Resgate da camisa: o verde e amarelo volta a ser de todos
A Copa de 2026 devolveu a amarelinha às ruas, mas o resgate revela mais sobre a polarização do que sobre o patriotismo
Por Priscila Oliveira – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
A Copa do Mundo de 2026 fez o país parar. Bares lotados, famílias reunidas, ruas pintadas de verde e amarelo e milhões de brasileiros vivendo um ritual que atravessa gerações: vestir a camisa da Seleção e torcer pelo Brasil. A cena parece banal, quase óbvia. Mas quem acompanhou a última década sabe que não é, porque, por quase dez anos, vestir a amarelinha exigia pensar duas vezes.
Nos últimos anos, a camisa da Seleção Brasileira deixou de representar apenas o futebol. A disputa começou antes do que a memória curta costuma registrar: não em 2018, com Bolsonaro, mas ainda em 2013, nas Jornadas de Junho. Foi ali que o uniforme começou a virar bandeira. Em 2014, a campanha de Aécio Neves pediu que eleitores fossem às urnas vestindo a camisa da equipe nacional e o efeito visual foi imediato. A apropriação se completou a partir de 2018, quando o bolsonarismo transformou o verde e amarelo em quase uniforme oficial de um projeto político.
Muitos brasileiros deixaram de vestir a “amarelinha” não porque perderam o amor pela Seleção, mas porque não queriam que uma peça de roupa falasse por suas convicções antes de qualquer conversa começar. Nas Copas anteriores, era comum ver torcedores preferindo azul, branco ou a camisa do clube do coração para acompanhar o Brasil.
Mas o esporte tem uma teimosia própria. Ele reorganiza afetos, cria encontros e produz momentos em que as diferenças perdem espaço para um sentimento coletivo, nem que seja por 90 minutos. Foi exatamente isso que esta edição do Mundial mostrou. Nas ruas, nos bares e nas redes, o verde e amarelo voltou a aparecer com naturalidade. Pessoas de diferentes gerações e convicções voltaram a vestir a mesma camisa. Não porque a polarização tenha evaporado, mas porque, enquanto a bola rolava, o futebol reconquistou o centro da conversa.
Uma semana antes da estreia do Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva publicou uma foto vestindo a nova camisa da Seleção Brasileira. E aqui vale reparar no detalhe: sobre a logomarca da Nike, ele colou um adesivo com a frase que também virou legenda: “O Brasil é dos brasileiros.”

O gesto não é ingênuo. É cálculo político, e dos bons. Ao vestir justamente a camisa que a direita reivindicou como sua, Lula fez um movimento de reapropriação simbólica e disputou o significado do uniforme no próprio terreno do adversário. Não custa lembrar que a foto veio em meio à reação do governo às ameaças de tarifaço de Donald Trump sobre o Brasil. Ou seja: a amarelinha, ali, era menos sobre futebol e mais sobre soberania.
E é justamente aí que mora a ironia difícil de ignorar. Enquanto lideranças da direita e a família Bolsonaro associam o patriotismo à bandeira e à camisa da Seleção, é o mesmo campo que estampa a bandeira dos Estados Unidos em suas manifestações e cultiva admiração declarada por um presidente estrangeiro.
Mesmo com a eliminação precoce da Seleção Brasileira da Copa do Mundo, o saldo foi positivo. Por 90 minutos, o futebol voltou pro centro e a camisa voltou pro corpo de todo mundo, sem carteirinha ideológica na porta.
Talvez esse reencontro seja temporário. Talvez a disputa pela camisa continue quando a Copa terminar. Mas o Mundial deixou uma pergunta que permanece aberta: a camisa da Seleção voltou a ser um patrimônio de todos ou esse resgate dura apenas enquanto a bola está rolando?



