Por Noé Pires

A cantora e compositora Camaleoa (@camaleoaoficial) faz da transformação sua principal linguagem. Inspirada pela ideia de um ser em constante mutação, a artista cearense construiu uma trajetória em que identidade, imagem e música caminham lado a lado, rompendo expectativas e reafirmando a potência criativa do pop produzido no Ceará.

Seu trabalho ocupa um território onde o experimental encontra o popular, criando experiências que extrapolam a canção e se desdobram em uma estética visual marcante e cuidadosamente concebida.

Em um cenário historicamente associado a outras sonoridades, Camaleoa consolidou seu nome como uma das vozes mais representativas do pop cearense contemporâneo. Sua obra evidencia um olhar atento às tendências da música pop sem abrir mão das referências culturais que atravessam sua origem, estabelecendo uma assinatura artística que se destaca pela autenticidade e pela capacidade de se reinventar a cada lançamento.

Singles como Caos, 10% e Reptilianas contribuíram para ampliar sua projeção e fortalecer uma identidade musical marcada pela intensidade, pelo refinamento estético e pela construção de narrativas que dialogam com diferentes públicos. Cada lançamento representa uma nova etapa de um percurso criativo que valoriza tanto a força da composição quanto a experiência visual que acompanha sua música.

Foto: @Euris

Em 2025, com os lançamentos de Sonho de Consumo e Chovendo Na Pista, a artista dá continuidade ao manifesto No Ceará Tem Pop, iniciativa iniciada em 2024 que ultrapassa a dimensão de um conceito artístico para se afirmar como um movimento de valorização da produção pop cearense. O projeto reivindica visibilidade para artistas do estado, desafia estereótipos sobre a música produzida no Nordeste e amplia o debate sobre a diversidade estética presente na cena contemporânea.

Mais do que desenvolver uma carreira individual, Camaleoa assume o papel de articuladora de uma narrativa coletiva. Seu trabalho reafirma que o Ceará também é território de inovação, performance, linguagem pop e experimentação artística. Ao transformar sua produção em um espaço de afirmação cultural, a artista contribui para ampliar as fronteiras do gênero e fortalecer uma nova geração de criadores que encontra no pop uma forma legítima de expressão.

Em plena expansão nacional, Camaleoa segue construindo uma trajetória que une consistência artística, identidade visual e visão de futuro. Sua obra representa uma geração que compreende o pop como manifestação cultural, ferramenta de representatividade e linguagem capaz de conectar diferentes territórios, reafirmando que a originalidade pode nascer daquilo que é local e alcançar dimensão nacional sem perder sua essência.

O S.O.M. (Sistema Operacional da Música), canal de música da Mídia NINJA, conversou com a artista Camaleoa.

S.O.M.: Seu nome artístico carrega a ideia de transformação. Como essa constante mudança atravessa sua música, sua estética e a artista que você se tornou ao longo dos anos?

Eu gosto de me desafiar e de sentir que estou “recomeçando” sempre que algo se torna muito familiar. Isso vem de uma vida bastante instável, mas na qual eu aprendi, como uma boa Camaleoa, a tirar o melhor de cada mudança que não era programada. Acredito que minha arte é uma extensão da minha vida até nesse aspecto. Mesmo quando algo está bom e eu poderia simplesmente dizer: “É isso, ficarei por aqui agora”, logo vem a vontade de mudar e testar mais. Sou alguém que, em um ano, evolui e muda bastante. Quero continuar me reconhecendo ao longo da vida, e quero que a arte esteja comigo nesse processo.

S.O.M.: O manifesto “No Ceará Tem Pop” nasceu em um momento importante da sua carreira. O que motivou essa iniciativa e por que você acredita que ainda é necessário afirmar que o Ceará também produz música pop?

Fortaleza ainda é tudo o que conheço. Nunca saí daqui. E acaba que, morando e vivendo aqui a vida toda, eu desenvolvi uma percepção mais apurada de que quase todos que foram embora queriam permanecer, mas não tinham perspectiva para isso.

