Por Larissa Cristovão – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

“Fala o que é impedimento.” “Escala o seu time.” “Você só conhece o Neymar.”

A cada Copa do Mundo, esse tipo de conteúdo volta a circular nas redes sociais. Vídeos em que mulheres são questionadas sobre regras do futebol, memes ironizando torcedoras e comentários que colocam em dúvida seu conhecimento sobre o esporte acumulam milhões de visualizações e compartilhamentos. Embora apareçam como brincadeira, esses conteúdos levantam uma discussão sobre por que, ainda hoje, as mulheres costumam ser o principal alvo desse tipo de humor.

Para a psicóloga Ludmila Lins, esse fenômeno está ligado a uma mudança social ainda em andamento. Segundo ela, a presença feminina em espaços historicamente associados aos homens aumentou, mas ainda desperta resistência.

“A sociedade não estava acostumada a ver mulheres ocupando lugares que tradicionalmente eram vistos como masculinos. Quando isso acontece, algumas pessoas estranham essa mudança e acabam reagindo por meio de críticas ou piadas”, explica.

A relação entre mulheres e futebol, no entanto, vai muito além dos memes. Durante décadas, elas sequer puderam praticar oficialmente o esporte no Brasil. Em 1941, um decreto assinado pelo então presidente Getúlio Vargas determinou que mulheres não poderiam praticar modalidades consideradas “incompatíveis com a sua natureza”. O futebol estava entre elas. A proibição só foi revogada em 1979, e a modalidade foi regulamentada oficialmente no país apenas em 1983.

Mesmo após o fim da proibição, a presença feminina no futebol continuou limitada por barreiras culturais. Hoje, embora o cenário seja diferente, os números mostram que a desigualdade ainda existe, mas também revelam um crescimento da participação das mulheres no esporte.

Uma pesquisa do Ipsos-Ipec, divulgada em 2025, mostra que elas representam uma parcela significativa das torcidas dos principais clubes do país. Entre os flamenguistas, 48% são mulheres; no São Paulo, elas correspondem a 45% da torcida; e, no Corinthians, 43%. Apesar disso, o percentual de mulheres entre os programas de sócio-torcedor ainda varia entre 10% e 15%, indicando que a participação feminina continua enfrentando barreiras em diferentes espaços do futebol.

Na Copa do Mundo de 2026, apenas seis dos 170 árbitros e assistentes convocados pela FIFA são mulheres, cerca de 3,5% do total. Nenhuma delas é negra. Em 2022, a francesa Stéphanie Frappart entrou para a história ao se tornar a primeira mulher a apitar uma partida masculina de Copa do Mundo, auxiliada pela brasileira Neuza Back e pela mexicana Karen Díaz Medina. Nesta edição, a norte-americana Tori Penso também alcançou um marco ao comandar uma partida masculina do torneio.

Foto: Reprodução / renatasilveirag / anathaismatos

A mudança também chegou às transmissões esportivas. Em 2022, Renata Silveira tornou-se a primeira mulher a narrar um jogo de Copa do Mundo na televisão aberta brasileira. Em 2026, passou a ser também a primeira narradora a comandar uma transmissão diretamente dos estádios do Mundial. Já Ana Thaís Matos foi a primeira mulher a comentar um jogo da Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo masculina na TV Globo.

Para Ludmila, justamente por essa presença feminina estar cada vez mais evidente, as reações também se tornam mais frequentes.

“Hoje nós vemos mulheres comentando jogos, produzindo conteúdo sobre futebol e ocupando espaços que antes praticamente não existiam para elas. Como isso ganha visibilidade durante grandes eventos, essas reações também acabam aparecendo com mais força”, afirma.

Foto: Arquivo Pessoal Ludmila Lins

Segundo a psicóloga, o futebol foi culturalmente associado aos homens durante décadas, o que faz com que muitas mulheres ainda sintam a necessidade de provar que entendem do esporte.

“Isso vem de um estereótipo atribuído ao gênero masculino. Como o futebol ficou culturalmente associado aos homens, acaba sendo mais aceitável quando eles demonstram interesse pelo esporte. Já as mulheres, muitas vezes, sentem que precisam justificar esse interesse.”

Na avaliação da especialista, a repetição desses memes também contribui para naturalizar esse comportamento. Quanto mais esse tipo de conteúdo circula nas redes sociais, em conversas e em diferentes ambientes, maior é a tendência de ele ser percebido como algo comum.

“Quando isso é repetido nas redes sociais, em conversas e em diferentes ambientes, acaba se tornando algo naturalizado para muitas pessoas”, observa.

Essa percepção dialoga com pesquisas acadêmicas sobre o papel do humor. Em artigo publicado pelo Jornal da USP, a doutoranda em Psicologia Natália Gallo afirma que piadas podem funcionar como uma forma mais sutil de violência ao fazer com que discursos machistas, misóginos, racistas ou LGBTfóbicos sejam percebidos apenas como brincadeiras. Segundo a pesquisadora, o humor pode atuar como uma espécie de “proteção discursiva”, reduzindo a rejeição social a conteúdos discriminatórios.

Ludmila ressalta, porém, que não existe uma explicação única para o fato de as pessoas rirem ou compartilharem conteúdos que expõem alguém ao constrangimento, já que cada situação deve ser analisada individualmente. Ainda assim, ela afirma que, em alguns casos, quem ri ou compartilha esse tipo de conteúdo pode estar se identificando com a situação vivida pela outra pessoa, mesmo sem perceber.

Para a psicóloga, reduzir esse tipo de comportamento passa por romper com a ideia de que existem espaços exclusivos para homens ou mulheres.

“Não existe lugar de homem ou lugar de mulher. Quanto mais as pessoas compreenderem que todos podem ocupar os espaços com os quais se identificam, menor será o sofrimento causado por essas divisões e maior será a aceitação das diferenças”, conclui.