Quem cuida da Copa enquanto ninguém está assistindo?
Dos hotéis aos estádios, trabalhadores invisíveis sustentam o maior espetáculo do futebol
Por João Victor Martins – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Quando a bola rola, os olhos do mundo se voltam para o gramado. Craques, gols, comemorações e recordes dominam as transmissões. Mas, antes do apito inicial e depois que as arquibancadas se esvaziam, existe outra Copa do Mundo acontecendo longe das câmeras.
Quem limpa os banheiros dos estádios? Quem recolhe toneladas de lixo após os jogos? Quem prepara refeições, organiza os quartos dos hotéis, dirige ônibus, monta estruturas temporárias e garante que milhões de pessoas circulem com segurança?
A Copa do Mundo de 2026, que será disputada nos Estados Unidos, Canadá e México, dependerá de um enorme contingente de trabalhadores para funcionar. Muitos deles permanecerão invisíveis para o público.
Documentos divulgados pela cidade de Seattle ajudam a dimensionar essa engrenagem. O contrato firmado para a utilização do Lumen Field, uma das sedes do torneio, mostra que os custos com mão de obra ultrapassam US$ 1,27 milhão por jogo. Apenas os serviços de segurança representam cerca de US$ 853 mil. Já os serviços de limpeza e coleta de resíduos somam mais de US$ 120 mil.
Os números revelam uma realidade pouco discutida: o maior espetáculo do futebol é sustentado por milhares de pessoas que raramente aparecem na narrativa oficial do evento.
A própria organização da Copa evidencia essa demanda. Em Boston, o comitê organizador abriu processos de pré-qualificação para empresas interessadas em prestar serviços de limpeza e gestão de resíduos durante o FIFA Fan Festival. Entre as exigências estão capacidade operacional, experiência prévia em grandes eventos, comprovação de seguros, políticas de saúde e segurança, além da garantia de que todos os trabalhadores estejam legalmente autorizados a atuar nos Estados Unidos.
O escopo dos serviços vai muito além de varrer espaços. Ele inclui planejamento, mobilização de equipes, monitoramento, documentação, sustentabilidade, transporte de resíduos e conformidade com normas locais e federais.
Essa força de trabalho dialoga com outro debate em curso nos Estados Unidos: a imigração.
Setores como hotelaria, alimentação, limpeza e serviços gerais historicamente contam com forte participação de trabalhadores imigrantes. Enquanto a Copa se prepara para receber visitantes internacionais, o país vive um endurecimento do discurso migratório.
Recentemente, o governo do presidente Donald Trump lançou o site “aliens.gov”, utilizando o termo “alienígenas” para se referir a imigrantes em situação irregular. A plataforma compara a imigração a uma invasão e incentiva denúncias à agência responsável pela fiscalização migratória.
A contradição chama atenção: muitos dos trabalhadores que garantem o funcionamento cotidiano das cidades, dos hotéis e dos grandes eventos são justamente aqueles que, em determinados discursos políticos, aparecem como ameaça.
Enquanto o mundo acompanha os 90 minutos, existe uma multidão anônima fazendo a Copa acontecer.



