Cinemateca Brasileira completa 80 anos de resistência e preservação da memória nacional
Instituição chega às oito décadas como referência na conservação, restauração e difusão do patrimônio audiovisual brasileiro, após uma trajetória marcada por desafios e resistência
Por Lilianna Bernartt
Completar 80 anos, para a Cinemateca Brasileira, significa muito mais do que alcançar uma marca histórica. Em um país onde a cultura frequentemente enfrenta a descontinuidade das políticas públicas, a falta de investimentos e a negligência com seu patrimônio, chegar a oito décadas de existência representa a permanência de uma ideia que resistiu ao tempo: a de que preservar a memória audiovisual é uma responsabilidade pública e uma condição para que um país conheça a si mesmo.
A história da Cinemateca Brasileira começa em 1946, quando a criação do Segundo Clube de Cinema de São Paulo deu início a um movimento que defendia algo ainda pouco discutido no Brasil: a preservação do cinema como parte da memória cultural do país. Entre seus principais articuladores estava o crítico e historiador Paulo Emílio Sales Gomes, que, a partir de sua experiência junto à Cinémathèque Française, ajudou a consolidar a ideia de que o Brasil precisava de uma instituição dedicada não apenas a guardar filmes, mas também a estudá-los, restaurá-los e colocá-los novamente em circulação.
Esse projeto ganhou forma em 1949, com a criação da Filmoteca do Museu de Arte Moderna de São Paulo, embrião da atual Cinemateca Brasileira. Anos mais tarde, em 1956, a Filmoteca tornou-se uma instituição autônoma e passou a adotar o nome Cinemateca Brasileira. Mais do que uma mudança administrativa, era a consolidação de uma política cultural que, oito décadas depois, continua sustentando um dos mais importantes centros de preservação, restauro, pesquisa e difusão audiovisual da América Latina.
Ao longo de sua trajetória, a Cinemateca se tornou um dos maiores símbolos das disputas em torno da memória cultural no Brasil. Crises administrativas, interrupções de atividades, incêndios, perdas irreparáveis de acervo e períodos de abandono escancararam a fragilidade das políticas de preservação no país. Cada ameaça sofrida pela instituição revelou uma questão que ultrapassa os limites do cinema: sem investimento contínuo e compromisso do Estado, a memória coletiva também corre o risco de desaparecer.
Hoje, a Cinemateca Brasileira abriga o maior acervo audiovisual da América do Sul, reunindo dezenas de milhares de obras cinematográficas e um vasto conjunto de documentos, fotografias, roteiros, cartazes e registros que ajudam a contar a história do audiovisual nacional. Mas seu papel vai muito além da guarda desse patrimônio. A instituição desenvolve um trabalho permanente de conservação, catalogação, restauração e digitalização de filmes que, em muitos casos, chegariam às próximas gerações apenas como lembrança.
Entretanto, preservar nunca foi sua única missão.
Desde Paulo Emílio, a Cinemateca foi pensada também como um espaço de circulação do conhecimento. Mostras, retrospectivas, cursos, debates e sessões públicas transformaram a instituição em um dos principais centros de difusão cinematográfica do país, aproximando pesquisadores, estudantes, realizadores e espectadores de diferentes períodos da produção brasileira. Porque um filme preservado, mas inacessível, continua sendo uma memória interrompida.
Em tempos em que a circulação de imagens parece ilimitada nas plataformas digitais, a existência da Cinemateca se torna ainda mais necessária. Arquivos digitais exigem manutenção constante, suportes físicos se deterioram e tecnologias se tornam obsoletas. A preservação audiovisual continua dependendo de investimento, conhecimento técnico e políticas públicas consistentes. Nada disso acontece de forma espontânea.
Os últimos anos deixaram essa realidade evidente. A mobilização da comunidade cinematográfica, de pesquisadores, trabalhadores da cultura e da sociedade civil em defesa da Cinemateca demonstrou que sua sobrevivência nunca interessou apenas ao setor audiovisual. Defender a instituição significou defender o direito de o Brasil preservar sua própria memória.
Celebrar seus 80 anos, portanto, é reconhecer uma instituição que permanece essencial para a cultura brasileira. Mais do que guardar filmes, a Cinemateca restaura histórias, preserva identidades e mantém viva uma memória que pertence a toda a sociedade. Sua trajetória prova que preservar o cinema nunca foi um gesto voltado apenas ao passado. É, acima de tudo, um compromisso com o futuro.
Viva a Cinemateca Brasileira!



