Por Nathalia Medina – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

Assistir a um jogo da Copa do Mundo, especialmente um confronto tão simbólico quanto Brasil e Haiti, ganha um significado muito mais profundo no Alto do Pascoal, periferia do bairro de Água Fria, na Zona Norte do Recife. Acompanhar as crianças do projeto Juntando as Sílabas durante a partida é testemunhar o futebol operando como uma poderosa ferramenta de resgate educacional e social.

Copa do Mundo tem a magia única de paralisar o tempo e criar uma atmosfera de esperança. Quando o projeto canaliza essa energia para dentro do ambiente de acolhimento, o campeonato vira um cenário vivo de aprendizado. Essa vivência vai muito além dos 90 minutos em campo: trata-se de construir memórias afetivas ricas e inesquecíveis, daquelas que marcam a infância na comunidade e mostram a essas crianças que elas têm o direito de torcer, de sonhar alto e de ocupar o mundo. É a certeza de que a alfabetização e o afeto caminham juntos, e que cada gol pode ser o empurrão que faltava para eles juntarem as primeiras sílabas de seus próprios futuros.

FOTO: Nathalia Medina 

O clima na comunidade: Brasil x Haiti

Acompanhar a partida ao lado das crianças do Juntando as Sílabas foi uma experiência de pura eletricidade e afeto. Do primeiro ao último minuto, a energia tomou conta da sala de uma forma indescritível. Vestidos com a camisa da Seleção, os pequenos viviam o jogo em uma intensidade máxima, divididos entre os gritos pelos seus jogadores favoritos, a revolta com um lance perdido por Raphinha e a frustração coletiva a cada gol anulado por impedimento. Mas nada superava o momento da bola na rede: a explosão de alegria nos gols de Vinícius Júnior e Matheus Cunha fez o chão do projeto tremer, uma vibração que se multiplicou quando o garoto Endrick pisou no gramado.

Testemunhar essa catarse vai muito além de registrar a crônica de um jogo de futebol. Trata-se de enxergar o poder de um projeto que gera sensação de pertencimento, que ensina a essas crianças o direito de vibrar e de se sentirem parte do país e da própria comunidade. Daqui a quatro anos, quando a próxima Copa do Mundo chegar, os que hoje têm 13 ou 14 anos estarão à porta da maioridade. A memória afetiva que eles carregarão para o resto da vida será a de que, em 2026, eles estavam ali, acolhidos, descobrindo o mundo, aprendendo a juntar as primeiras sílabas e assistindo à história acontecer juntos. O Juntando as Sílabas mostra a cada um deles que eles podem ser exatamente o que quiserem na vida.

FOTO: Nathalia Medina 

A mente por trás do sonho

Por trás dessa transformação diária está Paloma Galvão, de 31 anos. Moradora do próprio Alto do Pascoal, Paloma é formada em Direito, educadora social e transformou a indignação com as desigualdades na fundação do Juntando as Sílabas, onde atua como diretora. Em entrevista exclusiva para a nossa cobertura, ela detalhou o que projeta para os próximos passos dessa caminhada na periferia:

“O que eu desejo para o futuro do Juntando as Sílabas é que o projeto continue crescendo e transformando vidas. Quando falo em crescimento, não me refiro apenas à estrutura física, mas principalmente à capacidade de alcançar cada vez mais crianças que precisam de apoio, acolhimento e oportunidades.”

FOTO: Amanda Henrique 

Resistência e Rede de Apoio

Como grande parte das iniciativas independentes nas periferias do Brasil, o projeto enfrenta desafios diários de orçamento e estrutura para se manter de portas abertas. Paloma reforça que a continuidade desse trabalho depende diretamente de um olhar mais atento e sensível da sociedade, de empresas e de instituições privadas.

“Se hoje o projeto persiste e resiste diante de tantos desafios, é graças às pessoas que caminham ao nosso lado, acreditam no nosso propósito e contribuem para que esse trabalho continue acontecendo. Meu desejo é ampliar essa rede de apoio, para que possamos fortalecer nossas ações, alcançar mais crianças e garantir a continuidade de um projeto que nasceu do sonho de transformar realidades e que, todos os dias, segue construindo oportunidades dentro da periferia”, conclui a fundadora.

Toda essa engrenagem de sonhos e cidadania só se tornou realidade graças ao carinho, à dedicação e ao trabalho incansável de Paloma, Pamela, Dinha e de toda a equipe do projeto, que uniram forças nos bastidores para fazer aquele dia acontecer de forma absolutamente impecável e inesquecível

Foto: Cynthia Lúcia

O placar do futuro

Diante de realidades tantas vezes marcadas pela ausência de oportunidades, o que o Juntando as Sílabas faz dentro do Alto do Pascoal é subverter as estatísticas através do afeto. O apito final da partida contra o Haiti pode ter encerrado o jogo no campo, mas o verdadeiro campeonato daquelas crianças está apenas começando nas salas de aula do projeto. Entre letras, fonemas, gritos de gol e o acolhimento de uma equipe obstinada, a periferia do Recife mostra que o futebol é, fundamentalmente, um idioma universal de esperança. Se depender da energia que vibrou naquele espaço, o futuro dessas crianças já começou a ser escrito, e com as melhores sílabas possíveis

Como ajudar o Juntando as Sílabas?

Para conhecer mais sobre o trabalho, se voluntariar ou se tornar um parceiro do projeto no Alto do Pascoal (Recife), entre em contato através das redes sociais oficiais do projeto em Juntando As Sílabas.