Por Hyader Epaminondas 

Existe uma expectativa curiosa em torno de “Supergirl”, como o segundo filme desse novo universo cinematográfico. Apesar de a segunda temporada de “Pacificador” se encaixar exatamente entre esses dois filmes, a produção acaba sendo mais do que apenas a apresentação de uma nova versão da heroína nos cinemas: se “Superman”, de James Gunn, recebeu o benefício da dúvida por ser o ponto de partida desse novo universo, aqui a produção de Craig Gillespie carrega o peso de ser uma das primeiras peças capazes de revelar o tom do novo Universo DC.

Talvez o problema comece justamente na escolha de adaptar o belíssimo “Supergirl: A Mulher do Amanhã” como ponto de partida. Uma obra que, nos quadrinhos, se destaca pelas criações mirabolantes da brasileira Bilquis Evely e pela estética explosiva, dinâmica e de fantasia cósmica, aqui ganha nas telas uma abordagem muito mais contida e sem expressividade.

Em vez de abraçar a grandiosidade visual daquele universo, o diretor prefere uma paleta opaca, dominada por tons terrosos, planetas de estética montanhosa e uma ambientação que parece abandonar justamente a diversidade de cores de Matheus Lopes e as formas que tornavam o quadrinho tão marcante.

A grande ironia é que a força da Supergirl nunca esteve em ser apenas uma versão feminina do Superman. Sua essência sempre aparece justamente no contraste: enquanto Clark Kent representa alguém que encontrou seu lugar na Terra, Kara carrega o peso de quem perdeu seu mundo antes mesmo de ter a chance de pertencer a outro.

Ela não surge como um símbolo perfeito ou uma heroína já pronta, mas como uma imigrante cósmica tentando compreender o que fazer com tudo aquilo que restou. É nesse conflito entre identidade, luto e a busca por um novo significado que o filme encontra seus momentos mais interessantes.

O problema é que, ao mesmo tempo, a obra acaba tropeçando no próprio senso de urgência ao construir uma história movida por uma corrida contra o tempo de apenas três dias, acelerando conflitos que poderiam ter ganhado mais espaço para respirar. Mesmo com seus tropeços, “Supergirl” consegue funcionar como uma aventura divertida, sustentada principalmente pelo carisma de sua protagonista e pela tentativa de explorar uma heroína que sempre foi mais sobre sobrevivência do que sobre perfeição.

Um superelenco de peso a serviço de uma história sem peso algum

Depois de protagonizar a primeira metade de “A Casa do Dragão” com perfeição, mantendo-se à altura do desafio de “Game of Thrones”, Milly Alcock evita transformar Kara em uma heroína idealizada. Existe nela uma inquietação constante, como alguém que tenta esconder uma turbulência interna atrás de uma postura de indiferença. Sua Supergirl é introduzida como uma figura sem propósito, alguém à deriva, uma sobrevivente atravessando a imensidão do espaço enquanto tenta preencher o vazio deixado pela perda de seu planeta natal.

Sempre mantendo no olhar a memória de um mundo que acabou antes que ela pudesse realmente conhecê-lo, ela transforma sua própria solidão em uma espécie de punição. Suas passagens pelos mais diferentes bares das galáxias para comemorar seu aniversário, entre excessos e fugas momentâneas, são menos uma celebração da vida e mais uma tentativa desesperada de anestesiar o luto por ter sido aquela que sobreviveu. É uma personagem presa entre a culpa de continuar existindo e o medo de nunca pertencer a lugar nenhum.

Sua Supergirl é impulsiva, debochada e emocionalmente desorganizada, mas, justamente por isso, parece mais humana que o seu primo idealizado no filme anterior. Craig Gillespie foca nesse espaço quase melancólico ao acompanhar uma personagem com poderes quase divinos tentando lidar com sentimentos tão mundanos: solidão, pertencimento e a necessidade de descobrir quem ela é quando ninguém mais está definindo seu papel.

O problema é que o roteiro enxerga essa possibilidade, mas nem sempre mergulha nela. Gillespie constrói uma aventura visualmente energética, apesar do excesso de filtro marrom, cheia de movimento e com uma identidade mais caótica, mas o filme parece dividido entre criar uma voz própria e provar que pertence ao novo capítulo comandado por James Gunn. Essa necessidade constante de se encaixar nas regras narrativas desse novo universo acaba se tornando sua própria kriptonita: quanto mais tenta seguir uma cartilha já estabelecida, menos espaço encontra para explorar aquilo que torna Kara uma personagem tão singular.

