíveis, todo deficiente começa na limpeza”, “Somos todos iguais, todos temos alguma deficiência”, “o bom de ela ser cadeirante é que leva as bolsas da gente”, “Mas o chefe falou em alto e bom som pra todo mundo ouvir. Você não é oralizado?”, “Você já está no meio dos outros. Quer mais o quê?!?!”

Inclusão.

Taguatinga, 03 de setembro de 2020.

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