Gana e Inglaterra revivem na Copa as marcas de um passado colonial
Não é só talento e disputa de bola, as relações históricas também estarão em campo durante o duelo entre os dois países
Por Lucas Farias – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Colônia britânica até 1957, Gana era conhecida como Costa do Ouro pelos europeus devido à abundância deste recurso natural, que foi alvo de intensa exploração por companhias ligadas ao Império Britânico, como a United African Company. O domínio britânico na região se consolidou após a Conferência de Berlim (1884-1885), que regulamentou a partilha do continente africano entre as potências europeias.

Após a Segunda Guerra Mundial, com o enfraquecimento econômico e militar das metrópoles europeias e a consolidação do princípio de autodeterminação dos povos na Organização das Nações Unidas (ONU), diversas nações africanas passaram a lutar por sua soberania. Em Gana, esse processo foi liderado pelo intelectual e político socialista Kwame Nkrumah, que defendia que “o homem negro é capaz de gerir seus próprios assuntos”.
A independência ganesa, conquistada em 1957, não foi vista apenas como uma vitória nacional, mas como um marco para os movimentos de libertação de todo o continente africano. É nesse contexto que surge a estrela negra e o apelido da seleção ganesa: as “Black Stars”. O símbolo representa a resistência política e a emancipação diante do domínio colonial britânico. Quando o país se tornou a primeira colônia da África Subsaariana a conquistar sua independência, a Estrela Negra passou a integrar a bandeira nacional como representação da liberdade africana e da afirmação do povo ganês.
Apesar dos símbolos de soberania construídos após a independência, a relação entre Inglaterra e Gana ainda é atravessada por tensões históricas. Mesmo após a autonomia política, o país enfrentou ciclos de dependência econômica, incluindo crises relacionadas a dívidas externas e acordos com instituições financeiras internacionais, fenômeno que Nkrumah já apontava em suas críticas ao neocolonialismo.

Essa complexidade também aparece dentro de campo. Atualmente, diversos jogadores possuem múltiplas identidades nacionais, e confrontos como esse colocam em evidência debates sobre pertencimento, nacionalidade e representatividade em sociedades marcadas pela diáspora africana. Jogadores como Danny Welbeck, Callum Hudson-Odoi, Eddie Nketiah e Kobbie Mainoo exemplificam essa relação entre história, migração e futebol.
O confronto entre as duas seleções será mais do que uma disputa pela classificação. Para muitos ganeses, o duelo carrega um peso histórico, em que o país busca reafirmar sua identidade e sua voz diante de uma antiga potência colonial.
Gana e Inglaterra irão duelar, nesta terça-feira (23), em partida válida pela segunda rodada da fase de grupos da Copa do Mundo de 2026, em um confronto que vai muito além das quatro linhas. O jogo não marcará apenas a possibilidade de classificação de uma das duas seleções para a próxima fase do torneio, mas também o reencontro entre uma antiga metrópole e a primeira colônia da África Subsaariana a conquistar sua independência.



