Por que jogadores acusados de violência sexual disputam a Copa do Mundo?
Investigados por crimes sexuais entram em campo no Mundial e reacendem o debate sobre a responsabilidade da FIFA
Por Yasmim Lima – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Um Mundial, duas narrativas. A Copa que aparece nas transmissões: gols, festas nas ruas e seleções surpreendentes, vivendo campanhas históricas. E a Copa que se discute nos bastidores, nas redes sociais e em escritórios de advocacia em pelo menos quatro países (Japão, Marrocos, Gana e Cabo Verde), onde jogadores convocados para representar suas seleções carregam, além da camisa, processos e investigações por crimes sexuais.
Nenhum dos casos tem condenação definitiva. Todos os jogadores envolvidos negam as acusações que lhes são atribuídas. Mas a coincidência entre o calendário do maior evento do futebol mundial e o andamento desses processos levantou uma pergunta que o futebol vem adiando há anos: até que ponto a presunção de inocência jurídica deve significar ausência total de consequência esportiva?
Os casos que colocaram a FIFA no centro da polêmica
- Achraf Hakimi (Marrocos)

Capitão da seleção marroquina e um dos principais nomes do Paris Saint-Germain, Hakimi é réu em um processo na Justiça francesa. Segundo a denúncia apresentada por uma jovem de 24 anos, os dois se conheceram pelo Instagram em janeiro de 2023 e, após um encontro na casa do jogador em Paris, ela teria sido beijada e tocada sem consentimento e, na sequência, estuprada.
Hakimi foi indiciado naquele mesmo ano, tentou o arquivamento do caso e teve o pedido negado pelo Tribunal de Apelação de Versalhes, o que significa que ele será julgado pelo Tribunal Criminal Departamental de Hauts-de-Seine. Em nota publicada nas redes sociais, o jogador negou a acusação e disse esperar “com serenidade” a conclusão do caso, argumentando que uma denúncia de estupro, mesmo sem provas, já é suficiente para levar alguém a julgamento.
- Thomas Partey (Gana)

Talvez o caso mais grave em volume de acusações. O meio-campista, que teve passagem marcante pelo Arsenal antes de se transferir ao Villarreal, responde na Justiça britânica a sete acusações de estupro e uma de agressão sexual, apresentadas por ao menos quatro mulheres diferentes, cujos supostos episódios teriam ocorrido entre 2021 e 2022, período em que ele defendia o clube inglês.
Partey foi preso em 2025 e depois liberado sob fiança, com restrições: não pode contatar as denunciantes e precisa informar previamente qualquer mudança de endereço ou viagem internacional. Ele se declarou inocente perante o tribunal.
O caso teve um desdobramento direto na Copa: o Canadá negou-lhe o visto de entrada, e ele desfalcou Gana na estreia contra o Panamá. O Ministério das Relações Exteriores de Gana classificou a decisão canadense de “arbitrária e extremamente injusta”, por se apoiar em acusações sem condenação. Depois de reavaliação individual, os Estados Unidos autorizaram sua entrada para as fases seguintes do torneio.
- Kaishu Sano e Junya Ito (Japão)

A seleção japonesa, adversária do Brasil na fase eliminatória, chegou ao confronto com dois jogadores sob holofotes por motivos semelhantes. Kaishu Sano foi preso em julho de 2024, acusado de agressão sexual contra uma mulher em um hotel de Tóquio, ao lado de outros dois suspeitos. O caso foi arquivado pela Procuradoria sem apresentação de denúncia formal contra o jogador. Um ano depois, ele voltou à seleção e pediu desculpas públicas “pelos transtornos causados”.
O técnico Hajime Moriyasu justificou a decisão de mantê-lo no grupo comparando a equipe a uma família que oferece segunda chance a quem “cometeu um erro”, fala que gerou reação forte no Japão, inclusive com sites alertando mulheres turistas que viajariam para acompanhar a Copa.

Já Junya Ito foi acusado por duas mulheres, no início de 2024, de tê-las agredido sexualmente em um hotel de Osaka enquanto ambas estavam embriagadas. Ele chegou a ser cortado da Copa da Ásia por causa da repercussão, mas revidou apresentando queixa-crime contra as próprias acusadoras, alegando falsas denúncias. Meses depois, o Ministério Público japonês encerrou o caso sem denunciar nenhuma das partes, citando falta de provas.
- Ryan Mendes (Cabo Verde)
O caso mais recente, e um dos mais graves em termos de detalhes descritos no boletim de ocorrência, envolve o capitão da histórica seleção cabo-verdiana.

