Por Marília Monteiro – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

Entre conflitos armados, sanções internacionais e décadas de instabilidade, o Iraque volta a escrever um capítulo histórico em sua trajetória esportiva. Conhecida como “Leões da Mesopotâmia”, a seleção iraquiana assegurou seu retorno à Copa do Mundo após quase 40 anos de ausência, reconquistando espaço entre as principais nações do futebol mundial. O México, palco de sua única participação no torneio até então, permanece como um símbolo marcante dessa história. Foi no Mundial de 1986 que os iraquianos fizeram sua estreia na competição.

A primeira participação do Iraque em um Mundial aconteceu em um contexto delicado para o país. Em 1986, a nação ainda vivia os impactos da Guerra Irã-Iraque, entre 1980 e 1988, um dos conflitos mais longos e devastadores do Oriente Médio no século XX. O confronto foi resultado do agravamento das tensões políticas, religiosas e territoriais entre os dois países após a Revolução Islâmica de 1979. Governado por Saddam Hussein, o país do Oriente Médio via com preocupação o fortalecimento do regime xiita iraniano e temia que seus efeitos desencadeassem revoltas internas. As disputas pelo controle do rio Shatt al-Arab e interesses estratégicos na região contribuíram para a escalada do conflito, que teve início em 1980 com a invasão iraquiana ao território vizinho.

A guerra se prolongou por oito anos, chegando ao fim em 1988 sem alterações significativas nas fronteiras entre os dois países. Desgastados por um conflito prolongado que devastou suas economias, Irã e Iraque aceitaram um cessar-fogo mediado pela Organização das Nações Unidas (ONU), restabelecendo os termos do Acordo de Argel de 1975. Estima-se que centenas de milhares de pessoas tenham sido vítimas ao longo da guerra, que deixou profundas consequências econômicas e sociais para ambos os países. Mesmo diante desse cenário, a classificação para a Copa do Mundo de 1986 representou um raro momento de celebração e unidade nacional para os iraquianos, oferecendo à população um símbolo de esperança em meio às dificuldades enfrentadas pelo país.     

Foto: Schlage/ullstein bild via Getty Images 

Diante desse cenário de instabilidade, Uday Hussein, filho de Saddam Hussein, assumiu o comando da Federação Iraquiana de Futebol e do Comitê Olímpico do Iraque, em 1987. O período ficou marcado por denúncias de ameaças, perseguições e torturas contra atletas e membros de comissões técnicas, refletindo o contexto político e social vivido pelo país naquele período. Durante anos, a seleção iraquiana teve que mandar seus jogos para fora do país devido a restrições de segurança impostas pela FIFA. Eliminatórias e amistosos foram disputados em nações vizinhas, afastando a equipe de sua torcida. Apenas em 2020, com a liberação da cidade de Basra para receber partidas internacionais, o Iraque voltou a atuar oficialmente no território, encerrando um longo período de exílio esportivo.  

O retorno ao Mundial representa a culminação de uma longa caminhada marcada por desafios dentro e fora dos gramados.  Apesar de campanhas expressivas em torneios asiáticos e do histórico quarto lugar conquistado nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, a vaga para a Copa do Mundo escapou repetidamente ao longo dos anos. A classificação para 2026, portanto, vai além do aspecto esportivo e simboliza a resiliência de uma seleção e de uma nação que, apesar de décadas marcadas por conflitos, instabilidade e desafios, mantiveram vivo o sonho de retornar ao maior palco do futebol mundial.  

Quase quatro décadas após sua única participação em Copas do Mundo, o Iraque celebra um novo capítulo de sua história. A sombra da geração de 1986, liderada por Ahmed Radhi e Hussein Saeed, dá lugar a uma nova safra de talentos, com nomes como Amir Al-Ammari e Aymen Hussein, responsáveis por conduzir os Leões da Mesopotâmia de volta ao torneio. A classificação foi confirmada em território mexicano, durante a repescagem intercontinental disputada em Monterrey, reforçando o simbolismo de um retorno que conecta passado e presente. 

Na Copa do Mundo da FIFA 2026, o Iraque integrará o Grupo I ao lado da França, Senegal e Noruega. Mais do que buscar resultados em campo, a seleção carrega consigo uma trajetória marcada por superação, tornando seu retorno uma das histórias mais emblemáticas desta edição Mundial.