Torcer é um ato político: identidade, resistência e pertencimento nas arquibancadas
O futebol se transforma em espaços de pertencimento, disputa simbólica e expressão política
Por Janaina Coutinho – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Vestidas como homens, escondendo os cabelos e tentando não chamar atenção, cinco adolescentes desafiam a vigilância policial e caminham em direção ao estádio Azadi, em Teerã. Elas queriam realizar um desejo aparentemente simples: assistir a uma partida de futebol que poderia levar o Irã à Copa do Mundo, em 2006.
Para elas, torcer era também desafiar uma proibição. Em Fora de Jogo (2006), o diretor Jafar Panahi encontrou na partida uma narrativa para denunciar as injustiças vividas pelas mulheres em seu país, assim como diversos torcedores utilizam as arquibancadas para encontrar visibilidade para pautas sociais, políticas e culturais.
A luta retratada por Panahi não pertence apenas ao Irã de 2006. Duas décadas depois, as arquibancadas continuam sendo espaços de disputa simbólica.
Um exemplo recente ocorreu na Copa do Catar, em 2022, quando jogadores da Inglaterra se ajoelharam antes das partidas em protesto contra o racismo. O gesto foi adotado em diversos campeonatos ao redor do mundo como protesto ao assassinato de George Floyd, sufocado por um policial nos Estados Unidos, em maio de 2020. O ato transformou o gramado em espaço de manifestação política e reforçou campanhas globais por igualdade racial.
As arquibancadas também se tornaram palco de disputas em torno dos direitos LGBTQIAPN+. No Catar, bandeiras arco-íris, camisetas, braçadeiras e outros símbolos de apoio à diversidade foram restringidos nos estádios. Torcedores e jornalistas foram pressionados a esconder qualquer manifestação ligada à causa. O caso do norte-americano Brian Davis, retirado da arquibancada do estádio Al Thumama por usar uma braçadeira com as cores do arco-íris, tornou-se um dos episódios mais emblemáticos do torneio. Em um contexto de restrições e vigilância, a exibição desses símbolos ultrapassou o campo da torcida e se transformou em uma forma de resistência. As tentativas de limitar essas manifestações acabaram ampliando o debate global sobre diversidade, liberdade de expressão e direitos humanos no futebol.
Bandeiras, faixas, camisetas, pinturas corporais, cantos e até silêncios revelam que os torcedores não chegam aos estádios apenas para apoiar as seleções. Eles levam reivindicações, memórias, causas e posicionamentos que transformam as arquibancadas em um retrato das tensões e debates contemporâneos.
Essa capacidade do futebol de reunir disputas simbólicas e identidades coletivas ajuda a explicar por que tantos pesquisadores enxergam a Copa como algo que vai além do esporte.
Quando o futebol explica a sociedade
Na década de 1920, o antropólogo francês Marcel Mauss criou o conceito de “fato social total” para definir um evento em que, de uma vez, expressa todos os principais elementos de uma sociedade: poder, economia, política, religião e guerra.
O antropólogo Édison Gastaldo, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, que há quase 20 anos estuda a relação entre o evento e a sociedade brasileira, conclui: “Uma partida de futebol da Seleção Brasileira na Copa do Mundo é o que se pode chamar de fato social total.”
A relação entre futebol e identidade é tema de estudo do antropólogo Arlei Sander Damo, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em suas pesquisas sobre torcidas e pertencimento, Damo mostra que o futebol é um espaço onde identidades são construídas, expressas e negociadas coletivamente.
Embora a FIFA e outras entidades esportivas defendam a neutralidade política dentro das competições, a história das Copas do Mundo mostra que esporte e política frequentemente se cruzam. Movimentos sociais encontram na Copa uma oportunidade para dar visibilidade para pautas que dificilmente alcançariam a mesma audiência.
Assim como as jovens retratadas por Panahi desafiaram uma proibição para ocupar as arquibancadas, milhares de histórias acontecem no ambiente esportivo. Entre cantos, bandeiras e manifestações, a torcida revela que a Copa não é feita apenas de futebol. Ela também é um espaço onde identidades são afirmadas, direitos são reivindicados e diferentes formas de existir encontram visibilidade diante de uma audiência global.
*Com informações de cienciahoje.org.br