Mendes, de 36 anos, hoje no Igdir FK, da segunda divisão da Turquia, é investigado pela polícia da Nova Zelândia depois que uma intérprete brasileira, contratada pela federação neozelandesa para acompanhar a delegação durante amistosos do Fifa Series, em Auckland, relatou ter sido agredida fisicamente e violada sexualmente dentro do hotel onde a equipe estava hospedada, em 27 de março de 2026.
Segundo o relato da denunciante, ela foi convidada para uma reunião após a partida contra o Chile, percebeu se tratar de uma confraternização e voltou ao próprio quarto; horas depois, afirma ter sido agredida e estuprada ao abrir a porta pensando se tratar de uma demanda de trabalho. Após o episódio, foram registradas fotos de hematomas em diferentes partes do corpo da denunciante, que passou por avaliação em uma clínica especializada em atendimento a sobreviventes de violência sexual, constatando lesões físicas compatíveis com o relato, inclusive na região genital.

A investigação segue em aberto desde 10 de abril de 2026. A polícia já reuniu imagens de câmeras de segurança do hotel e aguarda a conclusão dos laudos periciais para decidir se apresentará denúncia formal à Justiça neozelandesa. Uma advogada criminal consultada pela família da vítima disse à jornalista Camila Alves, do ge, que esse procedimento pode levar até seis meses.
Em 10 de maio de 2026, a vítima e o marido enviaram notificações extrajudiciais à Federação Cabo-Verdiana de Futebol e à FIFA relatando o caso e pedindo, formalmente, que o jogador fosse excluído da disputa da Copa do Mundo; dez dias depois, em 20 de maio de 2026, também preencheram o formulário oficial de “Safeguarding” da FIFA, canal criado pela própria entidade para denúncias de conduta imprópria. Nenhuma das duas instituições respondeu ao pedido. Um funcionário da federação cabo-verdiana chegou a dizer à vítima, por mensagem de aplicativo, que o caso era “problema pessoal de Ryan”.

Somente depois da publicação da reportagem de Camila Alves no ge, em 27 de junho de 2026, a FIFA emitiu a mesma nota padrão usada em outros casos, informando estar em contato com as autoridades da Nova Zelândia. Mendes seguiu como titular absoluto da seleção, que fez campanha histórica na Copa antes de ser eliminada pela Argentina, nas oitavas de final.
O que a FIFA diz e o que ela não faz

A resposta institucional da FIFA a cada um desses casos segue, essencialmente, o mesmo roteiro: a entidade não possui, hoje, nenhuma norma que determine o afastamento automático de um jogador pelo simples fato de estar sendo investigado ou processado por crime sexual. Na prática, a FIFA delega essa responsabilidade às federações nacionais, que decidem livremente quem convocar, desde que não haja suspensão disciplinar aplicada pela própria entidade ou uma decisão judicial que impeça o atleta de exercer a profissão.
É uma posição juridicamente defensável, já que a presunção de inocência é um princípio caro a qualquer sistema legal sério, mas que vem sendo cada vez mais contestada por juristas e organizações de defesa dos direitos das mulheres. A advogada criminalista Vanessa Egla resume o cerne da controvérsia: presunção de inocência protege o indivíduo de uma condenação sem provas, mas não obriga nenhuma entidade esportiva a convocar um atleta específico. FIFA, federações e seleções, segundo ela, têm total autonomia para aplicar critérios éticos e reputacionais nas próprias decisões de convocação, algo que, na prática, escolhem não fazer.
Essa autonomia, aliás, já foi usada pela FIFA em outros contextos de proteção às mulheres: a entidade orientou emissoras a evitar closes com apelo sexual em torcedoras durante as transmissões da Copa, após anos de críticas sobre objetificação feminina na cobertura televisiva. O contraste chama atenção: a FIFA regula a forma como mulheres são enquadradas pelas câmeras, mas evita qualquer regra sobre jogadores acusados de violência contra elas.
Além do escândalo pontual
O argumento mais repetido pelos críticos não é jurídico, é institucional: nenhuma federação é obrigada a chamar um jogador. Convocar é uma escolha, não um direito automático do atleta. Ao optar por manter em campo nomes envolvidos em processos graves, seleções e a própria FIFA fazem, na prática, uma escolha de valores, mesmo que a apresentem como neutralidade jurídica.
Também pesa o componente comercial. Especialistas ouvidos por veículos esportivos apontam que questões reputacionais têm peso crescente no futebol moderno, influenciando patrocínios e decisões administrativas. Nenhuma seleção, federação ou a própria FIFA quer o desgaste de imagem associado a esse tipo de caso, mas, até agora, esse cálculo não tem sido suficiente para mudar a política de “não fazer nada” enquanto não houver condenação.
Não é a primeira vez: o Brasil também está nessa história
O debate ganha ainda mais peso quando se olha para trás. O futebol brasileiro já teve dois dos casos mais notórios do esporte mundial nos últimos anos.