O Ceará é uma enorme potência, mas, infelizmente, não para todo tipo de produção. Só que eu vejo o potencial, vejo as possibilidades e acredito que talvez falte apenas um empurrão. Ouvi muita coisa sobre minha arte não ter futuro por aqui e tomei isso para mim como uma meta de vida. Já ouvi de grandes produtores nacionais que meu posicionamento é político e, hoje, entendo mais do que nunca que é isso que me motiva: ver as coisas mudarem e se expandirem. Por mim, mas também pelo futuro da minha cidade e do meu estado.

Foto: @Euris

S.O.M.: Em trabalhos como Caos, 10%, Reptilianas, Sonho de Consumo e Chovendo Na Pista, existe uma identidade muito própria. O que você busca comunicar quando une música, imagem e performance em um mesmo universo criativo?

A música, para mim, tem pulmão, tem nome, tem CPF. Eu sei que é uma linha de pensamento um pouco diferente, mas é assim que eu enxergo a música. Ela nasce de mim, mas, ao ir para o mundo, ganha corpo e vida própria. Tudo o que eu posso fazer é dar o máximo de possibilidades para que ela chegue às pessoas da melhor forma e para que elas tenham a chance de interpretar, à sua maneira, o quanto aquele trabalho significa para elas.

Quando falamos de arte, falamos de tudo isso: dança, audiovisual, moda, luz, teatro. Eu não vejo essas linguagens separadas por caixinhas, mas totalmente interligadas. Acho que é isso que conecta todos esses trabalhos, mesmo que existam diferenças expressivas entre eles.

S.O.M.: Levar o pop cearense para o cenário nacional parece ser mais do que um objetivo pessoal. Que responsabilidade você sente ao representar uma cena artística que ainda busca maior visibilidade no Brasil?

O Ceará já faz história na música brasileira há muitos anos. Me sinto naturalmente abençoada pelo lugar onde nasci. Acho que ainda temos muito a mudar na visão das pessoas sobre tudo o que podemos realmente ser e fazer, além de tudo o que já foi feito de forma fantástica. Eu quero ser uma das pessoas que ajudam a contar a história dessa nova música cearense que conquistou o Brasil e, quem sabe, o mundo, né?

Sinto a responsabilidade de honrar essas raízes e, ao mesmo tempo, contar uma nova história a partir delas. Espero que, quando isso acontecer, as pessoas sintam orgulho da mesma forma que eu senti todas as vezes em que revisitei a história e conheci os nomes que fizeram tudo isso existir, para que hoje eu pudesse criar a minha.

S.O.M.: Quando você imagina o futuro da Camaleoa, qual é o legado que gostaria de deixar para a música pop produzida no Ceará e para os artistas que virão depois de você?

Olha, eu sou fã de mulheres que não têm medo de ser e pensar grande. E isso faz com que eu também não tenha medo de sonhar grande. Eu sei que, às vezes, isso pode ser lido como arrogância quando é dito por uma mulher. Mas, se eu puder ser sincera… eu quero ser a pessoa que ajudou a mudar o jogo. Se eu for usar um exemplo, quero ter um impacto no meu Ceará semelhante ao impacto que a Anitta teve para o Brasil.

Eu sei que meu movimento faz diferença para o presente e para o futuro, porque já vejo isso acontecer e converso com outros artistas sobre isso. Quero construir pontes que eu não tive, porque acredito que a arte independente ainda é feita sem metade dos recursos e dos conhecimentos necessários. E também porque é muito fácil chegar lá e não olhar mais para a nossa região.

Mas eu lembro da criança que fui e da adulta que talvez eu não tivesse me tornado por falta de acesso e de conhecimento. Espero que meu legado para a história da música brasileira e cearense seja facilitar o acesso à arte para crianças, adolescentes e adultos. Para que eles possam ser seus próprios ídolos também, como eu tive a sorte de me tornar a minha.