Por Pedro Lima

Completando exatos 128 anos em 2026, o cinema nacional é motivo de imenso orgulho para os brasileiros. A trajetória do setor cinematográfico no Brasil representa, acima de tudo, o percurso de uma nação grandiosa, no qual as mais diferentes realidades se entrelaçam e tecem as memórias de um povo internacionalmente reconhecido por sua imensidão cultural.

Das filmagens realizadas pelo cineasta italiano Afonso Segreto, consideradas as primeiras ocorridas no Brasil, à repercussão global do longa “O Agente Secreto”, a filmografia nacional nunca deixou de ser um espaço voltado à provocação, ao confronto de ideias e, essencialmente, à concretização de um imaginário tão rico quanto o brasileiro. Mais do que uma manifestação artística, o cinema brasileiro incorpora um acervo imensurável de narrativas, personagens icônicos, linguagens, movimentos e vozes que são perpetuados a cada exibição.

Por isso, a fim de celebrar a trajetória de um povo que sempre se mostrou íntimo da sétima arte e do fazer cinematográfico, vale resgatar dez marcos proeminentes do cinema nacional ao longo dos anos.

O primeiro filme brasileiro

Em 19 de julho de 1898, o realizador ítalo-brasileiro Afonso Segreto filmou o que viria a ser considerado o marco inicial da cinematografia brasileira: ainda a bordo de um navio que o trazia da França, Afonso registrou imagens da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro.

No dia seguinte, o jornal “Gazeta de Notícias” publicou uma breve nota reconhecendo o feito do cinegrafista italiano, entendida como o único relato concreto existente acerca do filme, haja vista que as filmagens acabaram desaparecidas. A partir de então, historiadores passaram a considerar a data de realização das filmagens como o pontapé para o surgimento do cinema brasileiro, mais tarde celebrada como o Dia do Cinema Brasileiro.

Foto: Reprodução
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O longa brasileiro mais aclamado pela crítica internacional

“Cidade de Deus” (2002) é frequentemente citado como um dos longas-metragens mais influentes dos últimos tempos. Ambientada em uma das favelas mais perigosas do Rio de Janeiro, a trama acompanha o cotidiano de várias personagens inseridas em um contexto marcado pela marginalização e pelo fortalecimento do crime organizado, entrelaçando diferentes olhares, vivências e perspectivas acerca do mundo.

A obra de Fernando Meirelles tornou-se a produção audiovisual brasileira mais referenciada por veículos de cinema, críticos, cinéfilos e telespectadores do mundo todo, sendo o único filme nacional mencionado incansavelmente em listas da BBC, da “Sight & Sound” e do jornal “The New York Times”, que elegeu “Cidade de Deus” como o 15º melhor filme do século XXI. Além disso, ainda lidera rankings de avaliação de usuários em sites como o Letterboxd, uma das plataformas mais utilizadas pelo público consumidor de cinema.

Foto: Reprodução

O filme brasileiro mais premiado da história

Quando o filme “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, estreou nas premiações internacionais, a repercussão foi tamanha que parecia pouco provável para muitos brasileiros a repetição daquele feito em tão curto prazo. Afinal, tratava-se de um filme que havia conquistado mais de 60 prêmios, incluindo o primeiro Oscar de Melhor Filme Internacional concedido ao Brasil.

No entanto, em 2025, a estreia do longa “O Agente Secreto” resultou em quase 100 prêmios, tornando a obra de Kleber Mendonça Filho o filme brasileiro mais premiado da história. A trama, conduzida por uma performance potente de Wagner Moura e ambientada durante o período da ditadura militar, acompanha um ex-professor universitário e perseguido político que tenta recomeçar a vida escondendo sua verdadeira identidade.

As primeiras cineastas brasileiras: Cléo e Adélia

Em 1931, a atriz e cineasta Cléo de Verberena dirigiu o filme que viria a ser considerado o primeiro longa-metragem dirigido por uma mulher no Brasil, “O Mistério do Dominó Preto”. A obra, inspirada em uma novela de mesmo nome escrita por Martinho Corrêa, acompanha estudantes de medicina que, no quarto que dividem, deparam-se com o cadáver de uma mulher vestida com a fantasia de um dominó preto.