O humor, os personagens excêntricos e a mistura entre emoção e drama até criam certa sinergia em alguns momentos, mas, com frequência, essa linguagem soa menos como uma escolha orgânica e mais como a reprodução de uma fórmula já conhecida. As cenas de ação são particularmente medíocres: confusas, mal coreografadas e marcadas por cortes que quebram qualquer continuidade. Falta impacto, tudo parece acontecer sem peso, sem consequência e sem uma verdadeira construção de tensão.

Ainda assim, existe criatividade na forma como a obra brinca com a relação entre Kara e o Sol. Em vez de tratar seus poderes como algo fixo, o filme transforma a energia dos diferentes sóis em uma extensão do estado da personagem: algumas atmosferas ampliam sua força, enquanto outras a enfraquecem e literalmente a prendem ao chão.

A imagem de uma heroína que deveria ser capaz de atravessar galáxias, sendo limitada pela própria fonte que alimenta seus poderes, cria uma contradição interessante, na qual Kara está sempre buscando liberdade, mas carrega consigo uma dependência da qual não consegue escapar. Essa escolha também funciona como uma metáfora para uma personagem que vive presa ao passado: o mesmo legado que lhe dá força é também aquilo que mantém um peso constante sobre seus ombros.

A presença de Jason Momoa como Lobo acaba criando um desequilíbrio curioso. O personagem funciona bem até demais: carrega aquela mistura de exagero, brutalidade e humanidade que o filme busca constantemente, uma figura que poderia facilmente ser apenas uma piada, mas encontra camadas suficientes para roubar a atenção sempre que entra em cena.

O problema é que esse carisma se torna quase uma força gravitacional própria. Em boa parte da história, Kara é desenvolvida de maneira mais introspectiva, enfrentando seus conflitos internamente, enquanto Lobo chega ocupando espaço com uma energia impossível de ignorar. Aos poucos, o personagem deixa de ser apenas um coadjuvante marcante e passa a disputar o próprio protagonismo com a heroína que dá nome ao filme. É como um eclipse: sua presença é tão forte que acaba cobrindo justamente a personagem que deveria estar no centro, e essa acaba sendo uma das maiores fragilidades da produção.

E o antagonista dessa aventura espacial continua sendo um vilão completamente insípido, sem presença e genérico, que consegue algo quase impressionante: ser ainda menos interessante do que o vilão de “Superman” do ano passado. O filme flerta com temas como misoginia, controle e a transformação das mulheres em ferramentas para perpetuar uma estrutura de poder, mas nunca aprofunda essas ideias o suficiente para transformá-las em algo realmente consistente.

Krem, o antagonista interpretado por Matthias Schoenaerts, acaba reduzido a uma figura pífia, um vilão envolvido com tráfico e exploração sexual, que sequestra garotas para transformá-las em esposas e reduzi-las a peças dentro de uma estrutura de reprodução do próprio grupo. A premissa até carrega potencial para discutir misoginia, controle e a tentativa de apagar a autonomia feminina, mas o roteiro prefere tratar tudo de maneira superficial. Até mesmo a alusão à pedofilia é deixada de lado, desperdiçando um elemento que poderia aprofundar a ameaça representada pelo personagem e explorar motivações que realmente confrontassem Kara.

O problema se torna ainda mais evidente pela falta de desenvolvimento: Krem mal possui linhas de diálogo e é apresentado com um pretexto que parece prometer uma camada maior de complexidade, mas que nunca encontra consequência real dentro da trama. Ele existe apenas como mais um obstáculo para a heroína superar.

“Supergirl” está longe de ser genial ou de chegar perto de uma revolução do gênero. Nem tenta reinventar a fórmula dos super-heróis, mas o filme funciona dentro do que se propõe justamente porque sua heroína também está em construção, assim como o próprio universo que tenta representar. É um filme divertido, entrega entretenimento básico sem grandes ambições, mas não vai muito além disso. Ainda assim, a trilha sonora já faz o ingresso valer a pena.