Por José Castro – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

Argentinos e ingleses vão se encontrar nesta quarta-feira (15) pelas semifinais da Copa do Mundo 2026, e o duelo tem retrospecto na competição, sendo esta a sexta vez que vão se enfrentar na história do Mundial. O primeiro jogo entre Argentina e Inglaterra aconteceu na fase de grupos da Copa de 1962, no Chile, onde os europeus venceram por 3 a 1, resultado que segue como o triunfo mais amplo entre as duas seleções. 

Quatro anos depois, voltaram a se enfrentar, desta vez nas quartas de final da Copa de 1966, onde os ingleses venceram novamente pelo placar magro de 1 a 0, em um partida que entrou pra história pela expulsão do capitão argentino Antônio Rattín. Após receber o cartão vermelho, o meio-campista deixou o campo protestando, torceu a bandeira de escanteio com o símbolo do Reino Unido e sentou-se no tapete reservado à Rainha Elizabeth II, o que foi considerado um desrespeito ao país. 

Nas copas de 1998 e de 2002, as duas seleções se enfrentaram com um triunfo para cada lado. Em 98, uma partida disputada e tensa que foi decidida nos pênaltis e terminou com a classificação da Argentina para as quartas de final. Em 2002, veio a revanche, ainda na fase de grupos os ingleses venceram por 1 a 0, com um belo gol de falta do craque David Beckham, o que acabou desclassificando os “hermanos”.

Mas foi em 1986, pelas quartas de finais da Copa do Mundo no México, o confronto mais emblemático entre as duas seleções. O embate ficou marcado por acontecer no período logo após uma guerra entre os dois países, que resultou na morte de vários argentinos e na derrota do país sul-americano no confronto armado, e que foi sem dúvida um elemento a mais na partida, que terminou em 2 a 1 para a Argentina.

A guerra das Malvinas

As Malvinas são um arquipélago na região Atlântico Sul, que banha parte do continente sul-americano, e desde 1833 vinha sendo controlado pelo governo britânico, que se fazia presente na América do Sul a 464 quilômetros da região litorânea da Argentina.

Naquele período, o país sul-americano vivia uma ditadura militar chefiada por Leopoldo Galtieri. A iniciativa de invadir o arquipélago tinha como objetivo desviar a atenção do povo aos problemas internos dos argentinos e das greves gerais, resultado de anos do regime ditatorial. Uma vitória militar rápida ou uma demonstração de força renderia ao governo a popularidade necessária para se manter no poder por mais tempo, com a justificativa de que, pela proximidade, era um território da Argentina e o país não poderia ser dividido e compartilhado com ninguém para resgatar um sentimento nacionalista da população. Embora a manobra tenha gerado apoio popular inicial nas ruas de Buenos Aires, o resultado não foi o esperado.

Foto: Reprodução/Governo da Argentina

Em 2 de abril de 1982 se iniciou o conflito armado, onde quatro mil fuzileiros navais da Argentina invadiram e ocuparam as ilhas, derrotando um pequeno destacamento britânico. A operação deu origem à guerra, que durou 74 dias. O embate entre os países resultou na morte de 650 militares argentinos, 225 britânicos e três civis locais.

A derrota militar para os britânicos após meses de combate desmoralizou de vez as Forças Armadas, levando à queda do regime e acelerando o retorno da Argentina à democracia em 1983. A falta de armamentos potentes do lado sul-americano e o preparo tático e bélico dos ingleses foram fatores importantes para a Inglaterra vencer as tropas argentinas, que não ofereceram muita resistência aos europeus. 

A emblemática partida de 1986

A histórica partida entre Argentina e Inglaterra, válida pelas quartas de final da Copa do Mundo de 1986, ocorreu em 22 de junho, no Estádio Azteca, na Cidade do México. O confronto é mundialmente famoso pela genialidade e pelos lances polêmicos do craque Diego Maradona, consolidando-se como um dos maiores capítulos da história do futebol.

Acontecendo apenas quatro anos após a guerra, o jogo ganhou um peso que ia muito além das quatro linhas, sendo visto por muitos como um símbolo de revanche para os argentinos. A partida foi bem acirrada e os gols vieram somente na segunda etapa.

Foto: Getty Images

O primeiro é o mais famoso. Nasceu de um toque de mão de Diego Maradona sobre o goleiro Peter Shilton, deixando o lance conhecido pelo resto da história como “La Mano de Dios”. O segundo também ganha destaque nas reproduções futuras, e veio poucos minutos depois, quando o Don Diego arrancou do meio de campo, driblou cinco ingleses e marcou um dos gols mais bonitos da história das Copas, o chamado “Gol do Século”. Aos 40 minutos, Gary Lineker diminuiu para a Inglaterra. 

Para os argentinos, aquela partida tinha e tem até hoje o sentimento de revanchismo. Não foi encarada somente como uma partida de futebol. Mesmo que os ingleses que ali estavam em campo não tivessem nenhuma culpa do que havia acontecido, o sentimento de vingar os compatriotas que perderam a vida na guerra era algo que estava permeando em campo e nas arquibancadas. Por isso, para os hermanos, a partida deixou de ser apenas um resultado esportivo. Ela passou a representar uma espécie de revanche simbólica, construída por meio do futebol e personificada por Maradona. 

O clima para a partida de 2026

Obviamente que perguntas sobre o motivo da rivalidade histórica viriam, mas por parte dos argentinos a postura é de diminuir o peso do confronto bélico contra a Inglaterra. Ao ser perguntado, o técnico Lionel Scaloni disse em coletiva à imprensa: “É só uma partida de futebol”. O meio campista Rodrigo de Paul foi pelo mesmo caminho.

Apesar de dois personagens importantes do duelo terem levantado a bandeira da paz, o cenário aponta uma rivalidade cada vez mais crescente. Hotéis argentinos mudaram a postura e não estão usando termos em inglês em propagandas e publicidades desde que o adversário foi revelado.

Do lado britânico, ex-jogadores tiveram falas que resgatam um dos confrontos mais carregados de simbolismo do futebol mundial. O ex-capitão John Terry, em entrevista a um canal britânico, declarou a superioridade técnica do time inglês: “A Argentina não me preocupa, não olho e vejo um time melhor que o nosso”, afirmou o ex-zagueiro.

Já o técnico Thomas Tuchel, em coletiva de imprensa, minimizou o peso histórico da partida, mas não deixou de reconhecer a rivalidade: “Não falamos sobre os acontecimentos do passado nem sobre os momentos históricos. O jogo, por si só, já é grande o suficiente.”

As declarações ajudam a aumentar a expectativa para um confronto que, por si só, já desperta as atenções em todo o planeta. De um lado, estará uma Inglaterra tentando voltar à final de uma Copa do Mundo após décadas de frustrações. E do outro, uma Argentina acostumada a crescer em jogos decisivos e que busca defender o status de campeã mundial.