A Quimera e o horror que vive dentro de casa

O horror da América Latina tem endereço. Ele conhece o nome das ruas.

Conheci Cristhiano Aguiar em 2024, quando cobria a Feira do Livro em São Paulo. Conheci pessoalmente, digo. Porque eu tinha lido Gótico Nordestino (Editora Alfaguara) e depois começado a ler sua newsletter, Linguagem Guilhotina, então, foi assim que eu o conheci na verdade. 

Chamei ele pra uma conversa. Falamos sobre ser literatura, sobre a separação (ou não) entre autor e obra, sobre educação e sobre os começos da escrita. 

Este ano, eu voltei a cobrir a Feira. Quando vi o nome dele na programação, mandei mensagem na hora: se eu for, a gente reedita. Ele topou.

Na programação, pude ouvi-lo falar com mais fôlego sobre o que vem construindo como escritor: os contornos de um horror que não tem castelo, não tem névoa inglesa, não tem Edgar Allan Poe como referência primeira. Um horror que mora em nós, que cresce no calor úmido, que conhece o cheiro do mato e o Cariri Paraibano.

Refazer aquele encontro de 2024 me pareceu muito importante, porque de lá pra cá, muita coisa rolou: a gente na Feira em posições diferentes, memes trocados, e até livro novo vindo aí.

As mesas que assisti me despertaram muita vontade de falar mais de terror. É um gênero que gosto, mas a forma como ele foi abordado nesta Feira, fez toda a diferença e sentido. Conheci novos autores, referências e pudemos debater o insólito a partir da América Latina.

O insólito tem sangue latino

Eu venho sentindo nos últimos anos, um aumento do público leitor brasileiro que não necessariamente consumia literatura fantástica ou de horror, e que começou a chegar a esse território, mas por uma porta diferente. Não pela literatura de língua inglesa, mas pelas autorias do sul global: Mariana Enriquez, Samantha Schweblin, Mónica Ojeda. Eu li as 3 e percebi que elas eram bem referenciadas.

Para Cristhiano, isso não é coincidência. É um sintoma.

“É muito sintomático que nessa pergunta você tenha citado a Mariana Enriquez, a Schweblin, ambas argentinas, e a Mónica Ojeda, equatoriana. É muito legal ver que o público leitor brasileiro está chegando ao fantástico não através de nomes do mercado anglófono, mas sim do sul global.”

Um dos motores deste movimento, segundo ele, é a consolidação da autoria feminina na literatura contemporânea latinoamericana. As mulheres sempre escreveram, sempre criaram, mas nem sempre tiveram as condições históricas e sociais para publicar. O que muda agora é que estamos lendo mais mulheres, estudando mais mulheres, falando mais sobre a literatura escrita por mulheres. E o fantástico veio a reboque.

“A gente não está lendo apenas as mulheres que escrevem obras calcadas em dramas realistas. A gente também está lendo as mulheres que, em maior ou menor grau, dialogam com as várias estéticas da literatura fantástica, com as várias estéticas do insólito.”

Tivemos Pillar Quintana na Feira. Ela fala de violência contra a mulher de um jeito que eu acho peculiar, e que me conecta muito com o horror das outras 3 mulheres que citei. Ela é colombiana e é muito interessante como isso se liga ao horror de autoria feminina contemporânea. O gênero se torna instrumento poético para pensar a condição da mulher na América Latina. O corpo, o desejo, os traumas familiares. O medo como linguagem política.

Em uma das mesas mais legais, Cristhiano conversou com Verena Cavalcante e André Balbo (escrevi sobre isso aqui) e ali surgiu algo que explodiu minha cabeça: o horror tropical. Uma estética que não busca suas referências no frio europeu, nos casarões ingleses, nas brumas do Romantismo. Ela busca o medo onde ele realmente vive: no calor que não passa, no realismo mágico que habita nossas casas desde sempre, nos traumas coletivos da colonização e das ditaduras latinoamericanas. Nossas infâncias e influências tem igreja, simpatia, benzedeira, caipirinha, oração, loira do banheiro, militares, colonizadores.

O horror da América Latina tem endereço. Ele conhece o nome das ruas.

Faz sentido, então, que góticos nordestinos dancem forró? Cristhiano me contou que fez uma promessa para 2026: aprender a dançar. Ouviu Juliette com gosto, descobriu o disco Até cansar o cansaço, de Juliana Linhares. Em 2024, quando nos encontramos pela primeira vez, ele me disse que ouvia Ivete Sangalo. Há uma coerência nisso que não é acidental: as referências que alimentam a escrita não estão separadas das que animam o corpo. O horror tropical bebe da mesma fonte que o forró, da alegria que carrega luto, da festa que não esquece a dor.

E esse horror ganha ainda mais sentido quando pensamos no trauma como fio condutor. O que conecta grande parte da produção fantástica e de horror do continente é a experiência compartilhada de violência histórica, autoritarismo, apagamentos. O sobrenatural, aqui, não é evasão da realidade. É outra forma de nomeá-la.

