Eliana Pittman: “continuo acreditando que ainda há muitas histórias para cantar”
Uma das primeiras brasileiras a conquistar o exterior fala sobre memória, pioneirismo e o novo álbum dedicado a Jorge Aragão
Por Kaio Phelipe
Aos 80 anos de idade, Eliana Pittman possui mais de seis décadas de carreira e é uma das primeiras cantoras brasileiras a se consolidar internacionalmente, levando a música do país a palcos e programas de televisão no exterior desde os anos 1960. Filha do músico norte-americano Booker Pittman e da ativista do movimento negro Ofélia Pittman, o jazz e a consciência política foram essenciais para a sua formação artística.
Em Nem lágrima nem dor, seu mais recente trabalho, Eliana Pittman dedica um álbum à obra de Jorge Aragão. O repertório reúne suas músicas em novas interpretações e arranjos, buscando destacar a sofisticação poética de um dos maiores nomes do samba.
Em entrevista para a Mídia Ninja, a cantora comenta sua experiência no exterior e a recepção da música brasileira fora do país. Ao recordar apresentações em 35 países, sem deixar de reconhecer nomes contemporâneos, Eliana defende a preservação da memória daqueles que contribuíram para a projeção da cultura brasileira além das fronteiras nacionais.
Durante a conversa, ela relembra ainda sua participação em um momento histórico do Carnaval, ao gravar o primeiro samba-enredo lançado em disco, e fala sobre os artistas da nova geração que despertam seu interesse.

De que forma o contato com o jazz influenciou sua trajetória artística? Quando a senhora se deu conta da grandiosidade de Booker Pittman?
O jazz faz parte da minha vida desde a infância. Cresci ouvindo meu pai, Booker Pittman, que era um músico extraordinário e tinha uma compreensão muito profunda da música. Quando somos crianças, enxergamos os pais de uma maneira muito natural, mas, à medida que fui amadurecendo e conhecendo melhor a história da música, percebi a dimensão artística dele. Meu pai conviveu com grandes nomes do jazz internacional e trouxe para o Brasil uma bagagem musical impressionante. O jazz me ensinou sobre liberdade, improvisação, interpretação e, principalmente, sobre a importância da personalidade artística. Acho que essa influência está presente em tudo o que canto.
Ofélia Pittman foi uma ativista do movimento negro. De alguma forma, a formação política da mãe da senhora moldou seu olhar artístico?
Sem dúvida. Minha mãe era uma mulher muito consciente do seu tempo e da importância da luta por dignidade e igualdade para a população negra. Cresci observando sua coragem e sua postura diante das injustiças. Ela me ensinou a ter orgulho das minhas origens e a ocupar os espaços com firmeza. Talvez eu não tenha transformado isso em discurso o tempo todo, mas certamente carreguei esses ensinamentos para a minha vida e para a minha carreira. Minha trajetória também é resultado da força dessas mulheres negras que vieram antes de mim.

A senhora é uma das primeiras artistas brasileiras a estabelecer uma carreira internacional. Como os artistas musicais brasileiros são vistos fora do país? O mercado internacional acolhe os nossos cantores e cantoras?
A música brasileira sempre despertou muita admiração no exterior. Quando viajei para a Europa, para os Estados Unidos e para outros países, encontrei um público muito interessado na nossa cultura. Existe um enorme respeito pela riqueza rítmica e melódica da música brasileira. Claro que o mercado internacional tem seus desafios e nem sempre é fácil para um artista brasileiro construir uma carreira fora do país, mas acredito que a nossa música continua sendo uma das maiores embaixadoras do Brasil.
Apresentei meu trabalho em 35 países. Em muitos deles, lancei discos e participei de programas de televisão. Fui uma das primeiras cantoras brasileiras a me apresentar no Olympia de Paris, uma das únicas a ser entrevistada no programa de TV americano The Tonight Show, de Jack Paar, nos anos 1960, e a primeira e única brasileira a estampar a capa da revista americana Ebony. Quando o trabalho é apresentado com qualidade e autenticidade, ele encontra espaço e reconhecimento.
Infelizmente, o brasileiro tem memória curta e apaga a própria história. Eu sempre leio na imprensa que a Anitta foi a primeira a isso e a aquilo, mas, na verdade, muito antes dela eu já fazia tudo isso, numa época sem internet, redes sociais e plataformas digitais. E não me entenda mal: eu sou fã da Anitta, considero sua trajetória muito importante e admiro muito a forma como ela gerencia a própria carreira. Mas, antes dela, tivemos Carmen Miranda, Astrud Gilberto, eu e muitas outras brasileiras que conquistaram esses espaços internacionais muito antes. A crítica não é a ela, e sim ao sistema de apagamento da história da nossa cultura e dos pioneiros que a levaram para fora do país.