Mais tarde, em 1984, a cineasta Adélia Sampaio dirigiria o filme “Amor Maldito” e se tornaria a primeira mulher negra no Brasil a atingir esse feito. A trama, também a primeira do país a abordar um relacionamento lésbico como temática central, é centrada no romance proibido entre duas mulheres durante a ditadura militar, sendo uma delas acusada de assassinar a outra.

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Narrativas queer: as pioneiras

O ano de 1968 marcou a história do Brasil com a implantação do AI-5, um dos Atos Institucionais mais repressivos decretados durante a ditadura. Naquele mesmo ano, o cineasta Djalma Limongi Batista, aluno do curso de Audiovisual da USP, lançava o curta-metragem “Um Clássico, Dois em Casa, Nenhum Jogo Fora”. O filme, que narra a intensa relação desenvolvida por dois jovens universitários, é lembrado como um dos primeiros filmes brasileiros a tratar a homossexualidade de maneira mais direta, explícita e desestigmatizada.

Foto: Reprodução
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Além do curta, vale mencionar os filmes “Amor Maldito” (1984), considerado o primeiro longa brasileiro a ter um relacionamento lésbico como tema central; “A Rainha Diaba” (1974); e “Vera” (1984), ambos marcos do cinema queer nacional e da representatividade travesti e transmasculina, respectivamente. A personagem Lilica, integrante do grupo de jovens marginalizados retratado no filme “Pixote: A Lei do Mais Fraco” (1980), também é considerada uma das primeiras personagens travestis retratadas com relativa complexidade e humanidade no cinema brasileiro.

A maior bilheteria do Brasil

O filme “Minha Mãe É Uma Peça 3” é considerado o longa-metragem com a maior bilheteria da história brasileira, tendo arrecadado um total aproximado de R$ 170 milhões nos cinemas nacionais.

A icônica trilogia “Minha Mãe É Uma Peça” conquistou seu espaço no imaginário do público ao abordar a relação complexa de uma mãe com os filhos e consigo mesma, aliando humor e sensibilidade para representar os arquétipos da família brasileira. Eternizado na figura de sua própria mãe, o humorista Paulo Gustavo baseou-se em suas vivências familiares para escrever os enredos, incorporando uma singularidade mais do que característica ao universo dos filmes.

Oscar: a primeira estatueta recebida pelo Brasil

Mencionada anteriormente, a obra “Ainda Estou Aqui”, do diretor Walter Salles, foi o primeiro filme nacional a conquistar uma estatueta do Oscar e o segundo longa mais premiado da história brasileira, superado por seu sucessor, “O Agente Secreto”. Ao todo, foram mais de 60 prêmios reunidos, incluindo o Oscar de Melhor Filme Internacional.

“Alma no Olho” (1973): um filme que inaugurou um movimento

O Cinema Negro é um dos movimentos cinematográficos mais importantes da filmografia nacional. Fortalecido a partir da década de 1960, o cinema negro procurou consolidar um espaço de afirmação da negritude, rejeitando os estereótipos racistas que marcaram boa parte da história do cinema brasileiro e tecendo narrativas a partir de perspectivas afrodescendentes.

“Alma no Olho” (1973), de Zózimo Bulbul, é amplamente considerado o marco inaugural do Cinema Negro Brasileiro. O filme ficou conhecido por apresentar uma perspectiva negra autônoma e destoante das representações racistas que dominavam o cinema até aquele momento, propondo um diálogo aprofundado entre identidade, memória e ancestralidade.

Festival de Cannes: a primeira Palma de Ouro do Brasil

O filme “O Pagador de Promessas” (1962), de Anselmo Duarte, foi o primeiro longa-metragem brasileiro a conquistar a Palma de Ouro, prêmio de maior prestígio do Festival de Cannes. Curiosamente, essa foi a única Palma de Ouro concedida a um filme brasileiro em toda a história, ainda que tenha sido seguida por 37 indicações posteriores.

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A primeira animação

Em 22 de janeiro de 1917, estreou nos cinemas brasileiros o curta-metragem “O Kaiser”, uma charge animada que ilustrava o imperador alemão Guilherme II sendo engolido pelo globo terrestre. O filme, realizado pelo cartunista Álvaro Martins (conhecido pelo pseudônimo de Seth), fazia clara alusão ao contexto geopolítico da época, na medida em que satirizava os desejos expansionistas de uma Alemanha fragilizada pela Primeira Guerra Mundial.

Infelizmente, o filme está desaparecido e tem como único registro um fotograma.

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