Por Raven Küch

Lançado em 2025, “Nó” é o projeto de longa-metragem da diretora e roteirista Laís Melo. A obra constrói uma experiência cinematográfica contemporânea que se organiza pela materialização de um estado – a exaustão –, ao acompanhar o cotidiano de Glória (Patrícia Saravy), uma mulher recém-divorciada que se divide entre as demandas inegociáveis da maternidade e de seu trabalho em período integral. Durante todo o trajeto de desenvolvimento da história, a diretora situa o foco da narrativa para adentrar um campo sensorial e afetivo, onde elabora uma representação crua do desgaste físico e emocional de Glória.

A exaustão, aqui, não é uma exclusividade do “clímax”, tampouco pautada em eventos específicos. É uma condição contínua e volátil. Isso, por sua vez, se aproxima do que Gilles Deleuze define como “imagem-tempo”: um regime cinematográfico no qual a ação deixa de organizar o encadeamento das cenas, cedendo lugar à duração, à repetição e à suspensão. Desse modo, os planos longos empregados, junto ao ritmo lento, levam o telespectador a uma temporalidade dilatada que reproduz, de maneira palpável, a sensação de pré-perda de controle e de cansaço iminente vivida pela protagonista.

Essa lógica temporal se evidencia na construção espacial do filme. Os ambientes domésticos e de trabalho são enquadrados dentro de limitações visuais, por meio de enquadramentos fechados, que reproduzem esses espaços como claustrofóbicos e de compressão. Isso reverbera duramente na psique de Glória, como se fosse uma extensão de seu estado mental. O lar não é um refúgio natural, é apenas um local de permanência, não de acolhimento.

O desenho sonoro reforça essa proposta ao recusar uma trilha sonora própria. A aposta paira na amplificação dos ruídos cotidianos, como sons ambientes, vozes sobrepostas e o silêncio, que não trata de pausa, e sim de auxiliar na pressão sensorial.

No centro de tudo isso está o corpo feminino atravessado por demandas simultâneas e ininterruptas. “Nó” não idealiza a maternidade. A experiência de Glória é de pura sobrecarga e tensão, entre autonomia e responsabilidade. É como uma violência silenciosa, marcada pela impossibilidade de suspensão, já que a rotina não permite interromper o fluxo de suas obrigações. A aparente autonomia dela é constantemente revista por condições que a limitam, sugerindo que a sua liberdade atua dentro de um campo restrito, moldado por expectativas sociais. O corpo de Glória torna-se, então, o lugar onde essas forças comungam.

Entretanto, essa proposta coloca o filme em um limite delicado, pois corre o risco de produzir não apenas imersão, mas fadiga. Toda a execução é bastante coerente com a ideia, porém a constante repetição do cerne pode reduzir e enfraquecer a articulação dos conflitos, convertendo-se em monotonia. Corajosamente, a diretora Laís entrega essa decisão aos receptores, sem subestimar o olhar daquelas e daqueles que decidem acessar a sua obra.

Ainda assim, “Nó” se afirma pela consistência de sua linguagem. Não vai resolver explicitamente as tensões que aborda, mas mantê-las em circulação para escrever a “exaustão” na imagem, no som e no tempo. Sua força está em fazer o esgotamento atravessar o telespectador, ainda que implique desconforto, resistência ou mesmo rejeição.

Laís Melo faz um cinema de experiência e contemplação, definido pelo que entrega e sustenta, tanto em seu limite quanto em sua potência.

Texto realizado na disciplina de Teorias do Audiovisual, do curso de Cinema e Mídias Digitais da Unochapecó.