A senhora é pioneira na história do Carnaval, sendo a primeira artista a gravar um samba-enredo. Como é a sua relação com o Carnaval?
O Carnaval sempre fez parte da minha vida. É uma das maiores expressões da cultura popular brasileira e um espaço de criação artística extraordinário. Tenho muito orgulho de ter participado desse momento histórico ao ser a primeira a gravar um samba-enredo. A gravadora Copacabana não queria, mas conseguimos fazer. Na época, talvez ninguém imaginasse a dimensão que isso teria anos depois. Sempre tive uma relação muito afetiva com essa festa.
Como começou a sua relação com as composições de Jorge Aragão? Quando surgiu a ideia de gravar o álbum Nem lágrima nem dor?
Minha relação com a obra de Jorge Aragão vem de muitos anos. Sempre admirei sua capacidade de traduzir sentimentos profundos em canções que podem até parecer simples, mas carregam uma enorme sofisticação poética e melódica.
A ideia do álbum surgiu da vontade de revisitar sua obra sob uma perspectiva diferente, destacando não só o sambista extraordinário que ele é, mas também o grande compositor da música brasileira. Foi um projeto construído com muito carinho e respeito, celebrando um artista fundamental da nossa cultura.

Ainda há algum compositor ou compositora com quem gostaria de trabalhar?
A música brasileira é tão rica que sempre existem encontros que despertam curiosidade e admiração. Tenho carinho por artistas de diferentes gerações e linguagens, e há nomes com quem eu gostaria muitíssimo de dividir um trabalho ou uma gravação. Penso, por exemplo, em Jonathan Ferr, pela forma como aproxima o jazz, a música negra e a contemporaneidade; em Felipe Cordeiro, que tem uma visão moderna da música amazônica; em Giovani Cidreira, artista baiano de enorme sensibilidade; em Curumin, pela criatividade rítmica e musical; e no Djonga, que tem uma força poética e uma potência de comunicação que considero admiráveis.
Também me encanta ver como as novas gerações redescobrem nossos patrimônios musicais. Tenho uma admiração especial pela obra de José Prates e adoraria incorporar samples de suas gravações em um próximo trabalho, especialmente desse universo que deu origem ao célebre “Tam Tam Tam”. Acho bonito quando artistas contemporâneos dialogam com esse legado, criando novas leituras e aproximando diferentes tempos da música brasileira. Esses encontros são sempre muito inspiradores.
O mais bonito da música é justamente essa possibilidade de continuar descobrindo repertórios, vozes e sensibilidades. Enquanto houver emoção e verdade artística, continuarei aberta aos encontros que a vida proporcionar.
Aos 80 anos, como é olhar para trás e ter construído tanta coisa artisticamente?
É um sentimento de gratidão. Quando olho para a minha trajetória, vejo uma caminhada construída com muito trabalho, persistência e amor pela música. Vivi momentos maravilhosos, enfrentei desafios, conheci muitos países, gravei discos, subi aos palcos e tive o privilégio de cantar para diferentes gerações. Mais do que pensar nas conquistas, gosto de pensar nos encontros que a música me proporcionou, tanto aqui quanto no exterior. É só dar uma olhada no meu Instagram, @eliana.pittman, que você vai ver o tanto de coisa que eu fiz. Chegar aos 80 anos em plena atividade artística é uma bênção. E continuo acreditando que ainda há muitas histórias para cantar.



