Crise geopolítica molda a cobertura da Copa do Mundo de 2026
Guerras, eleições e crises internacionais também influenciam a agenda jornalística e a experiência do Mundial
Por Janaina Coutinho – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Enquanto milhões acompanham os jogos da Copa do Mundo de 2026, o cenário internacional é marcado por guerras, disputas diplomáticas, eleições e restrições migratórias. O torneio, tradicionalmente associado à união entre países, acontece em meio a um dos contextos geopolíticos mais complexos das últimas décadas.
A dificuldade para 2026, porém, não é só o período eleitoral, que está sendo noticiado contemporaneamente à Copa; também há conflitos políticos internacionais que precisam de espaço para ser documentados e comentados durante o Mundial.
Os torcedores e jornalistas também se posicionam. Mais do que narrar partidas, os jornalistas precisam contextualizar acontecimentos que interferem diretamente na realização da competição. Isso inclui conflitos armados, políticas migratórias, manifestações, segurança pública e decisões diplomáticas dos países-sede.
Muitos jornalistas estrangeiros enfrentam riscos antes mesmo da saída do aeroporto, já que as autoridades de fronteira dos EUA são rigorosas ao negar a entrada, realizar inspeções secundárias ou deter temporariamente viajantes, independentemente de vistos válidos, credenciais de imprensa ou aprovações do ESTA.
Isso implica consequências na hora de noticiar acontecimentos contemporâneos aos jogos. Muitos jornalistas podem ficar receosos de se expor e perder o visto e o emprego ao democratizar informações de interesse público como dever social, o que causa um questionamento acerca da liberdade de imprensa durante o torneio.
Nesse cenário, não se trata apenas de cobrir os jogos; os profissionais de comunicação precisam, por um dever social e político, olhar para questões geopolíticas que pairam no mundo enquanto o evento acontece, dando visibilidade às pautas invisíveis e aos problemas que ultrapassam as fronteiras.
A Copa de 2026, a maior de todos os tempos, contando com 48 seleções do futebol masculino e inúmeras nações, ainda não é inclusiva para todos. Quando levamos em conta que, apesar de terem parado de noticiar, as guerras e conflitos em diversos países ainda não acabaram, milhares de pessoas ainda sofrem e muitos jornalistas são reprimidos por tentar mostrar a realidade desses locais.
Além disso, os torcedores dos países vulneráveis enfrentam dificuldades para assistir aos jogos presencialmente nos estádios e até mesmo de longe, tendo seus vistos negados dependendo do seu país natal. É o caso de pessoas vindas do Irã e do Haiti, que foram proibidas de entrar nos Estados Unidos pelo presidente Donald Trump.
“Sou um torcedor fanático por futebol. Mas, desta vez, por causa da situação política, estou boicotando”, disse Rezaei, iraniano de 59 anos, em entrevista à CNN.
Para um evento que tem a premissa de “unir nações”, a Copa de 2026 está muito longe disso. Os conflitos armados e as restrições na liberdade de expressão do fazer jornalístico estão sendo deixados cada vez mais às margens do evento, que deveria ser um espaço de livre circulação de pessoas, independentemente da nacionalidade.
Além dos desafios impostos pelo cenário internacional, a Copa de 2026 coincide, no Brasil, com outro momento de grande mobilização nacional: as eleições presidenciais.
O caso do Brasil
Além do contexto internacional, o Brasil vive em 2026 a campanha para a presidência, coincidindo com a realização da Copa do Mundo. Candidatos, partidos e a própria cobertura jornalística disputam a atenção do público durante um ano em que dois dos maiores acontecimentos nacionais compartilham o calendário.
A sobreposição desses eventos levanta questionamentos sobre a forma como os brasileiros consomem informação. Jogos da Seleção costumam concentrar grandes audiências na televisão, no rádio e nas plataformas digitais, enquanto a campanha eleitoral depende justamente da visibilidade para apresentar propostas e conquistar eleitores.
Para as redações, a coincidência entre Copa e eleições representa um desafio editorial. Além de acompanhar partidas, coletivas e bastidores do torneio, jornalistas também precisam cobrir pesquisas eleitorais, agendas de campanha, debates e decisões da Justiça Eleitoral. Isso exige escolhas constantes sobre quais acontecimentos merecem maior destaque, evidenciando o papel do jornalismo na definição da agenda informativa durante um período de mobilização nacional.
Nas redes sociais, um mesmo usuário pode acompanhar, em poucos minutos, o resultado de uma partida, comentários sobre o desempenho da Seleção, memes esportivos e conteúdos relacionados à campanha presidencial. Essa dinâmica evidencia como plataformas digitais se tornaram espaços onde entretenimento, informação e disputa política convivem e competem pela atenção do público.
A Copa do Mundo de 2026 revela como o futebol está inserido nas dinâmicas políticas, sociais e internacionais do seu tempo. Em um ano marcado por guerras, disputas diplomáticas e eleições no Brasil, a cobertura jornalística vai além dos campos de futebol e passa a interpretar um cenário em que esporte e política se cruzam constantemente.