Robinho, ex-jogador do Santos e da Seleção Brasileira, foi condenado pela Justiça italiana em 2022 a nove anos de reclusão por estupro coletivo cometido em Milão, em 2013; está preso no Brasil desde março de 2024, após decisão do Superior Tribunal de Justiça que permitiu a execução da pena em território nacional. Já o lateral Daniel Alves foi preso na Espanha em janeiro de 2023, acusado de estuprar uma jovem de 23 anos em uma boate de Barcelona. Condenado em primeira instância, teve o processo anulado e foi absolvido em abril de 2025, quando os magistrados concluíram que o depoimento da vítima não era suficiente para sustentar a condenação.
Os dois casos mostram os extremos possíveis do sistema, de uma condenação mantida e cumprida a uma absolvição em segunda instância, e ajudam a explicar por que a FIFA se apega tanto ao critério da decisão judicial definitiva: qualquer posição antecipada da entidade corre o risco de, mais tarde, parecer precipitada. O problema, dizem os críticos, é que esse argumento acaba servindo para justificar a inércia total, mesmo diante de investigações com provas robustas, boletins de ocorrência detalhados e prisões decretadas.
Fronteiras que decidem por si só
Curiosamente, quem tem imposto algum tipo de barreira a esses jogadores não foi o futebol, e sim a imigração. O caso de Thomas Partey ilustra bem essa lacuna: a FIFA nada fez, mas o governo canadense negou-lhe o visto, impedindo-o de estrear no torneio. Já os Estados Unidos, outro país-sede, autorizaram sua entrada após uma análise individual constatar a ausência de condenação judicial. Ou seja, o destino de um jogador acusado de crimes sexuais pode variar conforme a política migratória de cada país-sede, um sistema de controle imprevisível e desigual, que preenche por acaso um vazio que deveria ser regulatório e esportivo.
O que está em jogo no debate
Nenhum dos casos citados tem, até a publicação desta matéria, condenação definitiva, à exceção de Robinho, cuja pena já é cumprida no Brasil. Essa distinção importa e deve ser respeitada: acusação não é prova, e investigação não é sentença. Mas a discussão que se abre não é sobre culpa ou inocência individual, é sobre o papel que uma entidade do tamanho da FIFA, que movimenta bilhões de dólares e é assistida por metade do planeta durante um Mundial, deveria assumir diante de acusações graves de violência contra mulheres.
Organizações de defesa dos direitos das mulheres pedem critérios mais claros, um protocolo transparente que avalie caso a caso, como já existe, por exemplo, para casos de doping ou manipulação de resultados. A FIFA, por ora, não sinalizou qualquer mudança em seu regulamento. Enquanto isso, os jogos seguem, as seleções comemoram classificações, e o debate sobre até onde vai a responsabilidade institucional do futebol permanece.
Até quando?
Fica uma pergunta que nenhum comunicado oficial responde: até quando o futebol vai tratar denúncias de estupro como um detalhe de bastidor, algo que se resolve com uma nota de assessoria e um pedido de desculpas genérico, enquanto a bola continua rolando normalmente? A resposta institucional que se repete, caso após caso, é sempre a mesma: não há condenação, então não há problema. Mas essa lógica ignora uma pergunta mais incômoda, que é social antes de ser jurídica: por que o talento com a bola parece, na prática, pesar mais do que o sofrimento relatado por uma mulher?
Não se trata de abrir mão da presunção de inocência, um princípio que existe para proteger qualquer pessoa de ser condenada por acusação, sem provas. Trata-se de reconhecer um padrão incômodo: sistematicamente, o mundo do futebol escolhe proteger a carreira do jogador antes de proteger a integridade das mulheres envolvidas. Técnicos falam em “dar uma segunda chance” para atletas que sequer foram julgados pelo que fizeram. Federações inteiras se mobilizam para reverter a negação de um visto, mas nenhuma se mobiliza para rever critérios éticos de convocação. Torcedores debatem escalação e esquema tático, mas raramente questionam por que aplaudem, de pé, um nome que está, naquele exato momento, sendo investigado por violência sexual.
A pergunta que fica, e que nenhuma súmula disciplinar da FIFA responde, é simples: quantas mulheres mais precisarão registrar boletim de ocorrência, quantos laudos periciais mais precisarão ser produzidos, para que o futebol pare de tratar esse assunto como incômodo passageiro e comece a tratá-lo como o que ele é, uma questão de responsabilidade coletiva, que nenhuma taça, nenhum gol e nenhuma classificação deveria ter o poder de apagar.
Todos os jogadores citados negam as acusações apresentadas contra eles, exceto nos casos com condenação definitiva, indicada no texto. As informações aqui reunidas têm como base reportagens publicadas por veículos esportivos e jurídicos durante a Copa do Mundo de 2026, além de manifestações oficiais da FIFA e das federações envolvidas.
Em caso de violência, ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher), que funciona 24 horas e a ligação é gratuita. Em situação de emergência, ligue 190. As denúncias também podem ser feitas em qualquer Delegacia da Mulher.