Sobre o papel da literatura diante de tantos traumas coletivos, Cristhiano é preciso: ela pode muita coisa, mas tem limites que precisam ser ditos.

“A literatura, ou a arte, ela nunca vai ser um substituto para a política. Ela nunca vai ser um substituto para a ação coletiva de transformação social. Isso vem através da política pública.”

Mas aliada, sim. Uma aliada poderosa.

“A literatura é um meio potencial de construção de empatia. Um palco para que vozes menos ouvidas se façam ouvir. Ela tem um grande caráter de questionamento sobre as verdades instituídas, um olhar para as contradições da própria política que às vezes a política não consegue enxergar plenamente.”

Isso vale para contradições de todos os lados. E vale especialmente para um Brasil que, segundo ele, acumula traumas que se sobrepõem: a lógica escravista como estrutura fundante, o genocídio de povos originários na origem dos estados nacionais latinoamericanos, os regimes de exceção que atravessam a história do continente.

“A gente tem uma disputa de narrativas na política hoje, uma disputa de imaginários. E a boa literatura entra com bravura nesse campo e mostra para onde esses imaginários podem ir.”

Não necessariamente de forma explícita. Às vezes, quando a literatura é mais metafórica, é que ela está atuando com mais força.

Eu senti também na Feira que a morte e o luto estavam mais presentes. Indaguei Cristhiano sobre isso, e ele foi cuidadoso: não é causa, é sintoma. A pandemia de covid-19 funcionou como um espelho que a gente não pediu para encarar.

“Eu acho que existem momentos, guerras, crises sanitárias, acidentes ecológicos, em que a fragilidade da vida e a condição mortal de todos nós se torna mais explícita, mais visível.”

Ele fala com a memória de quem viveu isso de perto. Seus pais tinham condições que os colocavam em grupo de risco. Quando ele próprio pegou covid, ainda sem vacina disponível, monitorava dia a dia se surgiria alguma complicação respiratória. “Cada dia era um dia”, ele disse.

E havia outro peso além do sanitário. O país tinha elegido Bolsonaro.

“Não há meias palavras para dizer isso. Uma extrema direita, saudosa de uma ditadura militar, vai ao poder e fez o que fez. Isso traz sofrimento psíquico, não só para quem se opôs a essa extrema direita, mas para quem faz parte dela também.”

A pandemia, o negacionismo, o luto sem ritual, a ansiedade coletiva. Tudo isso, na leitura de Cristhiano, confluiu para uma reaproximação com o mundo psi, com a psicanálise, com as questões do luto e da mortalidade que a vida cotidiana normalmente nos convida a empurrar para o fundo. A literatura de horror e o insólito encontraram um terreno fértil nesse estado de espírito.

Fomos empurrados, por condições alheias à nossa vontade, a encarar o espelho sombrio da morte de uma maneira mais direta. Talvez o horror contemporâneo seja, entre outras coisas, uma forma de processar isso.

Eu quis também retomar um pouco o que falamos em 2024. Ali, havia um pouco da atmosfera do ser literatura. Eu usei Baldwin como exemplo, lido como escritor e militante, ainda que não necessariamente quisesse esse rótulo. Cristhiano me disse que ele não podia se colocar nas caixas professor, escritor, crítico, militante da ficção, mas entender que isso é um corredor, por onde ele transita. E aqui ele se manteve firme: sou literatura.

“Essa doação da minha vida para a literatura, essa paixão e esse pulso de vida que converge muito para a literatura tem sempre me trazido coisas muito bonitas.”

Cristhiano lançou em 2025 um livro de ensaios acadêmicos sobre literatura brasileira (Tanto Oceano, Tanta Solidão – Editora Abeto), focado em ficção, vinculado à sua prática como professor na Universidade Mackenzie. E agora atravessa o que ele mesmo chama de “entressafra”: a lagoa da poética está enchendo, ainda não transbordou. 

“Quando ela transborda, aí a escrita começa a acontecer.” 

Me lembro de perguntar se além dos contos, ele não tinha vontade de escrever romances.

Essa hora chegou: A Quimera, primeiro romance de Cristhiano, que será publicado pelo selo Alfaguara, da Companhia das Letras, em fevereiro de 2027.

A Quimera mistura realismo mágico, horror e ficção especulativa. Metade da narrativa se passa no Recife; a outra metade, na região do Cariri paraibano. A história gira em torno de um acidente ecológico envolvendo uma instalação civil-militar que realizava experimentos com fungos. O romance acompanha as consequências do desastre para a Paraíba e para a vida de quatro personagens: uma cientista, uma guia turística, uma servidora pública e um professor de língua portuguesa e literatura.

Essa informação eu ganhei em primeira mão e conquistei com base em muita mensagem no direct conversando sobre assuntos não literários. Acho que esse corredor entre a comunicadora, o escritor, o gótico, a leitora, a palmeirense, o cara que não curte futebol mas vai ver uns jogos na Copa, levou a gente pra um caminho muito legal.

Foto: Isis Maria/ Mídia NINJA